Grandes indústrias têm dificuldade de encontrar profissionais qualificados

O crescimento da economia brasileira derrubou as taxas de desemprego nos últimos meses. Mas já está faltando mão-de-obra qualificada. Setores importantes da indústria – que pagam bons salários – têm o desafio de encontrar profissionais.

Três milhões de carros por ano saem das fábricas instaladas no Brasil. O setor cresce cerca de 20% ao ano. Para atender a procura por carros, a indústria abriu 14 mil vagas no ano passado. Quase todas para trabalhadores qualificados.

Em São José dos Campos, a montadora GM, que é uma das maiores no país, não só teve que aumentar rapidamente a produção como enfrentou um desafio extra: com a globalização da economia passou a desenvolver projetos de novos modelos de carros para a economia mundial.

Precisou dobrar a sua equipe de projetistas. Contratou 600 novos engenheiros em apenas dois anos. Não foi fácil.

A montadora encontrou apenas 300 profissionais com experiência. A solução foi chamar 300 recém-formados. Para a engenheira mecânica Helena Osório, uma oportunidade de início de carreira.

“A gente tem muitas opções de treinamento, treinamento no exterior, a gente está em contato com tudo de nova tecnologia que o mercado pode oferecer. É um ramo bastante promissor”, afirma ela.

“Ou você paga para o engenheiro experiente e paga muito, inflaciona o mercado, ou você treina os engenheiros novos para que você consiga uma força de trabalho com custo ainda competitivo”, diz o engenheiro-chefe da montadora, Pedro Manuchakian, explicando a estratégia da empresa.

Falta de profissionais

O sistema de ensino não forma os profissionais que a economia exige. A Petrobrás, por exemplo, acaba de encomendar 46 petroleiros aos estaleiros nacionais. Mas o Brasil forma apenas 31 engenheiros navais por ano.

Até a indústria do álcool, em franca expansão, está mal servida. Formam-se 12 engenheiros especializados na área por ano. Noventa novas usinas de açúcar e álcool estão em implantação. A indústria de máquinas já garantiu os equipamentos e há áreas para as plantações. O risco é a falta de engenheiros.

“Há uma carência também para operadores de máquinas, de tratores, de colhedeiras e de máquinas de plantio. Se nós temos hoje um problema nessa expansão eu diria que o problema está centrado na questão da mão-de-obra”, ressalta Antônio de Pádua Rodrigues, diretor da Única (União da Indústria da Cana-de-Açúcar).

A mineração, que é chave na pauta de exportação, também vive escassez de profissionais qualificados. Os 74 engenheiros de minas que se formam por ano são disputados por 7 mil empresas. Só a maior delas tem planos de empregar 1.000 profissionais nos próximos cinco anos.

“Engenheiros temos, mas não necessariamente nas especialidades que nós precisamos. Então nós trazemos de outras formações e formamos dentro de casa”, diz a diretora de recursos humanos Maria Gurgel.

Outros setores decisivos: gás e petróleo. Com investimentos anuais na casa dos US$ 20 bilhões, estima-se que até 2009 será necessário empregar 112 mil profissionais. O Prominp, um programa governamental de qualificação de mão-de-obra, abriu 953 cursos.

"O desafio que nós temos é usar esses investimentos no setor de petróleo e gás para promover o desenvolvimento de maneira competitiva da nossa indústria. Para que isso tudo seja feito no Brasil por brasileiros”, ressalta o coordenador do programa, José Renato de Almeida.

Do contrário, diz ele, será necessário trazer trabalhadores de fora do país.

Cursos


Quem se qualificar vai aproveitar a boa maré. Em um curso de tubulações para gás e petróleo no Rio de Janeiro, os alunos têm um horizonte invejável de salário.

“Na faixa de R$ 10 mil a R$ 12 mil, nível 2. Nível 1 está na faixa de R$ 7 mil, R$ 8 mil”, diz o técnico de manutenção Walter Fabrício.

Já os jovens que aprendem montagem de esquadrias no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em São Paulo, estão em busca do primeiro emprego. E a construção civil é um bom caminho.

“Se a gente for numa empresa e (ela) estiver precisando de montadores nós vamos com certeza ser os primeiros a ter essa oportunidade de trabalho, né?”, diz Gustavo Sakai, de 24 anos.

“Você tem um conhecimento a mais que um concorrente no caso, né? Então acho que conta muito”, diz Bruno Lima, de 18 anos.


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