Nunca antes a responsabilidade social teve tanta importância quanto nos dias de hoje. Toda a empresa, independentemente de seu tamanho, se vê obrigada a participar das questões sociais, não mais apenas através do assistencialismo – com a prática de doações – mas com a implantação de projetos de longo prazo e auto-sustentáveis. Na maioria das vezes, as empresas não sabem que podem – e de que forma – utilizar parte dos impostos que já pagam em seu dia-a-dia, revertendo-os para esse tipo de causa.
Foi pensando em sanar essas dúvidas e tornar mais dinâmica a elaboração de novos projetos que uma ONG paranaense resolveu, de forma inédita em todo o Brasil, sensibilizar e capacitar empresas, ongs e governos para a causa social, garantindo sua sustentabilidade e contribuindo para a profissionalização do terceiro setor. A iniciativa agora ganha espaço inclusive em outros Estados.
“O que fazemos é aproximar as empresas, ONGs e governos, pois o resultado para a sociedade como um todo é bem maior que o resultado das partes individualmente”, explica Eduardo Almeida, diretor executivo da Dharma – Associação de Capacitação Social. “Avaliamos a possibilidade de montagem de novos projetos de responsabilidade social, montamos esses projetos e partimos para a captação de recursos. Recursos esses que podem vir dos próprios tributos que a empresa já paga normalmente. Há leis municipais, estaduais e federais – como a do Mecenato, a Rouanet e outras leis de incentivo – que permitem usar recursos do ISS, ICMS e até mesmo do IPTU”.
Em apenas um ano de atuação, completados recentemente, a ONG já prestou consultoria na elaboração de balanços sociais (sendo o mais recente o da TIM Telepar Celular Sul), estabeleceu parceria junto à Electrolux do Brasil na criação da Universidade Livre da Eficiência Humana, que irá desenvolver programas de inclusão social profissionalizante para os PNEs portadores de necessidades especiais (que já somam 15% dos cidadãos brasileiros), tem sido requerida para a elaboração de projetos culturais, autorizações junto ao MinC e instâncias competentes municipais e estaduais.
A ONG também tem auxiliado empresas na captação de incentivos e gestão de produtos culturais (desde que configurem clara reversão social), e vem aplicando entre seus colaboradores o curso de capacitação de agentes sociais, como o “Assim que se Faz”, da Fundação de Ação Social (FAS), de Curitiba, em que qualifica pequenos produtores e artesãos paranaenses a produzir e vender melhor seus produtos, com técnicas simples e efetivas de design e marketing, como identidade visual e embalagem, atendimento ao cliente e pós-venda.
“A receptividade do mercado vem demonstrando que há realmente espaço para esse tipo de proposta inovadora e que a Causa Social tem de ser tratada profissionalmente, como um novo segmento de grande potencial”, comenta Cleuton Carrijo, diretor de marketing da DHARMA. “A empresa que não exercer a sua responsabilidade social vai acabar ficando de fora de uma espécie de corrente do bem, sem volta – o Desenvolvimento Sustentável. Bons projetos de responsabilidade social ganham espaço não apenas na mídia, mas na memória do consumidor. É o que já acontece na Europa com o selo verde das empresas. Vende mais quem é socialmente responsável, mesmo que seus produtos sejam mais caros do que os da concorrência. Foi com a intenção de mapear e replicar as boas práticas socialmente responsáveis das empresas paranaenses é que a DHARMA lançou o primeiro Anuário de Responsabilidade Social”.
Segundo pesquisas, somente 6% das empresas brasileiras conhecem os meandros burocráticos de como extrair benefícios do apoio fiscal e investem timidamente seus tributos nos projetos sociais via Leis de Incentivo. Na região Sul, o cenário ainda é mais crítico: apenas 1%. “Alguns meses atrás, uma das maiores instituições financeiras do País fez uma remessa de 30 mil libras esterlinas para uma ONG no exterior, por não ter identificado por aqui projetos de uma entidade cujo modelo de gestão fosse adequado”, comenta Carrijo.
“O projeto social é auto-sustentável quando a fonte assistencialista das doações se esgota mas o empreendedorismo social continua. O ideal é que o projeto caminhe pelas próprias pernas e com total transparência na gestão e prestação de contas, sem depender de terceiros, reinventando seu modelo, prestando serviços, gerando receita; enfim, descobrindo sua real vocação produtora de riquezas e não apenas tomadora de recursos”.
Exemplo vivo - Um dos projetos que vem tomando corpo por meio da atuação da Dharma é o de Revitalização do Theatro São João da Lapa, na cidade da Lapa, a 70 quilômetros da capital paranaense. Um dos espaços culturais mais importantes da cidade e um modelo de arquitetura, ele foi construído em 1873, utilizado como hospital durante a Revolução Federalista, já abrigou uma rádio, mas continua sendo um dos mais belos teatros do Brasil. Com o patrocínio da Petrobras via Renúncia Fiscal, autorizado pelo MinC Ministério da Cultura – no valor de R$ 630 mil – a ONG paranaense está promovendo uma completa revitalização daquele espaço, para que ele possa ser usado não apenas como um ponto de visitação turística – hoje ele já recebe cerca de 1.800 visitantes ao mês – mas como um teatro completo.
“O potencial do monumento arquitetônico do Theatro São João da Lapa reside não apenas em sua beleza, mas na própria memória e na sua localização em uma das cidades com maior acervo histórico do Paraná”, comenta Eduardo Almeida. “Ele é um dos únicos do Brasil nesse formato e apesar de já ter sofrido um processo anterior de reformas ainda apresenta problemas naturais a uma estrutura centenária. O que estamos fazendo é uma reforma funcional respeitando o projeto original, mas permitindo uma melhor utilização desse espaço tão nobre na cidade”. A conclusão do projeto está prevista para junho desse ano.
Agora, a Dharma entra também no mercado de Joinville. A prefeitura da cidade catarinense já solicitou a consultoria da ONG para a elaboração de seu balanço social e começa a elaborar um projeto para a revitalização histórico-cultural de alguns de seus principais pontos de visitação turística.
“Podemos atender empresas interessadas bem como governos em qualquer lugar do país”, garante. “Basta que empresas, governos e ONGs tenham realmente interesse de, juntos, abraçar a causa social”, finaliza.