A expressão fenômeno do impostor foi cunhada em 1978 por duas psicólogas: Pauline Clance, professora de psicologia da Georgia State University, e Suzanne Imes. Num estudo de mulheres altamente realizadoras, as duas descobriram que muitas de suas clientes pareciam incapazes de internalizar e aceitar as próprias conquistas.
Apesar de reiterados dados objetivos indicando o contrário, atribuíam seu sucesso ao acaso, à sorte, a contatos, ao timing, à perseverança, ao charme ou até à habilidade de parecerem mais capazes do que se sentiam (veja o quadro “A mulher e o fenômeno do impostor”).
A esse primeiro estudo se seguiu uma série de teses de doutorado e de pesquisa. Embora suas conclusões nem sempre tenham sido as mesmas, a maioria dos estudos sugere que a impostura neurótica de modo algum é restrita à mulher.
O homem também pode apresentá-la — embora, curiosamente, a impostura genuína (ou seja, a fraude deliberada) seja mais comum em homens do que em mulheres (veja o quadro “Farsas genuínas”). Além disso, a incidência da impostura neurótica parece variar segundo a profissão.
É, por exemplo, muito comum no mundo acadêmico e na medicina, ambas arenas nas quais a aparência de inteligência é crucial para o sucesso. Como esperado, minhas entrevistas clínicas com presidentes e outros executivos de alto nível sugerem que certas estruturas familiares podem ser um solo fértil para a sensação de impostura.
Certas famílias disfuncionais — particularmente aquelas nas quais os pais dão extrema importância a conquistas e nas quais falta calor humano — tendem a produzir indivíduos propensos à impostura neurótica.
Quem cresce num ambiente desses parece acreditar que só vai chamar a atenção dos pais quando se destacar. Com o passar do tempo uma pessoa dessas em geral se converte num inseguro excessivamente empreendedor, um overachiever.
Paradoxalmente, a predisposição à impostura neurótica também é bastante comum em indivíduos de quem não se espera o sucesso. Em grupos em desvantagem social (famílias de origem humilde, por exemplo), os filhos talvez não sejam encorajados pelos pais porque suas ambições não casam com as expectativas da família.
Se mesmo assim conseguem subir a posições de verdadeiro poder na vida adulta, o distanciamento das origens da família em geral é tão espetacular que carregam uma persistente insegurança em relação à “grandiosidade” de seu sucesso.
Devido a sinais conflitantes, esses executivos com freqüência têm dúvidas sobre o quanto irá durar o sucesso. O medo de superar os próprios pais pode gerar sentimentos de impostura neurótica que resistem mesmo à morte dos pais.
A ordem de nascimento também influencia o desenvolvimento da impostura neurótica. A sensação de impostura é mais comum entre primogênitos — reflexo da ansiedade de pais inexperientes e das grandes expectativas depositadas sobre tais filhos.
Muitas vezes, espera-se que os mais velhos ajudem a criar os irmãos e sirvam de exemplo de maturidade para os mais jovens da família.
Manfred F.R. Kets de Vries é titular da cátedra Raoul de Vitry d’Avaucourt Chaired Professor of Leadership Development no Insead, na França e em Cingapura, e diretor do Global Leadership Centre, também no Insead. É psicanalista e autor ou editor de mais de 20 livros sobre a psicologia de líderes e organizações, entre eles Life and Death in the Executive Fast Lane (Jossey-Bass, 1995) e The Leadership Mystique (Financial Times/Prentice Hall, 2001).
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