Britânico, o rapaz cursara letras clássicas em Oxford e se formara depois no Insead, tendo ficado entre os 5% mais destacados da turma. Holmes era muito inteligente. Temia, contudo, não poder dar conta das responsabilidades do novo posto.
Na raiz do dilema estava sua suspeita de que não era bom o bastante. Holmes vivia com medo de, a qualquer momento, ser desmascarado. Ao mesmo tempo, parecia determinado a mostrar que era inadequado, justo o que tanto queria ocultar.
Na vida pessoal, por exemplo, exibia um comportamento autodestrutivo, colecionando casos com várias mulheres e bebendo ao ponto de sofrer um sério acidente de carro. No trabalho, tinha cada vez mais dificuldade em se concentrar e tomar decisões.
Temia — e agora com justa razão — que o presidente da empresa e outros membros do conselho notassem seus problemas no trabalho. Quando perceberiam que haviam cometido um terrível erro ao promovê-lo à alta equipe executiva? Quando o medo e o estresse já eram insuportáveis, Holmes pediu demissão e aceitou um posto de nível inferior numa empresa maior.
Mas, talentoso que era, não tardou para que a empresa o convidasse a liderar uma de suas principais divisões, cargo sabidamente tido como o trampolim para o topo. No novo papel, Holmes voltou a ter ataques de insegurança. Para não correr o risco de ser visto como incompetente, deixou o cargo em um ano e rumou para uma terceira empresa.
Lá, apesar de seu desempenho, a alta direção concluiu, após analisar seu currículo, que o rapaz simplesmente não tinha o estofo necessário para chegar a níveis máximos de liderança. Holmes não tinha coragem de subir aos níveis mais elevados da hierarquia de uma organização porque, no fundo, temia ser um impostor que um dia seria desmascarado.
Em muitas esferas da vida — e a empresarial não é exceção — há gente de notável rendimento que se crê uma farsa total. Para quem vê de fora, um indivíduo desses parece altamente destacado; muitas vezes, são líderes de extremo sucesso. Mas, apesar de suas estupendas conquistas, a pessoa tem a sensação subjetiva de ser uma fraude.
Essa impostura neurótica, para usar o termo psicológico, não é uma falsa humildade. É o lado negativo do talento e leva muito líder tarimbado, esforçado e capaz — homens e mulheres com feitos notáveis no currículo — a crer que não merece o sucesso.
Manfred F.R. Kets de Vries é titular da cátedra Raoul de Vitry d’Avaucourt Chaired Professor of Leadership Development no Insead, na França e em Cingapura, e diretor do Global Leadership Centre, também no Insead. É psicanalista e autor ou editor de mais de 20 livros sobre a psicologia de líderes e organizações, entre eles Life and Death in the Executive Fast Lane (Jossey-Bass, 1995) e The Leadership Mystique (Financial Times/Prentice Hall, 2001).
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