O Brasil, a despeito da teimosia dos juros altos, da ausência das reformas estruturais e da insistência numa política cambial conspiratória contra os exportadores, consegue manter-se em razoável ritmo de crescimento e significativa performance de exportações. Com o Real tão apreciado, pode parecer um paradoxo o volume das vendas externas, que estão, literalmente, salvando a Pátria, pois as importações também crescem, juntamente com a remessa de lucros e outros fatores que pressionam a balança de pagamentos.
Contudo, não há contradição alguma nessa questão. Basta analisar a pauta nacional de exportações. Estamos, basicamente, vendendo no mercado externo — e bem! — dois itens: as commodities, como sempre ocorreu, e algo aparentemente intangível, a inteligência. Esta virtude, embora poucos atentem para o fato, está presente em parte expressiva dos produtos brasileiros comprados pelos estrangeiros.
A relação dos itens que agregam esse valor fundamental inclui até mesmo os produtos do agronegócio, como o etanol e a soja, que incorporam a nossa preciosa tecnologia no setor, para a qual muito contribui a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Aviões, automóveis — cujo design brasileiro é cada vez mais adotado na produção globalizada das montadoras — e, de modo crescente, o software ocupam espaços importantes nas vendas externas.
A Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) enumera alguns itens essenciais do País à atratividade de investimentos, evidenciando o significado da inteligência como predicado do desenvolvimento: o Brasil possui o maior e mais diversificado sistema de ciência, tecnologia e inovação da América Latina; diferencial competitivo nos setores de construção de aeronaves, exploração de petróleo em águas profundas e desenvolvimento de software; competência consolidada internacionalmente na produção de combustível à base de etanol e biodiesel; excelência na produção de equipamentos e fornecimento de serviços médico-hospitalares; em 2006, o País formou 9.396 doutores e 29.761 mestres; o crescimento do número de computadores entre 2002 e 2007 foi superior a 120%, alcançando mais de 29 milhões de PCs, número que representa 40% do total da América Latina; o total de usuários de internet no Brasil (53 milhões de pessoas) cresceu mais de 270% nos últimos cinco anos.
A inteligência agregada ao produto é um fator fundamental às empresas, conforme é possível constatar no exemplo da Dimep, que cresceu mais de 200% nos últimos cinco anos, em especial devido aos investimentos no desenvolvimento e produção de hardware e software, 100% brasileiros, para o controle de ponto e acesso. Com isto, estamos exportando para a Europa e começando a ganhar os mercados da América, em especial Estados Unidos e México.
A produção, baseada na decisão de pesquisar, inovar e produzir tecnologia nacional, é uma tendência que desafia os obstáculos ainda existentes no Brasil, mas que responde ao desafio contido em novíssimo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Trata-se do documento “A transformação produtiva 20 anos depois — Velhos problemas, novas oportunidades”, cuja síntese é inexorável: a América Latina deve promover uma cultura de inovação que lhe permita beneficiar-se das oportunidades existentes no mercado mundial.
*Dimas de Melo Pimenta II, economista, é presidente da Dimep – Sistemas de Ponto e Acesso e diretor do Departamento Sindical (Desin) da Fiesp.