Os arquétipos da inovação vivem ao seu redor

Estimular a criatividade dos profissionais é um dos principais desafios das empresas para promover a inovação. Da teoria à prática, no entanto, há uma grande distância. No dia-a-dia, o que se vê em muitas organizações é um ambiente no qual 'fazer mais rápido e mais barato' ainda é palavra de ordem. Observador das relações humanas, José Carlos Teixeira Moreira, presidente da Escola de Marketing Industrial (EMI) e do Instituto de Marketing Industrial (IMI), acredita que todas as pessoas sejam criativas, mas que existem impedimentos no mundo corporativo para que essa criatividade se demonstre.

Ter um ambiente propício ao desenvolvimento de novas idéias não é fácil, passa pela mudança da cultura das empresas e das próprias pessoas que nela atuam. Na visão de Moreira, a combinação das principais habilidades de cada profissional em um projeto de inovação, a criação de um ambiente no qual haja equilíbrio entre a rigidez e a flexibilidade e o estímulo por meio da arte podem tornar as organizações muito mais criativas.

Para combinar as habilidades dos profissionais, é preciso observar o que cada um faz de melhor e que tipo de atividade ele se sente mais à vontade para exercer. “Talentos são pessoas normais das quais não se tira nem o coração, nem o cérebro”, comenta Moreira. Ele notou que as características individuais dos funcionários se sobressaem naturalmente e que podem ser identificadas de maneira muito bem-humorada por personagens que eles acabam representando.

São figuras que todos já viram algum dia:


O curioso


“É aquele sujeito que você vê assim, caminhando com as mãos no bolso e olhando para os lados. Ele é o transeunte empresarial”, diz Moreira. Se quiser identificá-lo, observe, agora mesmo na sua empresa, o sujeito que está andando pelos corredores, geralmente com uma pastinha debaixo do braço, como se fosse resolver algum assunto.

Segundo Moreira, ele só pára se ouvir um barulho. “Fez um barulho aqui. Ele viu que estão trocando a lâmpada. Então, pára e fica dando palpite: mais para lá, mais para cá”. Também é comum encontrar esse personagem no banheiro. “Terça, 10h30 da manhã, você entra no banheiro e ele está lá. Depois ele dá uma passadinha na contabilidade para falar com o Joel. Em outra área ele pára para perguntar se aquele happy hour está em pé. Uma delícia de rotina. Faz exercício e toma cafezinho em diferentes departamentos”, roteiriza o presidente da EMI.

Parece alguém que precisa ser demitido? Esse profissional, no entanto, pode ser de grande valia para organização. “Esse transeunte sabe de tudo o que acontece na companhia!”, lembra.

O criativo

São aquelas pessoas que estão sempre criando analogias e metáforas para as idéias e situações. Suas sacadas são, geralmente, bem-humoradas e irônicas. “Não importa que cargo ocupe. As frases e observações dele chamam a atenção de todos. É impressionante o que o cara fala, você fica pasmo. Tanto que é comum chamarem ele próprio para contar”, lembra Moreira.

O construtor


“Esse sujeito é ótimo. Ele não pede permissão, só pede desculpas. Eles costumam ouvir: já fez, pô!”, comenta Moreira. Para ele, se bem orquestrados, esses profissionais podem valer ouro para as empresas.

O empreendedor


É aquele que pode ser pego desenhando na última folha do caderno em uma reunião. Pode parecer que está distraído, mas, na verdade, está colocando no papel as idéias de um novo negócio. “Ele percebe uma oportunidade, anota e pensa: isso dá um supernegócio, se vocês não fizerem, faço eu”, afirma Moreira. Se a companhia não oferecer espaço para que esse profissional expresse suas idéias e o apóie no desenvolvimento delas, é bem provável que ele peça demissão e siga carreira solo.

O inventor


É a pessoa que resolve uma situação ou muda um processo, a partir de uma observação do óbvio, uma necessidade latente, mas que ninguém viu antes. E o faz de uma maneira que pode até parecer simples, mas que ninguém havia realizado até aquele momento. “Ele próprio geralmente diz: estava 'na cara' que precisava, não sei por que ninguém fez antes”, lembra Moreira.

O inovador


É capaz de encontrar soluções inimagináveis para situações de onde, aparentemente, não surgiria nada. Um exemplo dado por Moreira é o de um funcionário de uma empresa que transformou o monitor de uma televisão quebrada em um aquário. “É um caso real, todo mundo olhava e dizia: mas isso não era uma TV? Era, mas virou um aquário. Estava quebrada...”, afirma Moreira. “É comum pegar esse sujeito falando: eu juntei esse treco com aquele outro e deu isso. Não podia, não?”

O sonhador

Esse é fácil de identificar, sempre imaginando e idealizando o futuro. “Para ele, hoje devia ser amanhã”, comenta Moreira.

Segundo Moreira, todas essas figuras descritas acima trabalham de maneira interconectada. “São personagens que fazem parte de uma peça. Então, por que não congregá-los em torno de um eixo?”, questiona o presidente da EMI. Esse eixo poderia ser um grande desafio, como o da inovação, dentro do qual se daria uma tarefa adequada às características de cada personagem.

“Quando você faz isso, consegue dar vida ao processo de criação e inovação. Plagiando Deus, que insuflou no homem o ar que lhe deu vida, inspirando-o. Uma pessoa inspirada é alguém que foi insuflado”, diz Moreira. Seguindo essa linha de raciocínio, para ele, a alta administração da companhia, só precisa dar o primeiro sopro.

Ao fazer os personagens atuarem da maneira que se sentem melhor e usando suas principais habilidades, eles trabalham motivados por uma energia diferente da que convencionalmente os profissionais atuam em uma organização. Assim, é possível fazê-los provocar mudanças nunca pensadas, a partir de novas idéias, mistura de processos, entre outras infinitas possibilidades.

“Se não insuflar, se mudar o foco, eles funcionam só por soco, perdem o embalo”, alerta Moreira. “Por isso que, naquelas reuniõezinhas nas quais eles se apresentam, você tem que dar corda para eles. E, assim, insuflar os personagens da empresa a trabalharem de maneira absolutamente inovadora.”


Rígido e flexível, como um coqueiro


Na visão de Moreira, é possível fazer a criatividade emergir a partir da combinação de flexibilidade e estruturação no ambiente de trabalho. Parece impossível conciliar duas coisas que, aparentemente, excluem uma a outra, mas é possível compreender melhor o conceito a partir do exemplo do coqueiro. “Ele tem uma estrutura rígida e, ao mesmo tempo, flexível e capaz de se acertar com o vento. Por isso, não quebra.”

O equilíbrio entre um ambiente estruturado e flexível é bastante sensível. “Se eu criar um sistema de bastante flexibilidade e não tiver estruturação nenhuma, eu acabo fazendo aquilo que só acontece na casa da avó. E pais sabem o que acontece com o filho na casa da avó”, exemplifica. “Agora, se eu estruturar bastante e não der nenhuma flexibilidade, eu faço o cartório. O cartório o que é? É a criação de dificuldades para vender facilidades. Aliás, aqui está explicada a corrupção. Tudo estruturado e nenhuma flexibilidade. Gera a necessidade de se abrir exceções para conseguir resolver algumas situações. Então surge a velha conversa: não dá para fazer, mas para você, especialmente, eu posso resolver...”, comenta Moreira.

Uma outra maneira de compreender a estruturação versus a flexibilidade é encarando a equação como a união entre alta confiança e baixa complacência. Na percepção do presidente da EMI, esse é um ambiente de trabalho no qual se obtém alto desempenho.


Tempo para arte e tempo para troca


Moreira acredita que, para desabrochar a criatividade nas pessoas, elas precisam de tempo para apreciar a arte para trocar idéias, opiniões e conhecimento. “Quando falo do tempo para a arte, estou falando do que Friedrich Nietzsche (filósofo alemão) já dizia – uma coisa é necessário ter: leveza de espírito. Ou naturalmente, ou o espírito aliviado pela arte e pelo saber”, cita.

A empresa criativa deveria ter uma sala de arte. “Porque é impossível desenhar um processo que seja altamente criativo se eu abrir mão da expressão artística. A arte não só humaniza o homem como o diferencia. Mas ela também exige um tempo para troca, já que o valor na obra de arte só existe se puder ser consumido”, esclarece.

Por isso, para Moreira é importante ficar à toa. “Ficar à toa é muito diferente de andar à toa. O ficar à toa é um momento importante para se criar. Agora, se andar à toa, você não produz nada”, conclui.




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