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Conflito político europeu e a energia

O continente europeu conhece há muito tempo a politização da energia.

José Alexandre Altahyde Hage, www.administradores.com.br,
O continente europeu conhece há muito tempo a politização da energia. Embora possa haver lideranças estranhando o uso político que se faz dela, não devemos nos esquecer que foi justamente isso o que fizeram Reino Unido e França no término da Primeira Guerra Mundial, ao perceberem que o espólio deixado pelo Império Otomano, Oriente Médio, deveria ser resguardado pelo poder anglo-francês. E qual seria o motivo? O petróleo. É claro que o atual conflito político-energético envolvendo a Rússia, a Ucrânia e quase todo o continente é de outra característica, de tempo diferente e com outros atores, mas a essência do tema continua a mesma: disputa de poder e influência política.

A Rússia sempre faz uso político da energia, do gás natural. É um estado que procura ascender política e economicamente como grande potência, que vá além da bomba nuclear. O país vê na energia um modo de influenciar negócios políticos e econômicos da Europa. Contudo, há ainda uma questão geopolítica que talvez não houvesse sido contemplada pelo Kremlin nos últimos dez anos: a posição política e geoestratégica da Ucrânia.

A Ucrânia é um entroncamento privilegiado dos gasodutos que ligam os produtores do oriente russo e Ásia Central aos centros consumidores da Europa Ocidental. Perto de 80% do gás natural é transportado via Ucrânia. Por isso, não resta dúvida de que a posição confere um mínimo de poder a Kiev, não somente para fazer frente ao poder russo, porque a Ucrânia não deixa de ser uma chancela que a Rússia tem de tratar bem para escoar sua energia, mas também pode ser um trunfo contra a Europa Ocidental, que pode tornar-se tributária ucraniana. No fundo, este país é uma espécie de Paraguai, que joga com dois grandes e procura compensações, como foi observado nas negociações dos anos 1970 com Itaipu e Corpus.

O atual desenho dos gasodutos que passam pela Ucrânia só teria propósito se ainda houvesse a União Soviética e sua centralização do poder, conferindo a Moscou a primazia sobre negociações de petróleo e gás natural, tendo no vizinho báltico apenas um agregado. Mas sendo este vizinho um ente soberano, após os destroços da União Soviética, fica muito complicado anular decisões que possam ser feitas pelos governantes de Kiev. Afinal, como soberania, a Ucrânia tem o direito de usufruir economicamente de sua posição geográfica e logística em relação ao transporte de gás natural, mesmo desagradando fortemente os mandatários russos, caso do premiê Vladimir Putin. No entanto, a figura que menos impere nesse tipo de conflito é a do direito dos tratados.

Assim, continua a haver um mal-estar que o fim da União Soviética não eliminou em 1991, talvez inconscientemente. A saber, como deverá se estabelecer o relacionamento entre a Rússia do futuro e seus vizinhos? Ou na verdade a política continental apostava na existência de uma sempre Rússia decadente e submissa, igual àquela de Boris Yeltsin?

Claro, o conflito é de energia. Trata-se de suprimentos de gás natural para mercados ancorados juridicamente. Mas não se deve deixar de refletir que na sombra os aspectos políticos de grande envergadura estão em ebulição e à espera de novas resoluções ou de esgotamento.


*José Alexandre Altahyde Hage é consultor do núcleo de Negócios Internacionais da Trevisan Consultoria, professor da Trevisan Escola de Negócios, e organizador do livro “A Energia, a Política Internacional e o Brasil – Conflitos e Propostas no Século XXI”.

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Tags: conflito energia europeu

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