País precisa de mais empresários e não de mais empregos

Existe um tema recorrente em tempos de eleição, qual seja a criação de empregos. Desde o candidato que prometeu 10 milhões, aos empresários bonzinhos, passando pelos sindicalistas, todos gostam de clamar aos quatro cantos pela necessidade de se abrir mais vagas de trabalho.

Ora, isso é tão óbvio quanto pedir água para quem tem sede e comida para quem tem fome. Na verdade, os objetivos de cada uma dessas classes são os mais mesquinhos possíveis. Os políticos pretendem cabular votos, os empresários buscam mão-de-obra servil, e os sindicalistas querem massa de manobra.

Em pleno século XXI, a questão deve ser outra. Primeiro, as formas de trabalho passam por profundas modificações, desde que começaram a borbulhar nos anos 80 as ondas do downsizing e do outsourcing. A partir daquela década, as estruturas corporativas ficaram mais enxutas. Diversos cargos simplesmente sumiram do organograma. Ao mesmo tempo, no chão-de-fábrica, a automatização dos processos cortou cabeças.

Infelizmente, esse período de ajuste coincidiu, em terras brasileiras, com o fraco desempenho da economia. Isso agravou o problema do desemprego por aqui. Mas, mesmo que a economia tivesse crescido acima dos medíocres 2,5% ao ano em média desde estão, as empresas teriam promovido cortes no quadro de pessoal.

Agora, que a fase mais aguda do ajuste macroeconômico passou, com o controle da inflação, deve-se semear medidas que tenham impacto efetivo sobre o desemprego. Não se trata apenas de pedir que a queda dos juros básicos seja mais rápida. Basta olhar para o R$ 1 trilhão empoçado em fundos, muito disso atrelado à variação da Selic, para perceber o efeito devastador que cortes bruscos dos juros podem ter.

Contra este argumento, diria o gênio industrial brazuca que boa parte da dinheirama dos fundos iria para a produção, aquecendo a economia. Piada. A maior parte iria para consumo desenfreado, fazendo pipocar a inflação e trazendo, mais à frente, nova alta dos juros. Ou seja, sem confisco das aplicações, não há outra forma de se evitar a revoada do dinheiro dos fundos, diante de uma queda mais rápida dos juros.

Também não se trata de escolher alguns setores a dedo e abençoá-los com medidas, com a desculpa de que vão gerar empregos e puxar a economia. Isso só funciona para as empreiteiras, por três motivos: o gigantesco déficit habitacional, o estado de miséria da infra-estrutura nacional, e porque são intensivas de mão-de-obra.

O que o país necessita mesmo é ampliar a base empresarial. Mais empresas vão gerar mais empregos. E para que isso aconteça deve-se romper os grilhões que impedem o surgimento de novos empresários e o crescimento dos pequenos. Basta analisar alguns dados do BNDES, referentes ao ano passado, para se entender o que digo. Vamos aos números: os repasses para as grandes empresas cresceram 14% e ficaram estáveis para as demais (Folha S. Paulo 09/01/2007).

Ainda segundo a mesma reportagem, os campeões de empréstimos foram, pela ordem, Suzano Bahia Sul (R$ 2,4 bilhões), Telemar (R$ 2,4 bilhões) e a Brasil Telecom (R$ 2,1 bilhões). Tirando curiosas relações que remontam à privatização do setor de telecomunicações e a fatos mais recentes, nada contra essas liberações. Afinal, elas fazem girar os negócios.

O problema é que o país sofre com a má distribuição do crédito. Segundo o Sebrae, os pequenos empreendimentos absorvem menos de 30% dos empréstimos realizados pelas instituições financeiras. Só para comparar, em países europeus perto de 90% dos financiamentos são absorvidos pelos pequenos negócios.

Mas esse não é o maior de todos os nós. Existe ainda a má distribuição dos juros. Enquanto os empresários grandalhões têm acesso a dinheiro fácil e barato, dentro de padrões internacionais, resta aos nanicos percorrer uma verdadeira via crucis para conseguir levantar algum, a juros para lá de salgados.

É aí que deve entrar a mão do governo. Não com o conta-gotas do microcrédito, mas por meio de um amplo, bem planejado e barato programa de repasse de dinheiro para micro e pequenos empresários e para aqueles quem têm uma idéia de negócio na cabeça, mas não têm verba no bolso para torná-la realidade.

É certo que alguns vão quebrar, mas o efeito positivo sobre a economia e sobre o mercado de trabalho será muito maior do que distribuir facilidades para os mesmos empresários de sempre. Mas será que, pela primeira vez na história, o governo teria a coragem de romper a ação entre amigos que tanto caracteriza a nossa economia e a nossa política?

Não sei, acho quase impossível. Só tenho certeza de que, nesses novos tempos, as relações trabalhistas cedem lugar a relações empresariais. Ou seja, você se torna cada vez mais empresário de você mesmo. Ao privilegiar uma economia que gera empregos em vez de fermentar o empreendedor, o Brasil estará condenado a ser um eterno fornecedor de produtos básicos.

Não à toa, temos o rei do Aço, da Soja, do Café, da Laranja, do Ferro, do Gado, do Frango, do Papel e Celulose, do Açúcar, e, última das glórias, do Etanol. Que coisa! Desenvolvemos o ProÁlcool, o carro bicombustível e não temos uma montadora genuinamente brasileira exportando carro verde para o mundo. É muita incompetência.

* Tatão de Souza é jornalista e escritor




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A economia mundial irá se recuperar em 2009?

Completamente.
Moderadamente.
A economia não irá se recuperar em 2009.





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