
“É preocupante, mas pelo menos agora temos um Banco Central vigilante e que não mais depende para suas ações de ter que atender necessidades do Tesouro”, disse Bacha, um dos homenageados com a Medalha Pedro Ernesto, na Câmara de Vereadores do Rio.
“Naquele tempo nós tínhamos problemas porque as contas fiscais estavam muito fora de ordem e não havia um Banco Central com capacidade de controlar a inflação como hoje temos”, completa.
Também homenageado, o ex-presidente do BC, Gustavo Franco, vê muitas diferenças na comparação com o período de criação do Real. "Inventamos um hiperinflação, uma crise de proporções destrutivas, como poucas vezes se viu na história da humanidade. Agora, não. Com o país civilizado e organizado, estamos enfrentando uma inflação que sobe 4,5% para 5,5% ao ano, (...) quando isso era uma inflação de dois dias da nossa época", disse.
Além de Bacha e Franco, recebem a medalha os integrantes da equipe econômica do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, André Lara Rezende e Pérsio Árida. A homenagem é uma sugestão da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB-RJ).
Taxa de juros
Para Bacha, a taxa de juros aumento é "um instrumento que existe, infelizmente, para controlar a inflação na falta de um controle fiscal mais forte".
"Foi por falta de disciplina monetária e fiscal, antes do Real, que nós chegamos a uma inflação de 3.000%. É muito bom agora que a gente tenha um Banco Central que está atento a esse problema, o principal da população brasileira, que é manter o poder de compra do salário através da estabilidade do preço. É isso que importa”, disse.
O economista rejeita a idéia de criação de um novo imposto para substituir a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), criado na gestão FHC, que foi extinto, no Congresso, em dezembro.
"isso é uma coisa ruim. Acho que foi um alívio termos nos livrado da CPMF, coisa que a gente teve que criar lá atrás e foi um remendo que a gente fez no plano porque não pode contar com a emenda constitucional naquele período. A CPMF durou mais do que ela devia. Já não devia estar se pensando em voltá-la", disse.
Também para o ex-presidente do BC Gustavo Franco, a CPMF já cumpriu "seu ciclo". "Reduzir despesas é o caminho. É por aí que devemos caminhar", disse.
Nesta segunda, o governo negou que pretenda criar um novo imposto para compensar as perdas para a saúde com o fim da CPMF.
Edmar Bacha considera a criação de "fundo soberano", conforme foi anunciado pelo ministro Guido Mantega, na semana passada, uma "má idéia".
"Não temos dinheiro para fazer fundo soberano, ao contrário da China, que tem recursos de sobra e aplica o excesso de recursos. Nós vamos nos endividar mais internamente para aplicar no fundo soberano que vai render menos do que vai custar a dívida com o qual o fundo vai ser comprado", disse.
Na opinião do economista, o fundo não servirá como superávit porque o Brasil não possui superávit.
"Essa coisa de superávit é uma mitologia. Se você contar todas as despesas do governo, não somente com salários, gastos, mas também com juros, o governo tem déficit. Teve um pequeno superávit no mês de março, mas é uma coisa que não vai se repetir. Provavelmente, estamos caminhando no final do ano para um déficit de 2% do PIB", disse.
Para Gustavo Franco, a idéia lembra "diversos tipos de feitiçaria que no passado se quis fazer nas reservas internacionais".
"Nos falta todas as condições fundamentais para ter um fundo soberano como outros países têm. Seríamos o único caso do mundo de fundo soberano aonde o fundo toma dinheiro emprestado para funcionar e é feito para perder dinheiro", critica.