Olho em Vale e Petrobras: fundamentos sinalizam recuperação de commodities
01 de agosto de 2008 às 16:00
Em sentido contrário às promessas de forte valorização prenunciadas no início do ano, o Ibovespa tem acumulado duras quedas nos últimos meses. Na semana passada, que marca seu ingresso oficial no Bear Market, o índice teve desvalorização de 4,65%.
Se por um lado pode-se argumentar que quem pressiona o mercado doméstico é o fluxo internacional de notícias negativas, por outro a comparação entre o desempenho da bolsa brasileira com a norte-americana sinaliza a existência de motivos complementares. Os principais índices dos EUA tiveram desvalorização menos acentuada na última semana, com o Dow Jones recuando 1,14% e o S&P500, 0,23%.
De fato, um dos maiores motivos do declínio visto por aqui, a queda nas cotações internacionais das commodities, age de forma inversa nos mercados externos, impulsionando as bolsas a partir do pressuposto de que implica redução de custos da maioria das companhias. A diferença fundamental é que no benchmark brasileiro, empresas ligadas ao mercado de commodities como Petrobras, Vale, Usiminas, Gerdau e CSN respondem por um grande peso.
Derrocada sem justificação?
Nos primeiros meses do ano, o cenário era bem diferente. Fundamentos, especulações ou tensões geopolíticas, não importava o motivo: a cada fechamento dos mercados, as commodities batiam novos recordes, com destaque para o barril de petróleo e a onça de ouro.
O que mudou de lá para cá? No relatório semanal do BNP Paribas, Eduardo Miziara afirma que o responsável pelo recuo dos preços das commodities é a redução da atividade econômica mundial. Para ele, essa perspectiva "está assustando os especuladores", que estavam muito atuantes no mercado de commodities.
Porém, enquanto alguns falam sobre destruição da demanda devido aos altos preços e, no caso do petróleo, alteração no modo de vida dos consumidores de combustível, principalmente nos EUA, Miziara indica um outro caminho, afirmando que a análise da oferta e da demanda mundial sinaliza que não há espaço para quedas muito acentuadas. "Em algum momento, os fundamentos vão voltar a prevalecer e dar sustentação às principais commodities".
Destaque para a Vale
Apoiado nessas perspectivas, o BNP Paribas recomenda maior peso às empresas ligadas às commodities, em especial a Vale, cujos papéis registraram quedas intensas nos últimos meses devidas em parte à desvalorização do níquel. O contrato futuro do metal com vencimento dentro de três meses atingiu o menor patamar desde junho de 2006. Em 2008, o produto já acumula um recuo de 28%, pressionado pela redução das compras de aço inox pela indústria chinesa.
A reação do mercado diante desse cenário, culminando com uma desvalorização acumulada no ano de 24% nos papéis da mineradora, é vista como infundada por grande parte dos analistas. Em entrevista recente à InfoMoney, Januário Hostin Junior, gestor de renda variável da Leme Investimentos, lembrou que "quase 60% da geração de caixa da Vale vem do minério de ferro e não do níquel".
Levando em consideração também que o níquel representa apenas 20% das receitas da companhia, os investidores deveriam olhar com mais cuidado as perspectivas de novos reajustes no preço do minério de ferro já no próximo ano.
Petrobras, mas com menor intensidade
Também entre as sugestões, a Petrobras é recomendada com menor intensidade por Eduardo Miziara. A queda de 9,7% dos papéis da estatal na semana passada, que acompanharam a desvalorização do petróleo, serviram de âncora para as bolsas brasileiras.
Enquanto o forte recuo na cotação internacional do petróleo pressiona, a derrocada dos papéis da Petrobras também tem outras fontes. Conforme enumerado por Miziara, as discussões acerca das mudanças na política de royalties e na cobrança de áreas de alto potencial de produção pesaram sobre os papéis.
Além disso, as declarações do ministro de Minas e Energias, Edison Lobão, sobre a potencial criação de uma nova estatal do petróleo com direito das propriedades de reservas a serem descobertas também contribuíram significativamente para o declínio das ações.
Outras opiniões
Ao final, apesar da perspectiva de Miziara de que as commodities retomem o movimento de ascensão, devem ser avaliados também outros pontos de vista, como o expressado pelo presidente da Opep (Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo), Chakib Khelil, à Reuters no fim de semana.
"Eu disse que se não houvesse uma queda no dólar e se não houvesse problemas geopolíticos, nós estaríamos a US$ 70 ou US$ 80 [o barril de petróleo]. Assim, se o dólar se fortalecer e a crise no Irã for resolvida, nós devemos ir para essa direção", afirmou Khelil.
Cabe lembrar que o fortalecimento do dólar rouba atratividade dos investimentos em commodities, portanto esses ativos normalmente variam em direções opostas.
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