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“Polarização nos incapacita de ver o lado do outro”, afirma economista

Para o consultor Ricardo Amorim, clima de tensão que se mantém após as eleições atrapalha a busca por soluções para os problemas mais urgentes do Brasil

Redação, Administradores.com,
iStockphoto

Um mês após o fim do período eleitoral, o clima político no Brasil permanece acirrado enquanto o país acompanha a fase de transição para o novo governo. A cada nova medida ou nome anunciado para os ministérios, um novo debate passa a pautar as mídias sociais.

Para o economista, apresentador e palestrante Ricardo Amorim, essa polarização — que se estende desde o pleito de 2014 — torna-se prejudicial à medida em que impede as pessoas de enxergarem soluções para os problemas mais urgentes da nação.

“Por que isso é negativo da sociedade e particularmente no caso das empresas? Primeiro porque ela dificulta as relações. A gente passa a ter relações piores e há inúmeros casos de amizades que neste recente processo político brasileiro ficaram no mínimo abaladas”, explica o economista.

“Mas tem uma outra questão. Ela impede a diversidade porque ela não está aberta para ver pelos olhos do outro e perceber a complementaridade das visões”, complementa.

Amorim ministrou uma palestra durante a 33ª edição do Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento. A entrevista a seguir — abordando inovação, negócios e política — foi realizada pela organização do evento e cedida com exclusividade ao Administradores.com. Confira.

Em sua visão, de que maneira a diversidade pode ajudar a acelerar a inovação nas organizações?

Para entender a importância de diversidade em qualquer negócio, em qualquer situação, é importante entender como funciona o processo criativo. A gente tem uma sensação de que criatividade é feito por momentos, aquele momento Eureka!, em que, de repente, do nada, a gente tem um insight e descobre alguma coisa.

Na maior parte das vezes não é assim que funciona. A criatividade é resultado de uma série de conhecimentos que quando colocados juntos dão origem a algo novo, diferente, uma visão diferente, produto ou serviço diferente. Mas que só nascem porque há uma série de informações iniciais que agora, juntas, criam uma coisa que antes não existia.

Imagem: divulgação/CBTD 2018

E aí vem a importância da diversidade. Porque diversidade torna esse processo muito melhor, mais eficiente, exatamente porque traz visões diferentes e quanto maior a diversidade, quanto mais aspectos ela envolver, maior a chance de você ter uma visão mais ampla e, por consequência, conseguir criar algo melhor mais importante e significativo.

Em outras palavras, uma outra forma de olhar para isso é você imaginar que tem em frente de uma determinada coisa, existe alguém olhando, digamos que seja um edifício. Mas essa pessoa está olhando só a frente. Se tiver um outro alguém olhando de lado, de cima, pela diagonal, você tem uma série de visões diferentes que vão ter uma visão do todo melhor.

É exatamente isso que diversidade traz. Se ela abranger idades, etnia, formação sócio-cultural, tipos de experiência de vida e gênero, mais significativo será esse benefício da diversidade no processo criativo.

De que maneira a polarização política atual prejudica as empresas e como se desvencilhar dessa armadilha?

Antes de mais nada, a polarização política tende a dificultar a nossa forma de resolver os problemas que o Brasil tem. Porque a polarização nada é mais é do que uma visão de que alguém está certo e alguém está errado. E quanto maior a polarização maior a certeza de que o outro lado está completamente errado.

Você não pode aceitar alguém que está completamente errado. O que significa que você tende a ser mais rígido na sua própria visão. Ou seja, na prática, a polarização nos incapacita de ver o lado do outro. Por que isso é negativo da sociedade e particularmente no caso das empresas?

Primeiro porque ela dificulta as relações. A gente passa a ter relações piores e há inúmeros casos de amizades que neste recente processo político brasileiro ficaram no mínimo abaladas.

Mas tem uma outra questão. Ela impede a diversidade porque ela não está aberta para ver pelos olhos do outro e perceber a complementaridade das visões. A gente como sociedade perdeu a capacidade de conseguir aceitar que alguém possa ver algo diferente por ter experiências diferentes.

E aí é que eu acho que vem o desafio para as empresas, desconstruir isso aqui e deixar claro que, sim, as pessoas podem ter visões diferentes e isso não deveria levá-las a não conseguir conviver e trabalhar bem. Pelo contrário, se a gente conseguir trazer isso para as empresas melhor.

No fundo, o que a gente está falando é sobre mais uma forma de diversidade que a diversidade de visões políticas. Trazer isso como um movimento gerador de inovação e criatividade e não de paralisia e de conflito.

O que você gostaria de destacar da sua participação no evento?

Na minha palestra eu mostrei, em primeiro lugar, que o processo de transformações, de mudanças, está cada vez mais acelerado e vai se acelerar mais no futuro. Segundo: por que isso acontece? Terceiro: como usar isso como uma oportunidade e não um desafio, o que basicamente significa como aproveitar essas transformações para gerar produtos, serviços melhores, coisas que nós gostamos mais de fazer?

Caso contrário, as transformações vão acontecer do mesmo jeito, só que a gente vai acabar ficando para trás. Ficando para trás a gente vai ter maiores dificuldades. E por fim: o papel da diversidade nisso tudo.

Aliás, essa é uma das razões porque as transformações estão e serão cada vez mais aceleradas, porque a diversidade está cada vez mais presente no dia a dia das empresas, dos negócios e isso está acelerando também o processo de transformação.

Mas a questão é: como, do ponto de vista de cada negócio, de cada um de nós, usar a mesma estratégia para conseguir também acelerar esse processo de inovação e criatividade nas atividades que nós fazemos. Esse vai ser o meu foco.