O cenário é de ficção. O mitológico rio Orinoco, berço das populações indígenas da Venezuela, é o principal personagem da obra “Le Superbe Orénoque”, do visionário escritor francês Jules Verne, autor do clássico “Vinte Mil Léguas Submarinas”. No finalzinho do século XIX, Verne já imaginava o poderoso Orinoco sendo cruzado por um trem. A partir da próxima segunda-feira 13, não apenas uma locomotiva, mas também automóveis e caminhões poderão rodar sobre a nova ponte rodoferroviária, uma obra monumental erguida pela construtora brasileira Norberto Odebrecht. Com 3,2 quilômetros de extensão e 180 quilômetros de estradas de acesso, é a principal obra de infra-estrutura da Venezuela. Custou US$ 1,2 bilhão e deverá ser inaugurada pelos presidentes Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva.
A incursão da Odebrecht na Venezuela, onde também atua na construção do metrô de Caracas, faz parte de uma estratégia de internacionalização que começou há mais de 25 anos. Hoje, a empresa atua em 12 países além do Brasil (leia quadro abaixo) e obtém do Exterior 75% de seu faturamento. Um detalhe: somente 800 brasileiros trabalham para a Odebrecht no Exterior, onde tem cerca de dez mil funcionários. “Lá fora, buscamos sempre atuar de forma local. É uma estratégia de nacionalização dentro da internacionalização”, diz o diretor da Área de Exportação, Fernando Santos Reis.
A tendência de crescimento em outros pontos do planeta alastrou-se entre as companhias brasileiras nos últimos anos. Segundo o Banco Central, os investimentos diretos brasileiros no Exterior somavam US$ 54,9 bilhões em 2003 e, no ano passado, alcançaram US$ 71,8 bilhões – uma alta de 31%. Este ano, até setembro, foram investidos mais US$ 7,8 bilhões. Com a recente compra da canadense Inco pela Companhia Vale do Rio Doce, um negócio que pode chegar a US$ 18 bilhões, os investimentos brasileiros em outros países devem romper em breve a marca dos US$ 100 bilhões.
O Brasil é um dos quatro países emergentes que mais investem fora de casa. Perde apenas para a China (Hong Kong), Cingapura e Taiwan. As mais agressivas na internacionalização são as companhias de setores onde há concentração de mercado e produtos básicos, como o siderúrgico, o de mineração e o de alimentos. Naturalmente há exceções, caso da Embraer e da Natura. O que não falta são brasileiros procurando bons negócios nos outros países.
A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) está tentando comprar o grupo anglo-holandês Corus. O Grupo Gerdau – o conglomerado brasileiro mais internacionalizado, segundo ranking da Fundação Dom Cabral – deve adquirir a Aceros Bragado, segunda maior siderúrgica de aços longos da Argentina. A Coteminas negocia a compra de uma fábrica na China. A Braskem, do Grupo Odebrecht, terá metade de uma joint-venture. E por aí vai. “O Brasil ficou pequeno para muitas empresas que sobreviveram à abertura dos mercados nos anos 90 e ganharam competitividade internacional”, diz Álvaro Cyrino, professor da Fundação Dom Cabral.
Onde investem as brasileiras mais globais*
Gerdau: Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Peru, EUA, Canadá, Espanha
Construtora Norberto Odebrecht: Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, República Dominicana, México, EUA, Portugal, Angola, Emirados Árabes
CVRD: Canadá, Noruega, França, Angola, Argentina, Austrália, Chile, Gabão, Moçambique, Mongólia, Peru e África do Sul
Petrobras: Argentina, Bolívia, Colômbia, EUA, Nigéria e Angola
Marcopolo: México, Colômbia, Portugal, África do Sul, Índia e Rússia
Sabó: Argentina, Alemanha, Hungria, Áustria, EUA
Construtora Andrade Gutierrez: Argentina, México, Peru, Equador, República Dominicana, Panamá, Portugal, Angola, Mauritânia, Argélia, Guiné Equatorial, Grécia, Emirados Árabes
Weg: China, Portugal, México e Argentina
Embraer: EUA, Cingapura, Portugal, França e China
Tigre: Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia
*Segundo o ranking da Fundação dom Cabral