Consumidores norte-americanos auferem lucros com ações
Bruxelas - As previsões de que este ano será o quarto consecutivo ano de lucros para investimentos em ações, desde o fim do mercado em queda (bear market) em março de 2003, predominam entre os mais conceituados gurus. A maioria dos administradores de capitais e dos consultores estratégicos apóia estas avaliações otimistas, segundo as quais os EUA continuarão comprando produtos e serviços de todo o mundo e o preço do petróleo não registrará novas altas.
Se os consumidores norte-americanos não cessarem de gastar, então as bolsas de valores internacionais serão levadas a novas alturas neste ano. Os poderosos gurus prevêem, ainda, que determinados mercados, especificamente o Japão, "vão roubar a cena" também neste ano, enquanto os destinos seguintes mais atraente para investimentos serão, novamente, os mercados emergentes, China, Índia e Brasil.
O grande salto das bolsas de valores internacionais surpreendeu muitos administradores de capitais e consultores estratégicos. Em dezembro de 2004, haviam previsto que os indicadores das bolsas das ações blue chips nos EUA, Europa e Japão registrariam lucros limitados. Contudo, o crescimento mais forte do que o esperado das locomotivas da economia mundial - EUA e China - e os lucros mais altos do que os previstos das empresas alimentaram a impressionante corrida das bolsas de valores em todo o mundo.
Do início do ano passado, até 21 de dezembro foram registrados os seguintes lucros: o indicador Nikkei do Japão, 38,90%, o alemão DAX, 26,81%, o francês CAC-40, 24,37%, o britânico FTSE-100, 16,09%, e os norte-americanos Dow Jones e Standard & Poor"s 500, 1% e 4,80%, respectivamente. Anotem que os indicadores de empresas de média e pequena capitalização registraram percentual de lucratividade ainda maior.
Wall Street
Wall Street foi o mercado que mais decepcionou os investidores ano passado. Mas os administradores de capitais acreditam que chegou a hora e a vez das ações norte-americanas. Por este motivo aumentam o percentual delas em seus portfólios. Prevêem que Wall Street proporcionará rendimento de 10% neste ano, mas a média das previsões dissimula ampla divergência de pontos-de-vista.
Contudo, concordam que catalisador será o Federal Reserve (Fed) quando sinalizar o pico das taxas de juros-chaves nos EUA. As taxas de juros de curto prazo foram aumentadas de 1% para 4,25% desde junho de 2004, quando foi iniciado o atual ciclo ascendente, mas predomina a opinião de que haverá uma - ou, quanto muito, duas - nova elevação neste início de 2006.
Mas também advertem que maiores elevações das taxas de juros norte-americanas serão caracterizadas como notícias negativas para a lucratividade empresarial e as bolsas de valores em todo o mundo, caso os gastos de consumo dos norte-americanos sejam afetados e ocorra desaquecimento da atividade econômica.
Melhores rendimentos para as ações norte-americanas neste ano prevêem três dos mais famosos gurus de Wall Street. A conceituada Abby Joseph Cohen, diretora de estratégia de investimentos do Goldman Sachs, prevê que "o indicador Standard & Poor"s 500 registrará lucros de 11% até o final do ano que vem".
Já Thomas McManus, diretor de estratégia de investimentos do Bank of America prevê "lucros de apenas 5,9% neste ano" e Edward Keon, estrategista do Prudential Equity, prevê "alta de ações norte-americanas em 24%". Finalmente, Cohen prevê, também, "lucros de cerca de 11% para o indicador Dow Jones".
Japonês em alta
O Japão foi o mercado de maior alta ano passado e especialistas acreditam que seu desempenho será mantido também neste ano, considerando que as ações japonesas encontram-se no ponto inicial de um longo curso ascendente (bull). Os fatores que impulsionaram o entusiasmo aquisidor dos estrangeiros são a grande queda do iene, as taxas de juros no zero e a forte demanda externa dos EUA e da China. Também, a reeleição - com grande maioria - do primeiro-ministro, Junishiro Koizumi, aumentou as esperanças gerais de que ele poderá agora avançar na realização das dolorosas reformas corretivas.
O cenário otimista sustenta que, depois dos lucros em 40% do indicador Nikkei-225 ano passado, o mercado japonês poderá ganhar mais 10% a 15% neste ano, graças ao crescimento da economia mundial, aos crescentes lucros empresariais e à volta ao mercado doméstico dos investidores japoneses.
Os investidores japoneses, com muito mais dinheiro em espécie nas mãos, graças aos altos bônus e após mudanças corretivas iniciadas em outubro do ano passado sobre os capitais para investimentos e suas vendas aos Correios, passaram a se interessar ao mercado doméstico de ações, mesmo no caso de o Banco Central do Japão (BoJ) - conforme se espera para o final deste ano - elevar a liquidez e, simultaneamente, manter as taxas de juros de curto prazo no atual zero. De fato, este ano será o ano da liquidez para o mercado do Japão.
O guru Noaki Kamiyama, do Morgan Stanley, acredita, por exemplo, que o indicador Nikkei-225 chegará a 17.500 unidades neste ano e o indicador Topix a 1.700 unidades. O guru Shoji Hirakawa, do UBS Securities, avalia que o indicador Topix ficará em 1.680 unidades, enquanto o terceiro guru, Hideki Takayama, da State Street Global Advisors, vê o indicador Topix em 1.750 unidades no final deste ano.
Contudo, outros gurus recomendam alguma atenção, sustentando que o mercado japonês continua tendo consideráveis perspectivas a longo prazo, considerando que a economia está saindo da deflação, mas advertem que é supercomprada. Finalmente, Kirby Daley, estrategista da Fimat Unit do Societe General, prevê que o indicador estará em 16.500 unidades até o final deste ano.
Mary Stassinákis
Sucursal da União Européia.
Opiniões divididas sobre as ações das empresas européias
Zurique - Os pontos-de-vista dos administradores de capitais estão divididos sobre a evolução dos mercados da Europa neste ano. Acreditam eles que a recente elevação das taxas de juros pelo Banco Central Europeu (BCE) não afetará a recuperação da atividade econômica na Zona do Euro. Ainda, prevêem que a melhoria do clima econômico continuará conforme está apoiada sobre o fortalecimento da demanda doméstica, na redução estável do custo empresarial e nas vantagens decorrentes do enfraquecimento do euro.
Um euro enfraquecido contra o dólar tornará os exportadores europeus mais competitivos internacionalmente. Mas os pessimistas destacam que os ritmos de recuperação são, ainda, lentos, apesar das últimas indicações que sinalizam crescimento mais rápido na Zona do Euro e tendência de alta das taxas de juros. A elevação das taxas européias de juros, em sintonia com o aumento da tributação na Alemanha, poderão sufocar a recuperação econômica da Alemanha.
Para a Grã-Bretanha, estima-se que o indicador FTSE-100 quebrará a barreira das 6 mil unidades neste ano. Acredita-se que o mercado britânico produzirá fortes lucros, apesar do fato de que os ritmos de crescimento da economia estão se tornando mais lentos, porque a economia mundial é ainda muito saudável e é isso que vale, alegam administradores de capitais.
Eles também estão otimistas por causa da perspectiva de taxas de juros mais baixas e do aumento da atividade das aquisições e fusões. Finalmente, os ritmos de crescimento econômico mais baixos na Grã-Bretanha poderão levar a novos cortes das taxas britânicas de juros ao longo deste ano.
Laura Britt
Sucursal da União Européia.
RÚSSIA / 2006
EUA tentam eliminar influência geopolítica russa
Relações com vizinhos e com a União Européia
Varsóvia - Ano passado foi particularmente difícil para a Rússia. Seus problemas começaram com a expansão da "epidemia" de levantes na vizinhança da própria Rússia, que teve como primeiro "caso" a Geórgia em 2003. A "revolução das rosas", a retirada das bases russas do território georgiano, as acusações do presidente da Geórgia, Sakaasvili, sobre ações de agentes russos no país e as alegações russas de que o governo de Geórgia apoiava terroristas chechenos levaram - várias vezes - os dois países quase em confrontos armados.
Já com a Ucrânia, as relações eram - e ainda são - extremamente complicadas. Após o apoio direto da Rússia ao candidato à presidência da Ucrânia, Viktor Yanukovitz, o novo presidente do país, Viktor Yushenko, eleito depois da "revolução cor de laranja", restringiu muito seus contatos com o governo de Moscou. Mas a situação mudou sensivelmente, quando, em setembro do ano passado, a Ucrânia viveu uma nova crise, protagonizada pela ex-primeira-ministra do país Yulia Timoshenko, expulsa do governo pelo presidente, sob a acusação de corrupção.
Desde então, as relações Rússia-Ucrânia se alteraram profundamente e o governo de Moscou, em vista das eleições parlamentares ucranianas em março deste ano, parece que resolveu endurecer o "jogo". Motivo aparente são os preços do gás natural que a Rússia vende à Ucrânia e a vontade da Rússia de se desviar dos gasodutos ucranianos, utilizando o território da Bielorússia para suas exportações aos países da Europa Ocidental ou, então, controlá-los.
Mas o motivo real é a visível guinada da Ucrânia em direção aos EUA e seu total afastamento da influência geopolítica da Rússia, a qual, por sua vez, acusa diretamente os Estados Unidos e as organizações não governamentais do Ocidente - os "Cavalos de Tróia ocidentais" - pelas rebeliões das ex-repúblicas socialistas soviéticas e demais satélites.
Há séculos direcionada à Europa, a Rússia já construiu várias pontes com a União Européia, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, mantém excelentes relações de amizade com Sílvio Berlusconi, da Itália, Jacques Chirac, da França e, principalmente, com Gerhard Schröder, da Alemanha, hoje CEO da joint venture que administra o gasoduto russo que transportará gás natural à Europa, através do Mar Báltico.
A aproximação Rússia-Alemanha, promovida e inaugurada pelo ex-primeiro-ministro alemão Helmut Köhl e pelo ex-presidente russo Boris Yeltsin, foi mantida e continuada pelos Schröder e Putin e não será abalada agora durante a gestão da Angela Merkel.
As relações de amizade de Putin com o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, atravessam período extremamente próximo. O mesmo ocorre com as relações de Putin com o primeiro-ministro da Turquia, Retzep Tayyip Erdogan. Eles se encontraram, oficialmente, sete vezes ano passado e também inauguraram o gasoduto Blue Stream, que transporta gás natural da Rússia à costa turca no Mar Mediterrâneo, de onde é distribuído a outros países.
Alex Corsini
Sucursal da União Européia.
AMÉRICA LATINA / 2006
A hora e a vez dos indígenas do México
Obrador transmite mensagem da "nova época" para os humildes
Cidade do México - A explosão política que terraplenará os 70 anos de poder do Partido Revolucionário Institucional do México promete eclodir na pessoa de Andrés Manuel López Obrador, que percorre de norte a sul e de leste a oeste a terra mexicana para transmitir a mensagem de "nova época" para os humildes e indígenas.
O ex-prefeito da Cidade do México, conhecido dos cidadãos simplesmente como "Amlo", pelas letras iniciais de seu nome, renunciou ao seu cargo de prefeito para se candidatar às eleições presidenciais de julho deste ano. "Governarei para todos, mas primeiramente para os humildes", é o slogan central de sua campanha que ganha - cada vez mais terreno - entre as classes pobres do México.
Em seu site na Internet, Obrador registrou os "50 compromissos" de sua gestão como presidente do México, sendo que o primeiro é o reconhecimento dos direitos dos indígenas mexicanos, abrindo assim, pela primeira vez, um capítulo esquecido da história do México.
Íntegro, ético, popular e socialista, Obrador promete trazer a "Primavera Social" ao país de gigantescas desigualdades sociais e colocar um fim à corrupção que fustiga o México ao longo dos últimos 70 anos.
Apesar de o Partido Revolucionário Institucional ter perdido as eleições e a presidência do país em 2000, a máquina do Estado e os mecanismos do governo continuam funcionando no ritmo definido pela soberba do poder dos durante décadas governantes do México. Sabe-se que, quando começou o refluxo de quadros e outros partidários do primeiro escalão do Partido Revolucionário Institucional rumo ao Partido Democrático, o próprio Obrador submeteu a severo controle os recém-chegados, aos quais recomendou "mudar suas táticas, esquecer a corrupção e abandonar suas amantes"!
Neste momento, tendo deixado para trás todos os demais candidatos com, pelo menos 12 pontos de diferença, Obrador promete trabalho, recuperação da indústria do país e aposentadoria a todos os mexicanos acima de 70 anos. Os mexicanos acreditam em suas palavras.
Quando foi prefeito, marcou época com seu duro programa de trabalho diário: acordar às 5 horas da manhã; primeira entrevista à imprensa, às 6h30; nos computadores da prefeitura da Cidade do México, aboliu os programas da Microsoft e introduziu os programas gratuitos Linux e se aconselhou com o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, criador da doutrina de "tolerância zero", para reprimir a criminalidade na Cidade do México.
Seu programa, mas, principalmente, sua personalidade, funcionam como ímãs para os milhões de mexicanos esquecidos e abandonados e, ainda, aqueles que acreditaram no subcomandante Marcos, mas não tiveram coragem suficiente para seguí-lo.