Os cerca de 790 trabalhos selecionados dos 3.073 submetidos asseguraram o percentual aproximado de 26% de trabalhos escolhidos para apresentação e publicação nos anais do EnANPAD 2004. Seleção rigorosa, portanto.
Nove prêmios divisionais atribuídos, um para cada divisão acadêmica da ANPAD, para deixar a nossa comunidade relativamente tranqüila no que concerne à preocupação em valorizar o conceito de reconhecimento intelectual. Além deles, um prêmio geral para o melhor trabalho de pesquisa teórico-empírica do evento.
Seria possível atribuir até três prêmios gerais, mas apenas o de pesquisa teórico-empírica foi concedido. As diversas comissões, nas várias etapas do processo de avaliação, não consideraram pertinente atribuir prêmio para duas categorias gerais neste 28º EnANPAD: melhor caso de ensino em administração e melhor ensaio teórico.
No que concerne a caso de ensino em administração, a explicação para o não alcance do nível exigido para recebimento do prêmio geral pode ser facilmente encontrada na escassa utilização desse tipo de produção acadêmica no processo de desenvolvimento das ciências administrativas no Brasil. Apenas no recente novo século, esse tipo de trabalho acadêmico passou a fazer parte, de maneira sistemática, da agenda de interesse da ANPAD e de parte de seus associados. É provável, portanto, que em futuro próximo sejam produzidos casos que alcancem o nível de merecimento de um prêmio geral. Questão de tempo para amadurecimento, pois. Na verdade, a própria instituição de um prêmio geral para essa categoria decorreu da preocupação da associação em estimular a ocorrência de produção acadêmica de nível também nessa direção.
No que se refere ao ensaio teórico, a explicação para a não concessão do prêmio para nenhum trabalho apresentado no evento e publicado nos anais é preocupante para a academia brasileira de administração: nenhum deles alcançou nível suficiente para ser premiado. As diversas comissões assim concluíram e a diretoria acatou.
Não cabe aqui fazer ampla e profunda análise do porquê dessa situação, mas não custa ilustrar, brevemente, mediante a verificação do pequeno conjunto de ensaios teóricos produzidos em terras brasileiras, no campo da teoria institucional – campo esse sobre o qual me debruço há quinze anos, com a preocupação, nem sempre plenamente sucedida, de seguir uma agenda consistente de pesquisa. A maioria dos ensaios teóricos produzidos a propósito da perspectiva institucional de análise, no Brasil, são, pura e simplesmente, pseudo-ensaios teóricos. Usualmente são apressados, inconsistentes e superficiais. Contrariam a própria noção de que um ensaio deve resultar de um trabalho prolongado, profundo e criativo de reflexão sobre um corpo teórico à luz da observação sistemática da realidade. Um ensaio teórico deveria ser escrito apenas quando se alcançasse a maturidade intelectual para tanto, decorrência natural de muita reflexão e da realização de estudos, continuados e consistentes, em um campo do conhecimento. Ensaios teóricos precisam, necessariamente, oferecer alternativas originais e viáveis para a evolução dos estudos em determinada área.
A classificação da maioria dos trabalhos dessa categoria, produzidos no país, como pseudo-ensaios teóricos, resulta da simples constatação de que tais ensaios no campo da teoria institucional carregam um ou mais dos seguintes equívocos, em diversas combinações possíveis: a) supersimplificação de conceitos fundamentais das ciências sociais; b) utilização reducionista de conceitos em decorrência de inadequada apreensão; c) interpretação equivocada da obra de autores relevantes; d) redução simplória de fenômenos sociais complexos a um único fator de base explicativa; e) conversação obscura entre teorias de diferentes bases ontológicas e epistemológicas; f) prescrição de base estritamente ideológica como fundamento da análise: como a realidade deveria ser independentemente de como é socialmente construída; g) limitação ao plano de mera compilação simplificadora de abordagens já exploradas, com mais propriedade, em obras mais completas; h) não explicitação das conexões relevantes do que se propõe no ensaio e das possibilidades de realização de investigações teórico-empíricas, a partir das considerações nele contidas; i) adjetivação derrogatória, em lugar de argumentos científicos sólidos, que resultam de arrogância ingênua ou de propósitos não explicitados; e vai por aí afora.
Como resolver o problema da banalidade de grande parte dos ensaios teóricos produzidos e incentivar a criação de outros, com qualidade? A resposta a essa questão deve ser procurada no tratamento mais amplo do problema da sistematização da pesquisa e da produção científica em administração no Brasil. Como já ressaltei em pronunciamentos anteriores, é crucial o contínuo desenvolvimento de grupos de pesquisa nos programas de pós-graduação stricto sensu no país, que trabalhem com uma agenda sistemática e sejam capazes de interagirem e de se oxigenarem com pares dentro e fora da organização à qual estão vinculados.
Há uma série de fatores de natureza cultural, política, social e organizacional em nosso país e em nossa área de conhecimento afetando a possibilidade de multiplicação de grupos de pesquisa, que precisam merecer tratamento em outro espaço menos limitado do que este aqui, mas gostaria de acenar com uma possibilidade pragmática para auxiliar na solução do problema da qualidade da pesquisa e da produção científica em administração no país. Trata-se das divisões acadêmicas recentemente criadas e em processo atual de inserção na estrutura organizacional da ANPAD.
Constitui atribuição de cada divisão acadêmica promover o desenvolvimento de seu campo de conhecimento e aplicação, estimulando a elevação contínua da qualidade da produção científica e a sua utilização nas atividades de ensino e pesquisa. Para tanto, devem ser integradas por especialistas do campo de conhecimento e precisam funcionar como lugar privilegiado para a interação, o debate e a troca de idéias. O respeito entre pares, a avaliação e a crítica séria e consistente da produção científica devem constituir os pilares de sustentação, organização e funcionamento de cada divisão acadêmica. Elas precisam funcionar com a noção solidária de locus de inclusão e pertencimento.
O momento é mais do que propício para a estruturação das divisões acadêmicas, com a submissão de mais de 3.000 trabalhos para o EnANPAD e a média de 400 trabalhos nos três eventos temáticos setoriais (EnEO, EMA e EnAPG), neste ano de 2004. Essas divisões acadêmicas, agora que alcançaram um número razoável de associados individuais, estão no ponto para serem estruturadas em torno da idéia de um coordenador e um comitê executivo, o que deverá ocorrer nos meses de outubro e novembro do corrente ano.
Deve-se acrescentar que o recente contexto de crescimento exponencial na produção de trabalhos científicos requer a reconfiguração dos papéis de coordenadores de temas e de avaliadores, com base em um locus de pertencimento, no qual o reconhecimento entre pares seja um constante elemento de estímulo. Nada mais natural, portanto, que se verifique a passagem das coordenações de temas para a responsabilidade direta das divisões acadêmicas. Constitui, sem sombra de dúvida, passo importante no processo de desenvolvimento da qualidade e do nível de avaliação da produção científica brasileira nas ciências administrativas. Os coordenadores de temas, desassociados de divisões acadêmicas, desempenharam papel relevante no processo de amadurecimento dos eventos da associação, bem como na elevação da qualidade da produção científica, até o presente momento. No entanto, a crescente quantidade de trabalhos submetidos para esses eventos e o aumento constante do nível de complexidade dos diversos campos de conhecimento, que integram a área de administração, requerem a reconfiguração desse papel, agora no âmbito da divisão acadêmica.
Parece-me que é chegado o momento de se atribuir a cada divisão acadêmica a responsabilidade pela avaliação dos trabalhos submetidos nas áreas temáticas de sua competência. Nas divisões acadêmicas será possível formar comissões de coordenação de áreas temáticas que envolvam, pelo menos, três profissionais: um deles que atuou recentemente como coordenador, um segundo que seria o coordenador atual e um terceiro que seria o coordenador futuro. Tal comissão coordenadora poderia realizar um trabalho de triagem, permanente e gradual, de profissionais que realizam avaliações de qualidade, visando à formação de um grupo de avaliadores de alta consistência por área temática em cada divisão acadêmica. Seria desejável, inclusive, a criação de um sistema de premiação e reconhecimento dos melhores avaliadores, com ampla divulgação para a comunidade anpadiana.
Em suma, o trabalho de coordenação de áreas temáticas e de avaliação dos trabalhos submetidos nos diversos eventos da ANPAD, como encargo das divisões acadêmicas, sob a coordenação geral do diretor científico da associação, seguramente facilitaria o trabalho desse diretor, agregando valor à atividade pelo estabelecimento de um locus de pertencimento.