Pesquisa revela perfil do leitor de livros de auto-ajuda

Os livros de auto-ajuda profissional constituem o mais recente fenômeno do setor editorial brasileiro. Um dos segmentos com maior crescimento, é também o responsável pelos novos best-sellers do mercado. Exemplo recente é o “O Monge e o Executivo”, que já vendeu mais de 1,1 milhão de cópias no Brasil.

LCZ,
Os livros de auto-ajuda profissional constituem o mais recente fenômeno do setor editorial brasileiro. Um dos segmentos com maior crescimento, é também o responsável pelos novos best-sellers do mercado. Exemplo recente é o “O Monge e o Executivo”, que já vendeu mais de 1,1 milhão de cópias no Brasil.

A receptividade é tão grande que muitas editoras estão aumentando os lançamentos na área, também chamada light business. Cerca de 95% do catálogo de títulos da Sextante, que detém os direitos do “Monge e o Executivo”, é composto por livros de auto-ajuda profissional. Graças a esse foco, a editora cresceu 60% nos últimos dois anos. Já 10% do faturamento da Campus/Elsevier, uma das principais editoras de livros de negócios do país, provém do light business.

Em relação ao perfil dos leitores, a procura por estes livros parece não ter restrições em relação à idade, sexo ou cargos. De estagiários aos principais executivos das empresas, todos parecem recorrer com maior ou menor freqüência a este tipo de leitura. Em recente pesquisa realizada pela revista Exame com 30 presidentes de grandes empresas (edição 879), 57% afirmaram ter lido pelo menos um livro nos últimos 12 meses, sendo o mais citado “O Monge e o Executivo”.

Para entender melhor o que é e qual a extensão desse fenômeno, o Ateliê de Pesquisa Organizacional realizou um estudo sobre a influência que os livros de auto-ajuda profissional exercem em profissionais e executivos, e qual o seu impacto sobre as empresas, principalmente na gestão e no desenvolvimento de pessoas. A pesquisa qualitativa foi realizada com quatro grupos de discussão, compostos por profissionais/leitores, gestores/leitores e profissionais e gestores/não leitores, com idades entre 28 a 35 anos.

Os resultados são bastante reveladores, sobretudo no que diz respeito ao relacionamento entre os profissionais, seus colegas, superiores e a própria empresa. De acordo com Suzy Zveilbil, sócia do Ateliê e diretora da ComSenso Agência de Estudos do Comportamento Humano, fica clara a relação entre o cotidiano do trabalho e a busca por esta literatura.

“A pressão, o estresse e a sobrecarga do dia-a-dia acabam atropelando o bom-senso e o tempo de condução de algumas ações, principalmente na gestão de pessoas e no desenvolvimento profissional. Neste contexto, o livro de auto-ajuda exerce um papel importante na vida de seus leitores, dando sentido para diversas dúvidas e inseguranças cotidianas. Por ser uma leitura fácil e acessível, recoloca o leitor diante de alguma situação desejada”, explica.

Segundo os participantes da pesquisa, os livros de auto-ajuda profissional:

- ocupam um espaço, antes vazio, na busca de respostas;

- preenchem as expectativas de dar rumos a situações obscuras;

- oferecem maior segurança para lidar com o cotidiano de trabalho,

- encaminham ações e confirmam ou criam novas perspectivas ou percepções.

Outra função essencial é a de “humanizar” o ambiente de trabalho. “É curioso destacar que as pessoas acabam recorrendo a um recurso impessoal (livro) para justamente combater a frieza e impessoalidade do trabalho”, destaca Suzy. “Nesse aspecto, ele cumpre a função de substituir a relação com o outro (chefe, pai, conselheiro ou qualquer outra autoridade). Afinal, o outro não está sempre disponível, não está na ‘prateleira’. O livro serve, então, como um mediador mudo das relações.”

Em geral, os livros são indicados ou recomendados pelos colegas de trabalho, amigos e parentes. Muitos também escolhem os livros pela indicação de revistas, na internet ou mesmo sem critérios: simplesmente vão à livraria e compram o livro com o tema ou título mais interessante. Entre os mais citados estão “O Monge e o Executivo”, “Quem Mexeu no Meu Queijo?”, “Pai Rico, Pai Pobre”, “A Arte da Guerra” e “O Gerente Minuto”. Os autores mais lembrados são Lair Ribeiro, Içami Tiba, Roberto Shinyashiki e Luis Marins.

A percepção sobre os resultados desses livros, porém, varia muito de acordo com as pessoas, independentemente de serem leitores ou não leitores. Para a diretora do Ateliê, existe uma segmentação que varia de acordo com o interesse e a relação entre o leitor e o livro. O estudo constatou a existência de cinco perfis distintos:

“Religiosos”: Sempre estão lendo algum livro de auto-ajuda. Recorrem a eles sempre que necessitam e tentam convencer colegas e amigos sobre a importância dos efeitos da leitura.

“Criteriosos”: Selecionam a leitura por tema relevantes. Lêem livros indicados e recomendados por conhecidos e têm noção que aproveitarão apenas parte do conteúdo, e não o todo.

“Enrustidos”: Afirmam que lêem, mas tendem a explicar muito que é uma leitura ocasional. Não assumem nada que comprometa sua imagem de leitor independente e eventual. Sabem que há preconceito, e preferem evitar críticas e confrontos.

“Complacentes”: Mesmo recomendados, os livros de auto-ajuda são vistos como superficiais e pouco convincentes. Acreditam que é um nicho importante para algumas pessoas e tendem a defender aqueles que lêem.

“Céticos”: São muito críticos em relação aos livros de auto-ajuda profissional e a seus leitores. Não lêem esta literatura de forma nenhuma e acreditam que esses livros são totalmente comerciais e de aproveitamento “zero”. Defendem outros meios de desenvolvimento profissional.

Entre os adeptos (religiosos e criteriosos), muitos chegam a dizer que se formam e desenvolvem praticamente apenas com os livros de auto-ajuda. Em alguns grupos, ler é uma forma de pertencer a estes grupos.

Os que encaram este tipo de literatura com mais reservas reconhecem a superficialidade com que os temas são abordados. “Entretanto, dependendo do efeito que geram, os livros acabam tornando-se a superficialidade com cara de profundidade”, avalia Suzy.

O estudo do Ateliê de Pesquisa Organizacional também indica que os profissionais podem ser induzidos à leitura pelas empresas, sob diversas formas. Em muitas organizações, os livros de auto-ajuda servem como um dos recursos utilizados pela área de RH para se aproximar do funcionário. Em outros casos, os livros são recomendados pelos gestores às suas equipes. E há também cursos e treinamentos em que a leitura destas obras é indicada ou exigida como parte do processo.

Para Luis Felipe Cortoni, sócio do Ateliê e diretor da LCZ Consultoria, os resultados do estudo revelam condutas que precisam ser reavaliadas pelas empresas. “A pesquisa mostrou que a própria área de RH oficializa a indicação destes livros e que muitos adeptos formam-se e desenvolvem-se somente com este tipo de ajuda. É preciso refletir o que isto significa em termos de consistência nas competências destes profissionais e qual o real impacto para os negócios”, questiona. “Será que os líderes e gestores são formados desta maneira? Até que ponto isso é benéfico?”

Na sua avaliação, a postura do gestor que também indica livros de auto-ajuda para os seus colaboradores também merece uma reflexão. “Quando ele toma esta atitude está substituindo o seu papel de ‘coach’ ou indicar estes livros faz parte deste papel? O livro fala o que o chefe quer ou deveria falar: de novo um diálogo mediado por um mudo.” Site: www.lczconsultoria.com.br




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