‘Inflação ainda preocupa, mas não como antes’, diz um dos 'pais' do Real

20 de maio de 2008 às 12:17
O economista Edmar Bacha, que integrou a equipe econômica que criou o Plano Real, disse nesta segunda-feira (19), que 15 anos após a criação da moeda, a inflação ainda preocupa, mas não como antes.

“É preocupante, mas pelo menos agora temos um Banco Central vigilante e que não mais depende para suas ações de ter que atender necessidades do Tesouro”, disse Bacha, um dos homenageados com a Medalha Pedro Ernesto, na Câmara de Vereadores do Rio.

“Naquele tempo nós tínhamos problemas porque as contas fiscais estavam muito fora de ordem e não havia um Banco Central com capacidade de controlar a inflação como hoje temos”, completa.

 

Também homenageado, o ex-presidente do BC, Gustavo Franco, vê muitas diferenças na comparação com o período de criação do Real. "Inventamos um hiperinflação, uma crise de proporções destrutivas, como poucas vezes se viu na história da humanidade. Agora, não. Com o país civilizado e organizado, estamos enfrentando uma inflação que sobe 4,5% para 5,5% ao ano, (...) quando isso era uma inflação de dois dias da nossa época", disse.

Além de Bacha e Franco, recebem a medalha os integrantes da equipe econômica do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, André Lara Rezende e Pérsio Árida. A homenagem é uma sugestão da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB-RJ).

 

  Taxa de juros

Para Bacha, a taxa de juros aumento é "um instrumento que existe, infelizmente, para controlar a inflação na falta de um controle fiscal mais forte".

 

"Foi por falta de disciplina monetária e fiscal, antes do Real, que nós chegamos a uma inflação de 3.000%. É muito bom agora que a gente tenha um Banco Central que está atento a esse problema, o principal da população brasileira, que é manter o poder de compra do salário através da estabilidade do preço. É isso que importa”, disse.

 CPMF

O economista rejeita a idéia de criação de um novo imposto para substituir a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), criado na gestão FHC, que foi extinto, no Congresso, em dezembro. 

 

"isso é uma coisa ruim. Acho que foi um alívio termos nos livrado da CPMF, coisa que a gente teve que criar lá atrás e foi um remendo que a gente fez no plano porque não pode contar com a emenda constitucional naquele período. A CPMF durou mais do que ela devia. Já não devia estar se pensando em voltá-la", disse.

 

Também para o ex-presidente do BC Gustavo Franco, a CPMF já cumpriu "seu ciclo". "Reduzir despesas é o caminho. É por aí que devemos caminhar", disse.

 

Nesta segunda, o governo negou que pretenda criar um novo imposto para compensar as perdas para a saúde com o fim da CPMF.

 

 

 Fundo soberano e superávit

Edmar Bacha considera a criação de "fundo soberano", conforme foi anunciado pelo ministro Guido Mantega, na semana passada, uma "má idéia".

 

"Não temos dinheiro para fazer fundo soberano, ao contrário da China, que tem recursos de sobra e aplica o excesso de recursos. Nós vamos nos endividar mais internamente para aplicar no fundo soberano que vai render menos do que vai custar a dívida com o qual o fundo vai ser comprado", disse. 

Na opinião do economista, o fundo não servirá como superávit porque o Brasil não possui superávit.

 

"Essa coisa de superávit é uma mitologia. Se você contar todas as despesas do governo, não somente com salários, gastos, mas também com juros, o governo tem déficit. Teve um pequeno superávit no mês de março, mas é uma coisa que não vai se repetir. Provavelmente, estamos caminhando no final do ano para um déficit de 2% do PIB", disse. 

 

Para Gustavo Franco, a idéia lembra "diversos tipos de feitiçaria que no passado se quis fazer nas reservas internacionais".

 

"Nos falta todas as condições fundamentais para ter um fundo soberano como outros países têm. Seríamos o único caso do mundo de fundo soberano aonde o fundo toma dinheiro emprestado para funcionar e é feito para perder dinheiro", critica.

 

 Malan
O ex-ministro Pedro Malan, que ao receber a medalha listou uma série de conquistas do Plano Real, também analisou a proposta de criação do Fundo Soberano. “Essa idéia surgiu pela primeira vez em outubro do ano passado. Passaram-se nove meses e ela continua levando especialistas e analistas a uma enorme dificuldade de interpretação de como ele será constituído, quais são suas prioridades. O fato é o seguinte: as explicações de Fundo Soberano que existem no mundo hoje mostram que praticamente todos eles, sem execeção, são países que têm superávit estrutural no seu balanço de pagamento em conta corrente, o que não é o caso do Brasil”, disse.

E alfinetou: “Os gastos correntes do governo, despesas de consumo do governo, estão crescendo há algum tempo a uma taxa duas vezes acima da taxa de crescimento do PIB. Essa não é uma situação saudável numa perspectiva de médio e longo prazo. O nome do jogo, hoje, a meu ver, seria controlar as taxas de crescimento dos gastos de consumo do governo que comprimem os gastos de investimentos que ainda são menos de um ponto percentual do PIB”, concluiu Malan.

Para o evento na Câmara dos Vereadores, estavam previstas as presenças do governador de Minas, Aécio Neves, além de Tasso Jereissati e Geraldo Alckimin, José Serra e Marco Maciel, que fazem parte da alta cúpula do PSDB. Eles, no entanto, alegaram compromissos que já estavam agendados. Serra foi representado por seu vice no governo de São Paulo, Alberto Goldman. 

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