Ao abrir o Fórum Global 2005 de Ex-Alunos da Wharton em princípios de julho, em Londres, Stephane Garelli, professor do Instituto Internacional de Desenvolvimento de Gestão, e Paul Judge, presidente da Real Sociedade de Artes, Manufaturas e Comércio, discutiram o impacto da globalização sobre o crescimento e a prosperidade em diferentes regiões do mundo. Ambos concluíram que a globalização afetou, sem dúvida alguma, as condições sociais e econômicas dos países, mas nem sempre para melhor.
Em uma rápida incursão pelos mercados internacionais, Garelli observou que são duas as atribuições dos negócios: administrar com eficiência o dinheiro ganho e as mudanças, isto é, o modo como nos adaptamos ao mundo à nossa volta. Não se pode mais escapar à comunidade global, embora nossa vida “fosse provavelmente mais fácil se o mundo deixasse de interferir em nossas estratégias”. Mas já que isso não é possível, teremos pela frente “mais riscos de mercado do que nunca, mais riscos operacionais e haverá sempre uma boa chance de que algo saia errado em alguma parte do mundo”.
A economia global luta bravamente, disse. A Europa teve um crescimento de 1,4% no primeiro trimestre, “abaixo do que esperávamos”, embora o Reino Unido, de modo geral, tenha apresentado um crescimento de 2,8% no primeiro trimestre. A Europa central “está melhorando”: a Polônia cresceu 2,1% no primeiro trimestre; a Hungria, 3,8% e a República Tcheca, 4,3%, ambas no quarto trimestre.
Na América Latina, a Venezuela “apresenta números excelentes” — houve um crescimento de 7,9% no primeiro trimestre — graças aos preços do petróleo; “a Argentina está se recuperando (com um crescimento de 8,4% no quarto trimestre); já o Brasil desapontou um pouco (2,9% no primeiro trimestre). Os números da Ásia são bons”: crescimento de 6,2% na Índia; 5,1% no quarto trimestre na Tailândia e de 9,4% na China. Nos EUA, o ano de 2003 “foi de recuperação econômica, enquanto 2004 foi um ano de consolidação”. Especificamente, o crescimento no segundo, terceiro e quarto trimestres de 2004 foram, respectivamente, de 4,8%, 3,9% e 3,9%. O crescimento no primeiro trimestre de 2005 foi de 3,6%.
Os números mais importantes da economia mundial são dados pelo déficit da balança comercial e do orçamento dos EUA. O déficit da balança comercial é de 644 bilhões atualmente, ou 5,5% do PIB. “A novidade são as importações”, disse Garelli, salientando que 20% dos produtos importados não são estrangeiros: são produtos feitos por empresas americanas no exterior que remetem de volta para o pais sua produção, que é então vendida no mercado com marcas americanas.
“O déficit orçamentário é mais preocupante”, disse. No governo Clinton, havia um superávit de 1,4%; no governo Bush, o déficit é de 4%. Além disso, o montante de títulos do governo e de agências no exterior, que somava 850 bilhões em 2002, hoje é de 1,6 trilhão. “George Washington dizia que não havia prática mais perigosa do que contrair empréstimos. Graças a Deus ninguém mais pensa no que Washington dizia”, brincou Garelli, que é também professor da Universidade de Lausanne. Sua expectativa é de que sejam implementadas duas estratégias distintas: nos EUA, as taxas de juros subirão paulatinamente para atrair os investidores, ao passo que na Europa, cuja dívida corporativa também é substancial, as taxas de juros cairão gradualmente para dar sustentabilidade ao crescimento.
Qual seria, portanto, indagou Garelli, a gravidade da situação? Em resposta, recorreu a uma citação de Mark Twain. Quando perguntaram ao escritor o que pensava da música de Richard Wagner, Twain disse: “Não é tão ruim quanto parece.” A economia, disse Garelli, “não está tão ruim quanto parece [...] Como disse a Madonna, vivemos em um mundo material”. Em termos econômicos, isto significa que, no ano passado, quem ganhou dinheiro foi o segmento de matérias-primas. “Os preços das matérias-primas e das commodities estão nas alturas [...] O preço do petróleo sobe sem parar”, disse Garelli acrescentando que o preço por tonelada do aço laminado era de 300 dólares em janeiro de 2004; em dezembro do mesmo ano já era de 590 dólares. Um barril de petróleo custava mais de 60 dólares na segunda-feira, ou seja, 58% mais caro do que há um ano.
“Por que as matérias-primas estão na ordem do dia? Por causa da China, cujo apetite por esse tipo de produto e por commodities é gigantesco.” Os chineses consomem 31% do carvão produzido no mundo, 27% do aço, 19% do alumínio, 33% da produção da indústria pesqueira, 35% dos cigarros, 20% dos celulares, 23% dos aparelhos de TV e 19% dos sorvetes produzidos— entretanto, consome apenas 7,7% do petróleo produzido no mundo.
Os grandes motores econômicos
Uma outra notícia excelente em 2005, disse Garelli, é que “a Rússia está decolando: com um crescimento de 6% entre 1999 e 2004, o país dispõe hoje do maior suprimento de recursos naturais do mundo”. O Japão, a segunda maior economia do globo, deve “retomar o fôlego” com um crescimento de 1,2% no primeiro trimestre. Os “grandes motores da economia mundial”, diz Garelli, serão a Rússia, como fonte de matérias-primas; o Japão, como fornecedor de tecnologia; a China, no segmento de produção, e a Índia na área de serviços. “Estamos assistindo ao nascimento de um novo mundo.”
No decorrer dos próximos dez anos, nesse novo mundo, 700 milhões de pessoas ingressarão no mercado de trabalho dos países em desenvolvimento; por volta de 2030, 60% da população mundial viverá em áreas urbanas. Além disso, a população está envelhecendo. A França contava com seis trabalhadores na ativa para um aposentado em 1950; em 2050, esse número será de dois trabalhadores para cada aposentado. Na Itália, 62% dos trabalhadores aposentam-se aos 55 anos. Na esfera da Organização de Cooperação e Desenvolvimento econômico (OCDE), uma em cada três pessoas terá mais de 60 anos em 2050.
A atividade econômica, segundo prevê Garelli, se dará no Leste, graças aos baixos custos de produção, o que resultará em um poder de compra maior, convertendo a Índia, China e outros países em “fornecedores de marcas” — um processo, aliás, já em andamento. Na Índia, por exemplo, dentre as marcas conhecidas, encontram-se a Infosys, Wipro, Reliance, Tata e TransWorks; na China, Haier, Konka, Lenovo, TCL e Skyworth.
Qual teria sido o impacto dessa nova ordem sobre os negócios? Segundo Garelli, o que se viu foi uma revolução de três fases. Nos anos 80, a reengenharia preocupava-se com a melhoria dos processos de trabalho. Os produtos ganharam em eficiência, mas não houve melhoras na área de serviços. “Nos anos 90, a ênfase recaiu sobre a redução de custos via terceirização, do que resultou um custo/benefício maior, porém acompanhado de uma complexidade também maior. Em 2000, o offshoring ganhou destaque: o importante era produzir fora”.
Uma boa relação de custo/benefício “é sem dúvida uma ótima notícia”, disse Garelli. “A má notícia é a complexidade que decorre disso. A cadeia de valor em um mundo global é mais enxuta, porém mais extensa, porque hoje temos mais parceiros do que há dez anos. Isso nos obriga a um esforço de gestão maior. Um maior número de parcerias implica mais serviço burocrático.” Garelli citou Jeff Immelt, CEO da GE, segundo o qual “40% da empresa hoje consiste em tarefas administrativas, financeiras e burocráticas. Nos próximos três anos, quero reduzir esse quadro em 75%”.
Vivemos, portanto, “em um mundo com um número maior de transações, maior vulnerabilidade” e de uma complexidade muito maior. “Temos de simplificar as coisas”, disse Garelli citando uma máxima de Einstein: “As coisas devem ser tão simples quanto possível, mas não mais simples.” O impacto da complexidade sobre os clientes, por exemplo, pode ser profunda, com o risco inclusive de as empresas tornarem-se inacessíveis e remotas demais em relação ao cliente em razão de processos nitidamente complicados e, em última análise, ineficientes. Como dizia um personagem de uma charge a seu colega: “O novo sistema automatizado de pedidos realmente acelerou o andamento dos negócios. Estamos perdendo clientes mais rápido do que nunca.” O que realmente preocupa, disse Garelli, “é a gestão do produto e os serviços relacionados a ele, e não o produto propriamente dito. É isso que deixa o cliente insatisfeito”.
O cliente está se tornando parte da cadeia de valor, acrescentou Garelli. “Na EasyJet, você faz a reserva pela Internet, faz o check-in automaticamente e só tem contato com os funcionários da empresa no momento em que embarca no avião. A Ikea transferiu todas as etapas para o cliente, inclusive a montagem do produto.” Entre outras empresas que operam com modelos semelhantes estão a Dell, Amazon.com e eBay. Em vez de empresas que fazem de tudo, “temos agora o cliente que se encarrega de tudo por conta própria”, disse Garelli.
Quais seriam então as competências e as habilidades de que necessitamos para sobreviver? “Temos de desafiar a sabedoria convencional”, observou Garelli. “Dizemos sempre que as pessoas são nosso patrimônio mais importante. Errado. Só as pessoas certas o são.” Quem seriam esses indivíduos competitivos? Essas pessoas dotadas de “percepção para a ação e de um alto nível de energia e de capacidade de decisão”? Além disso, as pessoas “certas são também imbuídas de uma percepção de propósito, elas abrem caminhos (mesmo quando desorientadas), porque têm a mente aberta, sabem administrar as ambições e são capazes de virar o mundo de cabeça para baixo”.
Uma oportunidade para o comércio
Paul Judge comparou os 250 anos de globalização — tema da conferência — à Inglaterra de 250 anos atrás e à Inglaterra de hoje juntamente com o resto do mundo. A economia inglesa do século xviii dependia de bens produzidos por empresas familiares; o trabalho era de mão-de-obra intensiva, a produtividade era baixa e o maquinário, inexistente, portanto não havia necessidade de capital financeiro. No início da Revolução Agrícola, em princípios do século xviii — um evento que preparou o caminho para a Revolução Industrial —, a crescente mecanização dispensava um número cada vez maior de trabalhadores nas lavouras, elevando os índices de desemprego nas zonas rurais. As pessoas iam para as cidades em busca de trabalho. Enormes disparidades de riqueza e de bem-estar tornaram-se mais pronunciadas. Entre 1750 e 1774, cerca de 34% da população morreu no primeiro ano de vida; outras 9% morreram aos quatro anos e 49,7%, aos 20.
Por causa da globalização, a população dos países ricos desfrutam de muitas vantagens, disse Judge; contudo, fora do mundo desenvolvido, o quadro é outro. “Observamos no mundo em desenvolvimento o mesmo quadro que se via na Europa na década de 1750 — escassez de moradia, de saneamento e de assistência médica.”
As populações de alta renda representam 16% da população mundial, enquanto os indivíduos de baixa renda compõem o restante, como na Inglaterra em 1750, disse Judge citando números do Banco Mundial. O PIB per capita dos países de renda elevada é de 27.000 dólares ante 3.700 nos países de baixa renda. O consumo de energia elétrica per capita é de 8.615 kw/h nos países de renda elevada, e de 913 kw/h nos países pobres. O montante de dinheiro gasto com assistência médica, por pessoa, é de 2.700 dólares ante 71 dólares.
A falta de saneamento e de assistência médica — dois bilhões de pessoas não têm acesso à água; 11 milhões de crianças morrem anualmente de doenças curáveis — torna-se ainda mais aguda pela transformação cultural, de modo muito similar ao que ocorria em Londres na década de 1750.
Como distribuir a renda dos países ricos com os pobres, indaga Judge. Há três formas: “Por meio de caridade, assistência social e relações comerciais.” Com relação à caridade, disse Judge, a experiência do Reino Unido nos últimos 250 anos é a de que o volume de dinheiro doado voluntariamente pelos ricos aos pobres não costuma ser muito elevado. (Nos EUA, esse total é de 15 bilhões de dólares; no Reino Unido, é de 1 bilhão). “Projetos individuais são muito bons, mas seu impacto é limitado.” O montante de ajuda concedido corresponde a 1,8% da renda mundial, o que equivale a cerca de 80 bilhões ao ano, ou aproximadamente de 10 a 15 dólares por pessoa. Os EUA doam aproximadamente 19 bilhões, ou 0,16% do PIB do país. O Japão faz doações da ordem de 8,85 bilhões, ou 0,19% do PIB; a França, 8,47 bilhões, ou 0,42%; o Reino Unido, 7,83 bilhões, ou 0,36%; a Alemanha, 7,49 bilhões, ou 0,28% do PIB; a Holanda, 4,23 bilhões, ou 0,74% do PIB; a Suécia, 2,7 bilhões, ou 0,77%; a Espanha, 2,55 bilhões, ou 0,26%; o Canadá, 2,53 bilhões, ou 0,26%; a Itália, 2,5 bilhões, ou 0,15% do PIB.
A terceira forma de distribuição de renda se dá pelo comércio, ou por meio de “transações entre indivíduos e organizações de diferentes países através da mão invisível de Adam Smith”, disse Judge. “Os fluxos de comércio fazem efetivamente a diferença. Contudo, raras vezes concedemos aos países em desenvolvimento a oportunidade de participarem do comércio. O Ocidente paga subsídios substanciais a um número comparativamente pequeno de agricultores, o que deprime os preços em todo o mundo. Além disso, impõe alíquotas elevadas sobre matérias-primas e bens manufaturados, principais componentes da pauta de exportação dos países em desenvolvimento.”
De acordo com a Oxfam, disse Judge, “se a África, o leste da Ásia, o Sudeste Asiático e a América Latina aumentassem sua cota de exportações mundiais em 1%, os ganhos resultantes tirariam 128 milhões de pessoas da pobreza. Só na África, haveria um ganho de 70 bilhões — cerca de cinco vezes o que o continente recebe em ajuda”.
O comércio, disse Judge, “não é campo neutro”. Tome-se o caso dos subsídios agrícolas: os países ricos gastam 1 bilhão diariamente em subsídios agrícolas, ou cerca de 350 bilhões ao ano. Uma vaca européia recebe, em média, 2 dólares de subsídio ao dia. Enquanto isso, 800 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar ao dia. Com relação às barreiras tarifárias, disse, “as importações de commodities, de têxteis e de outros itens exportáveis são restritas ou sobretaxadas. Essas barreiras custam aos países em desenvolvimento 100 bilhões de dólares ao ano — mais do que eles recebem em ajuda”.
O mundo, acrescentou Judge, evoluiu muito desde a década de 1750, mas “foram a América do Norte e a Europa os que mais se beneficiaram disso. Os outros cinco bilhões de indivíduos do planeta ainda vivem uma situação” semelhante à de Londres no século XVIII. “A grande esperança das populações de baixa e média rendas é que lhes seja permitido participar do comércio mundial em condições justas.”