Menos de três anos depois de emergir do nada, o MySpace, o site de relacionamento social do momento, alcançará dentro de mais três anos um colossal valor de mercado: 15 bilhões de dólares. Será possível?
Outro site menor ainda, o Facebook, administrado por um jovem de 22 anos, valeria mesmo os 900 milhões de dólares, ou mais, que o Yahoo teria oferecido por ele? Talvez. Ou talvez estejamos em plena Bolha de Internet, Parte 2, em que sites como o MySpace, Facebook, YouTube e outros novos fenômenos da Internet estariam destinados ao esquecimento depois de passada a moda.
“O problema é que essas empresas parecem estar a anos de distância do tipo de lucro que o cálculo de valor feito prevê para elas”, observa Andrew Metrick, professor de Finanças da Wharton. Os 15 bilhões de dólares do MySpace “exigiriam um público maior do que o público que trafega atualmente pelo site”.
Embora os sites de relacionamentos sociais variem consideravelmente, todos dependem em grande medida do conteúdo fornecido pelos usuários que colocam no ar seu perfil pessoal e montam redes entre amigos e pessoas com os mesmos interesses. Em geral, esses usuários têm livre acesso aos sites que são custeados por receitas com publicidade. Para atrair os anunciantes, os sites mais novos oferecem descontos substanciais, que tornam a lucratividade difícil de avaliar. Além disso, ninguém sabe se conseguirão elevar os ganhos em algum momento.
O problema, na opinião de Robert W. Holthausen, professor de Contabilidade da Wharton, é a escassez de informações necessárias para uma avaliação de acordo com os modelos tradicionais. “Há poucos dados relativos ao tipo de receita que esses sites podem gerar, bem com sobre sua estrutura de custo.”
Atribuir um preço de mercado a sites financiados por anúncios publicitários é algo bastante complicado, porque os mesmos números — tal como o número de usuários ou de páginas visitadas — podem ter significados diferentes dependendo da forma como os anunciantes são classificados, acrescenta Holthausen. “Com que freqüência esses sites recebem pelo anúncio veiculado? Só quando o anúncio é exibido? Ou é preciso que o usuário clique no link?” De igual modo, os usuários não têm todos o mesmo conjunto de valores. Tudo depende do montante que o usuário típico está disposto a gastar e do que ele deseja comprar. Por fim, Holthausen observa, um site terá uma avaliação melhor se utilizar tecnologia licenciada, em vez de oferecer simplesmente serviços que os concorrentes possam duplicar facilmente.
Os 15 bilhões de dólares de valor de mercado previstos para o MySpace foram divulgados em fins de setembro por Jordan Rohan, da RBC Capital, pouco depois de uma reunião com a Fox Interactive, unidade da News Corp. que adquiriu a Intermix Media, controladora do MySpace, cerca de um ano atrás pela quantia então extraordinária de 580 milhões de dólares. Rohan fez referência ao crescimento fenomenal do MySpace. Atualmente, o site conta com mais de 90 milhões de usuários ativos, um público duas vezes maior do que um ano atrás, atraindo com isso os anunciantes. Recentemente, a empresa assinou um acordo com o Google para exibição de resultados de busca e introduziu links de anunciantes em troca de 900 milhões de dólares por um período contratual de três anos. Para o cálculo dos 15 bilhões, Rohan utilizou como parâmetro o Google, que também depende da receita de anunciantes, e cuja capitalização de mercado é de 120 bilhões de dólares.
Mas será que o Google é uma boa referência? O site é sem dúvida alguma o principal motor de busca da Internet, ao passo que o MySpace é um dos vários concorrentes em busca de participação de mercado em uma nova indústria. O Google tem um histórico comprovado de confiabilidade, o que não é o caso do MySpace.
Além disso, até mesmo os 120 bilhões de capitalização de mercado do Google podem ser reflexo de uma certa exuberância irracional, o que faz dele um modelo equivocado. As ações são comercializadas por um valor que corresponde a cerca de 55 vezes o montante dos ganhos anuais da companhia, o que é quase o triplo do índice preço/lucro de uma empresa típica do índice Standard & Poor’s 500. Usando o mesmo valor de preço/lucro de 55 vezes, o MySpace precisaria de cerca de 270 milhões de dólares em ganhos anuais para fazer jus à cotação de 15 bilhões. Seria possível atingir essa cifra em três anos, uma vez que a empresa deve gerar apenas 200 milhões em receitas este ano? Esse parece ser o limite da empresa.
Vale a pena analisar algumas das estimativas para o Facebook. Em janeiro passado, Mark Zuckerberg, fundador do site e hoje com 22 anos, recusou uma oferta de 750 milhões de dólares da Viacom, na expectativa de uma oferta de 2 bilhões de dólares, segundo informações veiculadas pela imprensa. Atualmente, Zuckerberg analisa a oferta de 900 milhões de dólares do Yahoo. São números extremamente altos considerando-se que o negócio, fundado recentemente, em 2004, tem um público modesto de nove milhões de usuários e receita anual estimada de cerca de 50 milhões de dólares, embora alguns especialistas acreditem que esse valor deva dobrar em breve. Para que o Facebook tivesse um valor equivalente a 55 vezes os seus ganhos seriam necessários lucros de 16 milhões de dólares para justificar um preço de 900 milhões .
“Fluxo de caixa futuro”
Contudo, não há dúvida de que as redes de relacionamentos têm alguns vencedores, e os sites que hoje já contabilizam receitas substanciais certamente estarão em posição de vantagem em relação a diversos concorrentes menos conhecidos. “São receitas polpudas”, diz Metrick, salientando que isto distingue o Facebook das empresas de Internet da época da bolha. “Havia inúmeras empresas de Internet em 1999 sem receita alguma [...] Esse preço estimado de 900 milhões não parece tão absurdo se levarmos em conta o fato de que há nele embutido uma boa dose de crescimento.” Contudo, acrescenta, “há inúmeros exemplos de empresas, como a Netscape, que cresceram e, no fim, não deram certo”.
O método de avaliação com base na capitalização de mercado costuma ser empregado em empresas de capital aberto — isto é, organizações de iniciativa privada com ações cotadas em bolsa. Trata-se de um artifício mais indicado para o cálculo do valor atual do que para a estimativa de valores futuros. Os analistas procuram sempre também levar em conta as perspectivas da empresa por meio de cálculos diversos que lhes permitam obter um valor para o “fluxo de caixa futuro”. Basicamente, eles analisam as receitas esperadas ao longo de um número determinado de anos e subtraem as despesas para chegar a um valor de “fluxo de caixa livre”. Em seguida, utilizando diversos valores presumidos para as taxas de juros, determinam, em cifras atuais, os valores a serem percebidos futuramente.
Os analistas nunca sabem ao certo o valor das receitas e despesas futuras das empresas; entretanto, o problema é ainda mais grave quando se trata de uma empresa jovem em uma indústria ainda iniciante. Os pressupostos utilizados em qualquer modelo de valoração baseiam-se, de preferência, na experiência de pelo menos seis ou sete concorrentes, diz Metrick. Todavia, não há dados confiáveis em outros negócios desse setor ainda em processo de desenvolvimento.
No caso de indústrias mais antigas, os analistas sempre estabelecem o valor de mercado de uma empresa com base em algum índice como, por exemplo, receitas diversas. “Contudo, o problema é que estamos supondo que as avaliações feitas sejam racionais”, observa Holthausen, assinalando que as expectativas no caso de novas indústrias poucas vezes são racionais. Durante a bolha de Internet, algumas empresas com receitas substanciais tiveram seus preços avaliados em patamares muito superiores aos de qualquer análise tradicional, acrescenta. “Era um cálculo contrário a tudo que sempre se praticou até então.”
Depois que a bolha estourou, a avaliação dos sobreviventes tornou-se uma tarefa mais delicada. Alguns são avaliados sem nenhuma dificuldade por meio de processos tradicionais, explica Peter Fader , professor de Marketing da Wharton. É o caso sobretudo de empresas privadas que atuam no comércio convencional, como a Amazon.com e o site de leilões eBay. As ações dessas empresas são negociadas a taxas de 45 e 39 vezes os lucros auferidos, respectivamente.
“Uma pontocom como a Amazon jamais será supervalorizada como costumavam ser valorizadas as ações das empresas de Internet”, diz Fader, “porém, as redes de relacionamentos são verdadeiras terras de ninguém. É uma área de muita inconstância. Não é como o segmento dos motores de busca, em que se pode fazer comparações com base em critérios objetivos”, diz Fader em referência a companhias já estabelecidas, como o Google e o Yahoo.
Entre outros fatores desconhecidos, vale mencionar: até que ponto as redes de relacionamentos são capazes de atrair e manter seus usuários? Uma delas, a Friendster, estreou alguns anos atrás e depois decaiu. Por outro lado, o usuário costuma ter um trabalho considerável para colocar informações e imagens nesses sites, além de estabelecer redes bem elaboradas de amigos para compartilhamento eletrônico. Portanto, tudo indica que não estariam dispostos a abrir mão de todo esse esforço sem mais nem menos como acontece, por exemplo, quando passam de um site de livros para outro. “Parece-me que o modelo possui um certo grau de aderência”, observa Holthausen.
Redes construídas em torno de produtos
Metrick acredita que os sites de relacionamentos sociais não são moda passageira. Não há garantia, porém, de que o MySpace, o Facebook ou qualquer outro site do setor serão os grandes vencedores finais. Fader também é de opinião de que as redes de relacionamentos chegaram para ficar, mas o ideal seria que não funcionassem de forma autônoma, e sim como elemento adicional de sites que atraem os usuários por outros motivos. Portanto, os vencedores poderão ser aqueles sites que adotem elementos das redes de relacionamentos. Poderão ser também empresas novas, ou sites de relacionamentos que ampliem suas ofertas.
Muitos sites poderão ser adquiridos da mesma forma que o MySpace foi pela News Corp., a colossal empresa privada multinacional de mídia comandada por Rupert Murdoch. Parte da estratégia da News Corp. consiste em permitir que os anunciantes introduzam os usuários nas redes por meio de produtos, como filmes ou bandas. No MySpace, por exemplo, é possível consultar o perfil de mais de um milhão de bandas.
Se o modelo do MySpace se tornar padrão, os sites de relacionamentos sociais serão bem diferentes das empresas clássicas da época da bolha, que tentavam faturar alto ao abrir o capital mantendo-se independentes. Os riscos não são os mesmos quando se tem um empreendimento incerto incorporado a outro de maior porte, explica John R. Percival, professor adjunto de Finanças da Wharton. “É o tipo de negócio parecido com o de petróleo e gás. O risco talvez não seja tão grande quanto se imagina, o que não justificaria uma valorização elevada demais.”
Uma perfuradora de petróleo pequena e independente está sujeita a um risco alto quando perfura um poço novo, que pode estar seco, diz Percival. Em comparação, os riscos de variação de preço e de demanda são relativamente pequenos. Contudo, a situação se inverte quando a perfuradora pertence a uma companhia maior que faz inúmeras perfurações. Um poço seco aqui e outro ali não é motivo de grandes preocupações, mas as variações nos preços e na demanda do petróleo, sim.
As redes de relacionamentos podem ser arriscadas para seus fundadores e para as empresas de risco responsáveis por seu funcionamento nos primeiros anos de atividade; entretanto, não parece que estejam injetando doses maciças de risco no mercado como faziam as empresas de tecnologia em fins dos anos 90. “Se você tem um pouco de dinheiro investido no setor e já fez investimentos em outras áreas”, diz Percival, “digo-lhe sinceramente que o risco não é tão grande quanto você imagina”.
Aludindo à primeira bolha de Internet há seis anos, Fader diz que “olhamos para trás e achamos que não passaremos por tudo aquilo novamente, mas quem garante que a história não se repetirá?”