Motivo para nível de juros brasileiros divide estudiosos

O Banco Central do Brasil decidiu manter inalterada a taxa de juros em 13,75%. Mas, apesar da interrupção nas altas que vinham desde abril, o Brasil segue nas primeiras posições do ranking de países com as maiores taxas de juros reais do mundo, com 8%, levando-se em conta a expectativa de inflação de 5,29% para os próximos 12 meses, como foi apontado pelo relatório Focus, divulgado pelo BC na segunda-feira.

Segundo economistas, não existe consenso --nem no mercado e tampouco no mundo acadêmico-- sobre os motivos para uma taxa de juros tão alta.

Ainda que a taxa brasileira tenha caído nos últimos dois anos --chegou a 45% em 1999--, o patamar dos juros no Brasil ainda é muito elevado quando comparado com outros países, sejam eles ricos ou emergentes.

A principal explicação, em tese, está na política de metas de inflação. Ou seja, para colocar a inflação na meta, atualmente 4,5%, o Banco Central precisa de uma taxa de juros elevada.

Os juros são o principal instrumento para controle da inflação. Ou seja, os governos precisam aumentar os juros quando a economia está superaquecida.

No entanto, outros países que possuem inflação superior à do Brasil não têm juros tão elevados quanto os nossos.

Incerteza jurisdicional

O professor da PUC-Rio, Márcio Garcia, diz que a inflação não é o único motivo para juros tão altos.

O economista está pesquisando as razões dos juros elevados no Brasil. Ele e seu colega no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Roberto Rigobon, já levantaram oito possíveis explicações até o momento. Os resultados serão divulgados em um artigo acadêmico, previsto para janeiro do ano que vem.

Uma das explicações, segundo Garcia, é a chamada "incerteza jurisdicional", ou seja, a falta de um ambiente seguro no que diz respeito à Justiça e ao direito privado levaria o país a compensar esse risco com juros mais altos.

Outra explicação é de que o crédito no Brasil ainda é baixo em relação ao PIB (cerca de 35%). Com isso, o aumento dos juros teria pouco impacto sobre o consumo, exigindo do BC uma dose mais alta de juros para conseguir frear a demanda.

No entanto, uma das razões mais citadas por economistas está no tamanho da dívida brasileira em relação ao PIB. Nesse caso, o culpado pelos juros altos seria o próprio governo, que gasta demais.

Essa é a opinião, por exemplo, da economista Eliana Cardoso, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em São Paulo.

"É a única explicação que encontro", diz. A tese é de que o governo gasta demais e aumenta seu risco de calote. Para compensar, precisa oferecer juros atraentes ao investidor.

Mistério

Já o professor Fernando Carlos Cerqueira, da UFRJ, diz que a relação da dívida com os juros não é tão clara. Ele diz, por exemplo, que quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, a dívida pública era praticamente a metade da de hoje.

"Nem por isso tínhamos juros baixos", diz.

Segundo Cerqueira, o Brasil tem juros elevados desde o século 19 e que não se deve descartar aspectos sociais e políticos para explicar esse fato.

"O Brasil é, tradicionalmente, um país com uma forte elite que vive de renda", diz o professor. Ele diz, porém, que não conhece nenhum estudo aprofundado sobre as causas dos juros altos no país.

O especialista em política monetária da Universidade da Califórnia, Berry Eichengreen, diz que existem "muitas teorias" que poderiam explicar o patamar elevado dos juros no Brasil.

"A verdadeira explicação, porém, continua sendo um mistério", diz.



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