O melhor MBA do Brasil

Fazer um MBA, a sigla em inglês para o mestrado em Administração, virou um requisito quase obrigatório na carreira dos executivos. As empresas costumam abordar os alunos dos melhores cursos quando eles ainda estão nos bancos das universidades. Os melhores diplomas de MBA costumam vir de escolas dos Estados Unidos ou da Europa, como Wharton, Harvard, Insead ou IMD. Mas uma instituição brasileira conseguiu entrar na elite dos cem melhores MBAs do mundo, elaborada anualmente pelo jornal inglês Financial Times. Trata-se do Coppead, o instituto de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Qual o segredo do Coppead? Como ele conseguiu se tornar a única instituição da América do Sul a se distinguir entre os milhares de MBAs mundiais?

O Coppead é uma espécie de ilha de excelência na universidade federal. No campus ao redor, a grama cresce descuidada, os professores são mal pagos e as greves são comuns. Já na sede do Coppead, um edifício de cinco andares na Ilha do Fundão, o visual é bem cuidado e cada professor tem sua sala. Os alunos têm de estudar em horário integral. Isso os obriga a interromper a carreira profissional. Mas, segundo o instituto, o salário sobe em média 110% quando eles voltam ao mercado depois do MBA. Fui contratado num encontro entre alunos e grandes empresas. Meu novo salário era três vezes maior que o anterior, diz Marcelo Picanço, diretor da consultoria Booz-Allen Hamilton e ex-aluno. O salário médio dos ex-alunos, de acordo com o Coppead, é de US$ 86.500 por ano, um valor baixo se comparado ao obtido por ex-alunos das grandes universidades de países ricos, mas excelente para a realidade econômica da América do Sul.

Uma das explicações para o bom desempenho do Coppead começa antes mesmo de o aluno entrar em sala de aula. Trata-se do altíssimo nível de exigência no programa de seleção. Conseguir vaga no Coppead é tão difícil que parece tarefa de gincana, dizem alguns ex-alunos. Para chegar lá, a gente sangra. É um sacrifício de um ano e meio, afirma Eduardo Spiller, aluno de doutorado em Estratégia Empresarial e Marketing. O primeiro requisito é estar entre os 5% mais bem colocados numa prova da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (Anpad). Em seguida há uma análise do currículo e uma entrevista com um comitê composto de três professores. Simpatia aqui não conta, diz a diretora do instituto, Angela da Rocha. Nem pressão política. Já sofremos sanções por dizer não a pedidos de políticos para encaixar alunos, diz Angela.

Uma segunda explicação para a qualidade do curso é o nível de exigência em sala de aula. Ali, os profissionais se especializam nos desafios reais enfrentados por executivos no cotidiano, e não em discussões puramente acadêmicas. A escola segue o método do estudo de casos, consagrado pelo curso de MBA de Harvard. Os alunos precisam propor soluções para problemas ocorridos no passado em empresas reais e depois verificar o resultado dos métodos de gestão na prática. Aprendi lá a lidar com uma situação normal nas empresas: ter 300% mais coisas para fazer que tempo disponível, diz Alex Carneiro, hoje vice-presidente da Shell do Brasil. A gente tem de ler quatro livros por semana e resolver dez casos. É uma absoluta loucura, diz o ex-aluno Fabio Caldas, gerente de Relações Institucionais também na Shell.

O elenco de ex-alunos em posições de destaque é grande. Fizeram mestrado no Coppead Ricardo Gehrkie, vice-presidente da Gerdau, Maria Helena Monteiro, vice-presidente da Sul América, Suzana Strauch, diretora de Projetos Internacionais da Telecom Italia, Alessandra Rudloff, diretora de Comunicações para a Europa da Michelin, e Fersen Lambranho, um dos sócios do GP Investimentos. O nome mais conhecido é do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, aluno da primeira turma do mestrado, em 1973. A partir da minha experiência acadêmica posterior nos Estados Unidos, como estudante ou membro do conselho de universidades de ponta, tenho a convicção de que o curso que fiz no Coppead foi equivalente aos melhores do mundo, afirma Meirelles.

Concorrentes não negam a qualidade do Coppead, mas fazem restrições à classificação que pôs o curso em primeiro lugar no Brasil. A comparação da lista não é cabível, diz o diretor da escola de pós-graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio, Renato Fragelli. Segundo ele, a lista erra ao misturar mestrados stricto sensu (reconhecidos oficialmente) com MBAs, que são lato sensu (não-avaliados pelo governo).

Embora a UFRJ seja pública, a gestão do Coppead segue critérios da iniciativa privada. Aplicamos o que ensinamos, afirma Ricardo Leal, vice-diretor de Educação. Por manter suas finanças em dia, a escola consegue escapar da penúria das escolas federais. O segredo são as parcerias com grandes empresas. Elas fazem doações e patrocinam MBAs que formam gente especializada em suas áreas de interesse, como finanças, logística, marketing, saúde ou gestão de energia - cursos pagos, apesar de fornecidos por um instituto ligado a uma universidade pública. Os recursos são investidos em instalações, equipamentos, pesquisas e convites anuais para três professores estrangeiros darem aulas, diz Eva Hirsch Pontes, assessora de assuntos institucionais. O dinheiro também permite que o curso pague um complemento salarial aos professores. Ao usar de modo inteligente a interação da universidade com a iniciativa privada, o Coppead conquistou um lugar entre os cem melhores do mundo.





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