Treinamento de executivos, seminários, metodologias importadas. Essas e outras iniciativas podem fazer parte do processo de tornar sustentável uma grande empresa. Mas e as pequenas, que muitas vezes estão na ponta da cadeia produtiva de companhias líderes em seus setores? Elas têm realmente condições de adotar uma gestão mais eficiente e tocar projetos sustentáveis? Experiências mostram que isso é possível, sim, mas o caminho a ser trilhado não é sem obstáculos que podem ser, entre outras dificuldades, a mera falta de conhecimentos, o orçamento apertado e até problemas culturais.
O Programa Tear, realizado pelo Instituto Ethos e pelo BID, tenta romper essas barreiras. O objetivo é tornar mais competitivas e sustentáveis 108 pequenas e médias empresas da cadeia de valor (ou seja, que são fornecedoras ou clientes) de nove grandes companhias de oito setores da economia, que ensinam suas metodologias. Coordenadorageral do Tear, Carla Stoicov diz que o que falta para o pequeno empresário ser sustentável, antes demais nada é informação, informou o jornal O Globo.
“Muitas pequenas empresas ainda têm a visão de que responsabilidade social empresarial é filantropia, ação social pura e simples.Além disso, no início (do Tear), elas tinham a visão de que isso é só para grandes empresas”, diz Carla.
Ela conta que, na experiência do Tear, um dos problemas encontrados foi a alta concentração de faturamento com uma única empresa, algo que pode levar o pequeno empresário até a falência no caso de problemas com esse contrato. Outra barreira foi a precária comunicação interna e externa, o que prejudicava até a obtenção de novos negócios. Também se constatou a falta de um planejamento estratégico formal, ou seja, o dono podia até tomar decisões sobre o futuro do seu negócio, mas isso não era registrado num documento, com o qual funcionários, inclusive os que ocupam cargos de confiança, pudessem saber as prioridades Mas nem tudo é dificuldade: o fato de uma empresa ser pequena, segundo Carla, ajuda na adoção de práticas sustentáveis: — Facilita muito. As pequenas e médias empresas têm uma estrutura mais enxuta, menos burocrática. E, por estarmos quase sempre trabalhando realmente com a alta direção, se ela visualiza que aquele ponto é importante, facilmente isso vira prioridade na empresa.
A facilidade das pequenas para fazer mudanças, devido ao menor número de níveis hierárquicos, é confirmada pelo gerente-geral da Fundação ArcelorMittal Brasil, Leonardo Gloor. A siderúrgica, antes de participar do Tear, onde é âncora de 15 empresas, criou o programa Sustentabilidade e Responsabilidade Social (SRE), como forma de também iniciar fornecedores e clientes nesses temas.
A pequena empresa muitas vezes não tem a informação sobre o impacto de um determinado desperdício, ou não sabe como é fácil mudar um processo. Existe ainda dificuldade de o pequeno empresário ter um tempo para parar e pensar, já que muitas vezes o dono faz tudo.
É a partir de atividades como as do SRE e do Tear que ele tem tempo de parar e ver o que às vezes uma pequena mudança de procedimento vai gerar no longo prazo.
Leonardo afirma ainda que a grande empresa tem um papel importante ao estimular seu fornecedor a adotar práticas sustentáveis, porque pode dar exemplos concretos, em vez de ficar apenas na teoria. O gerente ressalta que essa atividade é uma via de mão dupla, sendo importante para a grande empresa também: — Para as empresas maiores, essa transferência de tecnologia é de interesse capital, não só por causa da melhoria da performance do fornecedor e do relacionamento com ele, mas também porque não se corre o risco de ver sua produção parada devido ao impacto ambiental negativo de um insumo, por exemplo.