Multimercados rendem mais, mas captam menos que fundos de ações

Um comportamento aparentemente contraditório acomete duas classes de fundos de investimentos. Mesmo acumulando rentabilidade de 5,22% de janeiro até 19 de setembro, os multimercados – que podem destinar os recursos a diversos tipos de aplicações – vêm sofrendo desde o começo do ano com saques sucessivos e vultosos. Já os fundos de ações, que apresentam retorno negativo de 20,08% no mesmo período, ainda registram mais depósitos do que resgates em 2008, de acordo com os dados do site financeiro Fortuna.

Os multimercados já perderam, no saldo entre aplicações e resgates, R$ 30,786 bilhões neste ano, o que equivale a 16,5% de todo o patrimônio que possuíam em dezembro. Os fundos de ações, por sua vez, sentiram na rentabilidade os efeitos da crise financeira originada nos Estados Unidos, mas ainda conseguiram captar R$ 4,551 bilhões desde janeiro, representando um aumento de 5,56% em relação ao patrimônio que possuíam no fim de 2007.

 

Parte do problema, segundo analistas, está no referencial adotado na hora de oferecer os multimercados. “O parâmetro para estes fundos é a taxa do CDI”, diz o diretor do Fortuna, Marcelo D’Agosto. A taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), principal referência das seguras aplicações em renda fixa, representa os juros cobrados nos empréstimos feitos entre os bancos e se aproxima muito da taxa básica da economia brasileira, a Selic. Neste ano, o CDI já alcança retorno acumulado de 8,39%, muito acima dos fundos. Um multimercado que se propusesse a bater 140% do CDI, por exemplo, deveria estar rendendo hoje 11,75% no ano.

“O investidor de multimercados considera que o gestor saberá escolher entre aplicações a juros, na Bolsa, em câmbio. Ganhando uma vez, perdendo outra, espera um retorno acima do CDI”, afirma o sócio-diretor da Mercatto Investimentos, Paulo Veiga. Diluindo os recursos entre vários mercados, cada qual com um nível de risco, os multimercados são, em tese, menos arriscados que os fundos de ações. A expectativa de retorno, conseqüentemente, é menor. “Um fundo que alcança 200% do CDI tem um resultado excepcional, mas outro que não chega a 70% do referencial frustra o investidor”, afirma Veiga.

Em que os multimercados investem, afinal?

Outro fator que contribui para os resgates nos multimercados reside na incerteza do investidor sobre onde está, de fato, aplicado o dinheiro. “Pensar no Índice Bovespa, que é a referência dos fundos de ações, parece muito mais palpável do que pensar nos multimercados, que incluem uma infinidade de aplicações”, opina o diretor da Precision Asset Management, André Schibuola. Por isso, destaca o especialista, para continuar aplicando em um fundo destes, o investidor precisa de muito mais confiança no gestor do que necessitaria para apostar em outro, que tenha como objetivo seguir a variação do principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo.

“O investidor entende menos sobre os riscos envolvidos com todas as aplicações feitas por um fundo multimercado”, diz Schibuola. “No caso dos fundos de ações, o risco é um só.”

 

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