Palocci, um médico do coração agrícola do Brasil e ex-trotskista, é o primeiro a admitir que sabia pouco a respeito das complicações da política fiscal quando se tornou o ministro das Finanças do País em janeiro do ano passado. Hoje, depois de uma palestra para Wall Street e economistas acadêmicos e quase dois anos em serviço, ele se descobre presidindo a mais robusta expansão econômica em uma década.
Graças a um boom nas exportações, o país está a caminho de anunciar um excedente comercial neste ano de quase US$ 33 bilhões, o maior que se tem registro. A economia, enquanto isso, expandiu 6,1% no terceiro trimestre em relação ao ano passado, o mais rápido crescimento em oito anos. Isso colocou a economia do Brasil, a maior da América Latina, em curso de crescer mais de 5,3% neste ano, sua melhor performance desde 1994.
E graças à saúde da economia, a mistura esquerdista de figuras no governo lentamente se consolidou em torno da posição pragmática de Palocci. Com o passar do tempo, Palocci deixou-se levar para o centro dos dias em que pertencia a um grupo estudantil trotskista, hoje defunto, chamado Liberdade e Luta.
A onda de boas notícias econômicas solidificou a reputação de Palocci como o membro mais influente do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa posição foi anteriormente ocupada por José Dirceu, o chefe de equipe duro nas palavras, que discordava de Palocci com relação à política econômica. A influência de Dirceu minguou desde que um de seus assessores mais próximos, Waldomiro Diniz, foi incriminado em um escândalo de suborno em fevereiro passado.
Em um editorial recente, o jornal “Folha de São Paulo” afirmou que Palocci havia “definitivamente” substituído Dirceu como o “homem forte” do governo, acrescentando que Dirceu “não era mais nem a sombra do ‘superministro’ que um dia pareceu ser”.
Palocci, um homem simpático de 44 anos, subestimou a conversa de poder em ascensão dentro do governo.
“O que está se fortalecendo no governo e no País é a convicção de que um bom comportamento fiscal traz resultados positivos para a economia”, disse ele. “Se eu estou ou não ganhando influência não é muito importante”.
E o próprio Lula buscou reforçar a posição de seu ministro das Finanças, dizendo a um grupo de partidários do Partido dos Trabalhadores (PT) em um discurso recente que ele estava “em sintonia” com Palocci e suas políticas como a “Quinta Sinfonia de Beethoven”. E em outro sinal do poder crescente de Palocci, no mês passado o presidente demitiu Carlos Lessa, o sincero líder do banco de desenvolvimento do Brasil, que repetidas vezes fez campanha contra as políticas econômicas conservadoras do governo.
Apesar de grande parte da retomada do Brasil ter sido alimentada pela economia global e um aumento nos preços das commodities como soja e minério de ferro, Palocci diz que o governo também está fazendo sua parte para criar as bases de um crescimento a longo prazo.
“O ambiente externo certamente ajudou, mas o principal fator que comanda a recuperação é o fato de que esse governo decidiu atacar os pontos mais vulneráveis da economia”, disse Palocci em uma entrevista aqui.
“Se nós não tivéssemos decidido que uma mão firme era necessária para colocar a inflação sob controle e reduzir a dívida pública, nós provavelmente estaríamos lidando com um desastre econômico agora”.
De fato, ao permanecer fiel à austeridade fiscal e políticas monetárias diante da feroz oposição política de membros do Partido dos Trabalhadores, Palocci deu grandes passos no ordenamento da instável finança pública do Brasil. Isso, em troca, ajudou a afastar os temores em Wall Street de que o país poderia dar o calote na sua dívida do setor público que soma US$ 345 bilhões enquanto fazia com que os mercados financeiros ganhassem confiança na esquerda do Brasil.
“Para alguém que não é nem economista, ele fez um trabalho admirável administrando a economia”, disse Bolívar Lamounier, um cientista político e crítico do governo que comanda uma firma de consultoria em São Paulo chamada Augurium. “Ele conseguiu manter uma postura pragmática e realista apesar de estar rodeado de tubarões”.
Palocci foi empurrado para os holofotes nacionais em circunstâncias trágicas, assumindo como o gerente de campanha de Lula em janeiro de 2002 depois do assassinato de Celso Daniel, uma importante autoridade do PT que havia administrado a corrida de Lula pela presidência até então. Palocci, que entrou para a vida política como prefeito de Ribeirão Preto, uma cidade de tamanho médio no interior do Estado de São Paulo, rapidamente emergiu como alguém mais pragmático e foi instrumental para o direcionamento da plataforma de campanha de Lula em direção ao centro.
Hoje, Palocci e sua equipe de tecnocratas são vistos como um dos poucos sucessos irrepreensíveis da administração Lula, que também obteve algumas grandes vitórias em disputas comerciais.
Enquanto a maioria das iniciativas sociais, como o programa de combate à fome, atolou por parco planejamento e burocracia, o governo, com a influência pessoal de Lula, conseguiu passar grande parte da agenda política de Palocci por um Congresso mau-humorado, incluindo medidas revisando o sistema de seguridade social do Brasil e seu código de impostos bizantino.
Além disso, as políticas de apertar os cintos de Palocci também estão começando a reduzir a dívida do governo, que deve cair para 53% do Produto Interno Bruto neste ano, de 58% no fim de 2003. A queda é a primeira em uma década.
Críticos dos dois lados do espectro político afirmam que Palocci está administrando uma dose ainda mais pungente de austeridade do que o predecessor, Pedro Malan, um economista conservador que era alvo preferido do PT enquanto o partido sentava na bancada da oposição. Apesar do governo anterior ter concordado com o Fundo Monetário Internacional para conseguir um superávit orçamentário primário – que exclui custos do serviço da dívida – igual a 3,75% do PIB, Palocci já aumentou a meta de superávit em duas vezes, mais recentemente para 4,5% do PIB, que o governo está em rota de cumprir.
Em um país com uma das desigualdades de renda mais acentuadas do mundo, os críticos dizem que o dinheiro seria melhor gasto em programas sociais necessários voltados para redução da pobreza e aprimoramento do pobre sistema educacional brasileiro. A infra-estrutura é outra área em carência desesperada por verba extra, quando apertos ameaçam colocar freios no crescimento econômico nos próximos anos.
“O governo não tem uma política de desenvolvimento; tem uma política de estabilização”, afirmou Paulo Nogueria Batista Jr., um economista da Fundação Getúlio Vargas, uma faculdade de administração em São Paulo. “Há uma overdose de austeridade fiscal e monetária que pode terminar prejudicando as chances do país para um desenvolvimento a longo prazo”.
Palocci não se incomoda com as críticas, defendendo que as vastas disparidades sociais do Brasil não podem ser sanadas se as finanças do governo não estiverem em ordem.
“Nossa história mostra que se você não implementar sérias políticas fiscais, a primeira vítima será o lado social”, disse ele. “Se nós optássemos por um processo de ajustamento mais modesto, então estaríamos aceitando uma retomada econômica mais modesta. Eu prefiro um ajuste mais intenso para que o país possa viver uma retomada mais duradoura”.
Com a economia de volta aos eixos, Palocci diz que está hoje pressionando por mudanças voltadas para a melhora do clima comercial do Brasil e na diminuição do custo do crédito. Isso inclui tornar a lei de falência do país mais eficiente para facilitar o empréstimo e desmantelar as amarras burocráticas pelas quais os empreendedores devem passar para montar um negócio aqui.
Mas o Brasil ainda não está fora da turbulência econômica. Um tópico recente de preocupação, defendido por um número crescente de executivos e até por Lula, é que uma recuperação da moeda brasileira, o real, pode desacelerar o crescimento das exportações e colocar um amortecedor na retomada econômica do país. Contra esse cenário, o banco central começou a comprar dólares no mercado de trocas estrangeiro novamente, ajudando a reduzir o valor do real. Ecoando as autoridades do banco central, Palocci afirmou que o governo não estava visando qualquer taxa de câmbio, mas sim tomando vantagem de condições favoráveis de mercado para “reconstruir nossas reservas estrangeiras”.
Alguns economistas afirmam que o tino para o negócio teve um grande papel no sucesso de Palocci. O crescimento econômico global, casado com um fluxo enorme de recursos para a China, foi uma bênção para a exportação de commodities do Brasil. Ainda está para ser visto, dizem eles, se Palocci pode pilotar o país em circunstâncias mais difíceis.
“Palocci ainda tem que ser testado em situação de estresse”, disse Arturo Porzecanski, líder de economia de mercado e estratégia de dívida do ABN Amro, em Nova York. “O vento não estará soprando a favor deles para sempre, então agora eles têm que aproveitar a janela da oportunidade para deixar as coisas feitas”.