Habilidades para o desempenho gerencial

Características comportamentais são apontadas como fatores determinantes para o sucesso na Administração

Bianca Chiavicatti, Revista Brasileira de Administração,
O perfil dos profissionais que ocupam cargos de gerência em uma organização é ponto decisivo para o sucesso de uma empresa. O modo como esses executivos se comportam perante desafios, mudanças, escolha de equipes, relacionamento com outros funcionários e tomada de decisões é tão importante quanto o conhecimento técnico que possuem quando o assunto é desempenho gerencial. É o que atestam estudos de diferentes origens e objetivos, como a Pesquisa Nacional sobre o Perfil, Formação, Atuação e Oportunidades de Trabalho do Administrador, realizada pelo Conselho Federal de Administração (CFA); o estudo “Empresas de Alto Desempenho”, realizado pela consultoria inglesa Bain & Company; e o polêmico “Criando e Administrando Times Inovadores: Lições para Líderes e Membros”, elaborado pela professora Margaret A. Neale, ex-reitora da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

A Pesquisa Nacional sobre o Perfil, Formação, Atuação e Oportunidades de Trabalho do Administrador, realizada pela Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA/USP), sob coordenação do CFA, já definia, em 2003, cinco características como as principais habilidades para o desempenho gerencial de um Administrador: relacionamento interpessoal, liderança, adaptação a mudanças, visão do todo e criatividade e inovação.

A pesquisa é um reflexo do que pensam Administradores, professores de Administração e empresários. Em fase de conclusão, os resultados da quarta edição do estudo – um aprofundamento das questões abordadas em 2003 –, deverão ser divulgados em abril.

As habilidades apontadas pela pesquisa podem ou não ser natas do profissional e independem do conhecimento técnico de Administração. Para o melhor exercício das funções de gestão, entretanto, elas se tornam requisitos de competência, sendo uma complementar à outra. “A falta de um destes aspectos no perfil do profissional dificulta seu trabalho como Administrador, porque eles são exigidos em diferentes momentos, freqüentemente, alguns quase diariamente”, explica o professor Oswaldo Scaico, coordenador da equipe técnica da FIA/USP.

Sem a capacidade de relacionar-se com outras pessoas, por exemplo, torna-se impraticável o processo de tomada de decisões, presente em todas as atividades para as quais um Administrador é preparado. “Administração é, acima de tudo, desenvolver, ordenar e articular atividades para executar processos de trabalho e atingir objetivos”, afirma Scaico. “Para isso acontecer, o Administrador precisa tomar decisões que, seja com uso de recursos financeiros, materiais ou mão-de-obra, sempre envolverão um número razoável de pessoas”, completa. À frente de uma equipe, por exemplo, cabe ao Administrador tornar claro o que cada pessoa deverá fazer e promover o entrosamento entre elas, o que requer habilidade nos relacionamentos.

Liderança, outro aspecto apontado na pesquisa, é uma conseqüência deste processo de tomada de decisões. Mesmo que nem sempre um Administrador ocupe cargos de chefia, embora sua formação seja voltada para isso, a capacidade de liderar pessoas tem relação direta com as funções para as quais ele foi preparado. Ao trabalhar em um projeto, de qualquer natureza, o Administrador sempre terá que lidar com os resultados de um grupo de profissionais a ele subordinados. “Mesmo que não seja um líder nato, carismático, ele terá o conhecimento para desenvolver a liderança formal e a exercerá por estar numa posição de comando”, explica Scaico.

Adaptação à mudança é uma característica com a qual todo profissional, Administrador ou não, deve preocupar-se ao longo de sua carreira. Mas no caso da Administração, a incapacidade de se manter atualizado pode não apenas afetar como comprometer a carreira. Diferente de outras áreas, como História ou Literatura, por exemplo, em que é possível obter um bom desempenho com o conhecimento adquirido na faculdade. Na Administração, principalmente em grandes organizações, os recursos e ferramentas de gestão tornam-se cada vez mais sofisticados. As inovações surgem com muita rapidez, seja na área de informática, no modo de relacionar-se com clientes e fornecedores ou ainda quanto ao tipo de desafio apresentado pelo mercado.

Visão do todo, criatividade e inovação encerram a lista das cinco principais habilidades que um Administrador deve ter para obter melhores resultados em sua atuação profissional. A primeira apresenta-se como um desafio no processo de crescimento na organização, segundo o professor Scaico. “À medida que se conquista postos mais altos numa hierarquia, o número de responsabilidades também aumenta, obrigando o Administrador a concentrar-se menos nos detalhes do funcionamento da corporação”, diz. “Isto torna essencial à boa gestão que o Administrador tenha uma visão holística, do conjunto, que perceba como cada elemento se articula, interage e se relaciona com seu universo de trabalho. É como um maestro regendo uma orquestra. Ele pode não saber tocar cada instrumento, mas consegue manter a harmonia entre eles”, explica.

Criatividade e inovação são habilidades complementares à capacidade de se adaptar a mudanças e, quando presentes no perfil do gestor, contribuem para o avanço qualitativo e quantitativo da organização, tornando-a menos vulnerável a qualquer novo panorama que se apresente. “O Administrador precisa ter idéias de soluções para problemas que, muitas vezes, nunca apareceram antes”, lembra Scaico. “Mesmo assim, ele tem que ter a sensibilidade de perceber onde está a melhor saída para aquilo, qual a melhor alternativa, e para isso terá que ser criativo e adaptar-se a todo tipo de inovação, nos processos de trabalho, nos critérios para tomar decisões etc.”, completa.

Performance corporativa

Passando do nível individual para o âmbito das organizações, o perfil comportamental de um líder é fator fundamental para o sucesso de uma companhia. Características semelhantes às apontadas pela pesquisa do CFA, presentes no processo de tomada de decisões, foram indicadas como os principais diferenciais das companhias mais lucrativas do mundo no estudo “Empresas de Alto Desempenho”. Realizado pela consultoria inglesa Bain & Company, em 2005, com 365 executivos de companhias dos países do G7 (Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá, Itália, Japão e Grã-Bretanha), a pesquisa retrata mais de mil casos e indica como fundamental para o sucesso no mundo corporativo a presença de dirigentes com forte liderança e visão de prioridades; papéis decisórios; política de valorização dos talentos e métricas de incentivo; cultura voltada ao desempenho; capacidade de mudança e foco na linha de frente.

Segundo Paul Rogers, sócio e diretor-geral da consultoria na Inglaterra, em entrevista recente ao jornal Valor, “a capacidade de tomar boas decisões e fazer com que elas aconteçam” é o que diferencia uma empresa de alto desempenho das demais. Para ele, o líder é peça fundamental para o sucesso de uma companhia de alta performance. “As melhores empresas, aquelas que estão no topo, têm no comando profissionais que conseguem transmitir as prioridades de maneira clara e direta, conseguem dar rumo a seu time que, por sua vez, precisa estar coeso, com pessoas que pensam e agem como donos”, afirmou.

Para Rogers, características presentes no perfil dos gestores deveriam ser mais decisivas na escolha de talentos para estas organizações. O maior desafio da atualidade nas grandes corporações do mundo, segundo ele, é criar líderes que atendam às necessidades que a empresa terá no futuro próximo, já que vivem em constante mudança. Dos 365 executivos entrevistados pela Bain & Company, apenas 15% possuíam estratégias para melhorar o desempenho, com líderes capazes de estabelecer prioridades, executar ações de forma eficiente e desenvolver talentos.

Administrar o conflito

Autora do polêmico estudo “Criando e Administrando Times Inovadores: Lições para Líderes e Membros”, a professora Margaret A. Neale, especialista em comportamento organizacional, segue o consenso de que a má administração de equipes pode comprometer a performance das organizações e acrescenta outra característica ao rol de habilidades necessárias ao bom desempenho gerencial: a capacidade de administrar o conflito.

A pesquisa mostra que, em ambientes turbulentos, sujeitos a mudanças constantes e drásticas, perdem as empresas que contam apenas com equipes harmoniosas, onde não existe o conflito, e que as soluções de fato inovadoras só surgem a partir da discordância entre as pessoas e da defesa de opiniões diferentes em prol de um mesmo objetivo.

“O maior problema com as equipes é a ênfase no acordo. A maior parte delas é muito melhor em administrar o acordo do que o conflito que elas deveriam estar buscando”, disse Margaret ao jornal Valor. Segundo ela, os membros de uma equipe, seja no chão de fábrica ou nos escritórios do conselho de diretores, pensam que provocar conflitos não é interessante, que são deslizes interpessoais, e não percebem a diferença entre o conflito de relacionamento e o de tarefas.

O conflito de tarefas, conforme explica a professora, surge da troca de idéias, da controvérsia, do debate e é a partir dele que as pessoas poderão realmente convergir para uma nova solução que pode, realmente, ser inovadora. “Se as pessoas não se sentirem à vontade para falar suas próprias idéias, o objetivo de ter uma equipe para contar com diferentes perspectivas vai por água abaixo”, afirmou.

Margaret faz uma distinção entre equipes voltadas para a inovação e o aprendizado e as que têm a tarefa de apenas implementar. Nas de implementação, o interessante é que todos pensem da mesma forma e conheçam bem a tecnologia com a qual estão lidando. Mas nas equipes voltadas para a inovação, para saber qual a direção a seguir, em ambientes turbulentos, por exemplo, é necessário que as pessoas pensem de maneira diferente. Neste caso, “o líder deve ser uma pessoa especial que está querendo ouvir e considera seriamente a oposição, alguém que encoraja as pessoas”, definiu.

Segundo a professora, a habilidade de administrar o conflito é algo que se torna mais importante em ambientes imprevisíveis e que leva o Administrador a pensar estrategicamente na forma como desenhar seus times, em quem deveria estar nesta ou naquela equipe e por que. Saber construir uma equipe, a partir do que cada membro tem a oferecer e acrescentar, mesmo que não concordem com as opiniões e posições do dirigente, pode ser determinante para alcançar os resultados pretendidos pela organização.

Formação

As habilidades indicadas nas pesquisas sobre desempenho gerencial são passíveis de desenvolvimento, segundo o professor Scaico. “Ninguém nasce com estas características e o que varia de uma pessoa para outra é o nível de desenvolvimento de cada uma delas”, afirma. Partindo do princípio de que a educação superior é um complemento da educação que o indivíduo recebeu ao longo da vida, Scaico diz que o desenvolvimento de tais habilidades na faculdade ou no exercício profissional será diretamente proporcional ao nível de resistência adquirido durante toda a formação da pessoa.

Quanto ao formato e ao conteúdo dos cursos de Administração oferecidos no País, Scaico diz que eles ainda colaboram pouco para o desenvolvimento das habilidades citadas. A maioria dos cursos ainda estão formatados na maneira tradicional, ou seja, com mais de 50% da carga didática destinada a aulas expositivas, onde há pouco espaço para o diálogo e a interação entre professor e aluno. “Esse tipo de aula funciona para a transmissão de conhecimento, mas é questionável quando o objetivo é trabalhar habilidades comportamentais”, diz. “Neste caso, são mais indicados outros métodos didáticos, como trabalhos em grupo, seminários, exercícios de estudos de caso, jogos de empresas etc.”, explica.

Gostou dessa matéria? Que tal assinar a Revista Brasileira de Administração com desconto especial?
Confira: http://www.administradores.com.br/conteudo.jsp?pagina=revistas_corpo&id=8



Curta o Administradores.com no Facebook
Acompanhe o Administradores no Twitter
Receba Grátis a Newsletter do Administradores