E também porque os investidores terão a ingrata tarefa de se decidir entre o pessimismo inflacionário do Banco Central e o otimismo que predominou ontem nos mercados internacionais. Enquanto a decisão do BC de elevar o juro básico para 19,50% exige correções negativas no mercado monetário e na Bovespa, a sinalização que vem de fora é no sentido oposto.
O discurso pronunciado ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed), Alan Greenspan, no Senado americano, se repisou os alertas sobre as conseqüências desastrosas a longo prazo do déficit fiscal dos EUA, reiterou o otimismo no curto prazo. Greenspan afastou o perigo de estagflação (baixo crescimento conjugado com inflação alta) e ajudou as bolsas de Wall Street a fechar com fortes altas.
Em princípio, o pregão de DI futuro da BM & F, apesar de ter operado com viés pessimista na tarde de quarta-feira, já preparando-se para uma decisão conservadora do Copom, deve prosseguir no ajuste para cima das projeções de CDI. Sobretudo os contratos mais curtos podem sofrer altas vigorosas porque a tendência dos tesoureiros é não mais confiar plenamente nas sinalizações do BC de estabilidade do juro básico. A elevação de apenas 0,25 ponto da taxa básica não se destina a desacelerar a alta e indicar a parada técnica em maio.
A impressão geral é de que a magnitude menor do avanço se destina exclusivamente a ganhar tempo até que o BC tenha certeza sobre o próximo passo - que pode ser tanto a manutenção da Selic em 19,50% quanto prosseguimento do aperto. Na dúvida, para efeito dos negócios do DI futuro, prevalecerá a versão mais nefasta.
O caminho a ser seguido pelo mercado de ações é mais fácil. A opção pela bússola de Nova York se imporá principalmente se o capital externo voltar às compras no pregão paulista. A pesada queda sofrida ontem pelo risco-país - fechou a 436 pontos-base, tombo de 6,44% em relação aos 466 pontos-base de quarta-feira - aponta para a direção do retorno dos investidores externos na ponta de compra de papéis brasileiros, sejam bônus, sejam ações.
Ao contrário dos outros mercados, afetados pelo pessimismo do BC, o dólar é favorecido por ele. A moeda americana tem todos os motivos do mundo para persistir caindo no Brasil. Na quarta-feira, furou o piso do ano. Fechou em baixa de 0,50%, cotada a R$ 2,5620, menor preço deste 3 de junho de 2002. A Selic 0,25 ponto maior é fator adicional de atração em rentabilidade que, antes da alta, já era a maior do mundo. Mas não são os especuladores internacionais em busca do juro fácil os que mais contribuem para a derrocada do dólar.
Os números sobre o comportamento da balança cambial na primeira quinzena de abril mostram uma predominância dos dólares trazidos pelos exportadores. O fluxo cambial só foi positivo em US$ 1,13 bilhão nos primeiros onze dias úteis do mês graças às exportações. O saldo positivo em US$ 2,044 bilhões do lado comercial neutralizou o déficit de US$ 735 milhões exibido pelo lado financeiro. Os exportadores, seduzidos pela Selic alta, não estão usando o prazo legal de 210 dias para internalizar os dólares.