Networking é uma das palavras mais repetidas no mundo corporativo. Todo mundo sabe que precisa fazer, mas até que ponto esse exercício é realizado de fato? Na prática, as pessoas se dão conta da importância de sua rede de relacionamento e do quanto a negligenciaram quando precisam, geralmente, de um novo emprego. Mas os especialistas rejeitam, primeiro, a idéia de que networking serve apenas para se recolocar no mercado e, segundo, que se faça apenas quando se necessita de ajuda.
“O networking virou moda e está um pouco banalizado. Marcar encontros e trocar cartões faz parte do exercício do networking, que é muito mais do que isso. É compartilhar recursos”, afirma Andréa Lèbre, consultora especializada no tema e diretora de negócios da Networker. “Não adianta ter o contato de alguém. Se não estabeleceu um relacionamento, não vai poder recorrer a essa pessoa”, complementa.
O primeiro passo para começar a ativar a sua rede de relacionamentos é fazer um levantamento detalhado de nomes. Ou seja, fazer uma lista de todos que conhece e qual seu nível de proximidade com eles. “A maioria das pessoas não tem noção da extensão e cultiva pouco sua rede de relacionamentos”, afirma José Augusto Minarelli, diretor-presidente da Lens&Minarelli.
Assunta Napolitano Camilo, diretora da Future Pack, também não tinha idéia exata da quantidade de conhecidos que tinha. Como a maioria das pessoas, aprendeu a fazer networking pelo caminho da dor, quando passou por um período de transição de carreira há dez anos. “Não tinha idéia do quanto era importante cultivar relacionamentos, e a maioria das pessoas não tem, porque isso demanda tempo”, conta.
Para trabalhar melhor a rede de relacionamentos é necessário observar de que pessoas considera mais interessante tornar-se mais próximo, do ponto de vista profissional e/ou pessoal. Pode soar interesseiro, mas não é bem assim. “Há uma grande diferença entre uma relação interesseira e uma relação resultante de interesses”, alerta Minarelli.
É por entender o networking como o estabelecimento de relações interesseiras que muitos deixam de fazê-lo. Assunta também pensava dessa maneira. “Compreendi que não é uma relação de exploração, mas sim uma via de duas mãos. É gratificante ajudar e ser ajudado”, diz ela. Assim, se está com vontade de ligar para aquele amigo, ex-colega de trabalho, ex-chefe ou quem quer que seja, o faça agora.
“O networking não serve apenas para conseguir emprego. É o exercício de cultivar relações e sentir-se à vontade para solicitar ajuda quando necessário, simplesmente porque adquiriu esse direito, depois de já ter oferecido apoio”, lembra Andréa. “A melhor hora de estabelecer contato é quando não se precisa pedir nada”, complementa.
De acordo com os especialistas, a maior dificuldade das pessoas é retomar os relacionamentos, fazer a primeira ligação. Por isso, pode facilitar começar por alguém com quem já tinha uma certa proximidade. Na realidade, a maior dificuldade do networking está no cultivo das relações, e não nos contatos. Não é à toa que a palavra “work” compõe o termo. Dá trabalho “tecer a rede”.
“É preciso investir tempo no cultivo das relações, mas, em compensação, quando se precisa criar resultados, se consegue resolver uma situação muito mais rapidamente”, diz Andréa. “Quando você tem uma rede de relacionamento forte, não precisa saber de tudo, vai conhecer alguém que sabe a respeito do assunto que precisa lidar naquele momento”, explica.
Segundo ela, para estabelecer relações é preciso compartilhar interesses e informações. Essa é a base para tornar possível o que ela chama de pequenas ações de cultivo. Em uma conversa, seja com um conhecido ou alguém que encontra pela primeira vez, é importante procurar saber quais são os interesses e conhecimentos daquela pessoa e transmitir os seus a ela. “Toda pessoa desconhecida é potencialmente um novo amigo para quem sabe praticar networking”, ressalta Minarelli.
Andréa lembra que falar sobre si mesmo é tão importante quanto investigar o outro. “Mesmo as pessoas com quem mantém um relacionamento mais intenso, muitas vezes não conhecem seus interesses. Olhe para as pessoas e se pergunte o que elas sabem a seu respeito, o que tem a oferecer a elas e vice-versa. Pode acabar percebendo que sua mãe, seu melhor amigo não sabem certas coisas sobre você e não vão saber identificar o que é uma boa oportunidade para você quando estiverem diante de uma”, explica a consultora.
Ao conhecer novas pessoas, a regra de ouro da troca de cartões não é clichê. Ao contrário, é fundamental estar sempre munido deles. “O ideal é ter dois. Um da empresa, com seus contatos profissionais e outro pessoal. Dependendo do encontro entrega um ou outro ou os dois”, diz Minarelli. Para ele, o cartão pode ser muito mais do que um pedaço de papel. Pode ser uma ferramenta que contém informações valiosíssimas.
Ele recomenda que, mesmo armazenando eletronicamente os contatos dos novos conhecidos, se guarde fisicamente o cartão e que, antes de fazer isso, se anotem todas as informações sobre ele obtidas na conversa, como área de atuação profissional, gostos pessoais, data de aniversário, entre outras coisas.
Com esse conhecimento é possível realizar as ações de cultivo da rede. “Você pode ler um artigo a respeito de um assunto que sabe que interessa àquela pessoa e enviar um e-mail recomendando a leitura ou saber do lançamento de um livro ou de um filme e comentar o assunto”, exemplifica Andréa. Esse tipo de atitude é o que torna possível aproximar-se dos novos conhecidos e até estabelecer grandes amizades.
Sem egoísmo
Quem age de maneira honesta e sinceramente generosa terá sempre frutos a colher. Já os que acreditam que estão fazendo networking, mas, na verdade, solicitam as pessoas de maneira interesseira e egoísta, são naturalmente excluídas pelos outros. Infelizmente ainda há muitos que atuam dessa maneira.
Os que ocupam posições estratégicas, conhecem pessoas importantes ou são especialistas em um determinado assunto costumam ser muito procurados por pessoas desse tipo. Assunta que o diga. Uma das principais especialistas em embalagem no Brasil, recebe todos os dias ligações e e-mails de desconhecidos pedindo favores, nem sempre de uma maneira muito educada. “É comum me pedirem o contato de alguém ou quererem enviar currículo, sem nem mesmo se apresentarem direito ou solicitarem isso com delicadeza. Alguns ainda ligam novamente cobrando um retorno”, comenta.
O networking deve ser um processo natural. “Considero um modo de encarar a vida, a partir da percepção de que o mundo de hoje é complexo demais para se resolver tudo sozinho”, observa Andréa. No começo, é possível que seja necessário sistematizar o exercício do networking, até pela necessidade de restabelecer contatos, mas depois se torna automático. “É como dirigir”, comenta ela.
A tecnologia é uma grande aliada na hora de gerenciar os contatos. “O Outlook é a minha principal ferramenta, mas armazeno as informações também em um planilha e a imprimo constantemente para ter um backup em papel”, conta Assunta. Ela seguiu direitinho a recomendação de Minarelli de guardar sempre uma cópia em papel, mesmo utilizando o computador como base.
Ele e Andréa consideram as redes de relacionamento virtual, mesmo as mais voltadas para contatos profissionais, como o Linked In, interessantes. Vale a pena manter o seu perfil atualizado na Web, mas nada substitui o olho no olho.