A administradora de empresas Simone Lopes, carioca, de 24 anos, sabia exatamente o rumo que daria em sua carreira quando concluísse a graduação no Ibmec-RJ: fazer um MBA em gestão de negócios. Mesmo atuando como trainee na área de auditoria da KPMG, poucos meses depois de formada, em 2003, ela conseguiu conciliar as atividades acadêmicas com as profissionais. Praticamente emendou um curso no outro. "Decidi não esperar tempo algum para buscar uma especialização", diz. "Optei por esse caminho pensando em crescer mais rapidamente".
Com um ano de MBA, Simone, uma das mais novas de sua turma - que tem como faixa etária estudantes entre 26 e 35 anos -, é categórica ao dizer que aplica (e muito) as discussões da sala de aula em seu dia-a-dia. "A pouca idade ou mesmo a falta de experiência em nada me dificultam acompanhar bem o curso", conta Simone, que hoje está na área de consultoria da KPMG. "Levo inúmeras técnicas que aprendo no MBA para os clientes atuais, entre eles Petrobras, Lafarge e CSN".
O movimento profissional de Simone Lopes é mais comum do que se imagina. As empresas são mais exigentes na seleção dos candidatos e um título a mais pode ser quesito de desempate na hora da contratação. Além disso, muitos recém-formados não se sentem capazes de exercer suas funções somente com o que aprendem na graduação. E o resultado dessa acirrada busca por aprendizado chega às universidades, que criam programas especialmente voltados para jovens recém-formados. "É preciso procurar o curso ideal para cada estágio da carreira", diz Luciana Sarkozy, sócia-diretora da Career Center.
Mas será que existe hora certa para se aperfeiçoar seja por meio de cursos de extensão, pós-graduação, mestrado ou MBA? Na opinião do consultor Ricardo Thomaz, antes de se pensar na qualificação adequada ao mercado, a pessoa deve avaliar se a qualificação é apropriada para si próprio em termos profissionais. "Não se deve esquecer que o candidato concorrente pode ter mais formação e experiência", diz. Para ele, os investimentos em educação devem ser concentrados na área em que se deseja atuar. "O importante é não parar de aperfeiçoar-se e saber que tipo de curso se encaixa a cada nível profissional", ressalta Thomaz.
Justamente essa continuidade da formação, com critérios, pode ser considerada a intercessão de pensamento entre os profissionais da área de recursos humanos, das instituições de ensino, dos consultores e headhunters. O diretor acadêmico dos cursos de pós-graduação da ESPM-SP, Richard Lucht, por exemplo, observa que a escola, de fato, tem intensa procura de jovens profissionais das mais diversas áreas. E todos, segundo ele, desejam preencher as lacunas da graduação com algum tipo de complementação acadêmica. "A informação hoje tem curto prazo de validade. Não dá para deixar de lado o aprendizado mesmo com pouco tempo de formado", diz Lucht.
Para atender a esse público, a ESPM criou há três anos o curso de especialização primeira gerência em gestão de negócios. Voltada para profissionais entre 22 e 27 anos, ele tem duração de um ano e meio. E o objetivo é oferecer uma experiência abrangente. "Enquanto um MBA discute assuntos estratégicos, o primeira gerência ensina a operação", explica o diretor, que aos 32 anos, já é doutor em administração pela FGV-SP.
O Instituto Coppead, da UFRJ, é outra escola que passou a oferecer programas de formação para jovens profissionais, por conta da demanda de candidatos interessados. São cursos de extensão com 200 horas e que se propõem a formar profissionais para o mercado de trabalho e não para o meio acadêmico. Hoje já existem cursos na área de marketing, logística, finanças, administração internacional e varejo. Segundo Maribel Suarez, coordenadora do programa de formação em marketing, muitos dos programas tradicionais oferecidos pelo Coppead exigiam experiência profissional mínima de cinco anos ou vivência na área. "Nenhum tinha a ver com o perfil desses candidatos novatos", conta. "O que eles desejam é aprender a executar as tarefas e diminuir a ansiedade em relação ao mundo corporativo".
Mas há também quem decida continuar na sala de aula por conta da dificuldade de colocação. Gabriela Bicalho, doutora em educação pela UFMG, acredita que muitos recém-formados não conseguem colocação imediata após a graduação, por isso vêem nos cursos de especialização, pós, mestrado ou MBA uma alternativa para não comprometer suas carreiras. "A concorrência é enorme e as empresas exigem uma superqualificação dos candidatos. Essa é a perversividade do mercado de trabalho atual", afirma Gabriela.
Para Luciana Sarkozy, da Career Center, é importante salientar ainda que a educação é uma parte da carreira, mas não o todo. "As companhias valorizam tanto os cursos quanto as experiências", diz. "Mas hoje, a educação continuada é realidade. Enquanto a bagagem cultural e atualização profissional são diferenciais".
Cristina Bonina, diretora de recursos humanos da KPMG Brasil também defende a tese, destacando que os cursos podem representar um grande valor agregado pelo fato de manterem os jovens no meio estudantil, o que pode representar uma ferramenta positiva de networking. "Ainda assim, olho com reservas porque penso que a prática e o idioma são excelentes diferenciais na hora da seleção". A professora do curso de Comunicação Social da PUC-RJ, Sonia Miranda, acredita que para as empresas, o ideal é contratar pessoas com conhecimento teórico e prático. "Profissionais com experiências e cursos significativos", diz. "Cursos ministrados pelas instituições de ensino respeitadas pelo mercado valorizam os currículos e se transformam em grifes. E ao demonstrar eficiência no mercado, esse aluno demonstra a qualidade do conhecimento adquirido. É um círculo vicioso".
Por essa razão, o consultor Fernando Cyrino diz que na hora da contratação o que decide é o que se busca. Ao abordar o tema, ele compara a situação ao automóvel. "Todo veículo precisa de freio, ou seja, de pessoas com mais experiência e que aprenderam com a vida, com os erros. E também precisa do acelerador, os jovens que querem velocidade", diz. "Imagine um carro sem freio. Vai cair no buraco. Ao mesmo tempo um carro sem acelerador não sai do lugar. O mesmo acontece na vida corporativa. É preciso mesclar experiência e academicismo".