Proer americano

O Brasil parece passar ao largo das grandes ameaças geradas pelos efeitos da crise americana. Isso se deve em grande parte a sustentabilidade de suas commodities, sobretudo agrícolas. As emblemáticas crises econômicas da Ásia (1997), Rússia (1998) e mesmo do Brasil (1999) mostraram como é importante para um país ter um sistema financeiro sólido, capaz de assimilar os impactos negativos causados pela turbulência vertiginosa no capital financeiro.

Nos EUA, há clara a possibilidade de contágio informacional, ou seja, a falência de uma instituição levando a uma perda generalizada de confiança em instituições similares, as quais o mercado acredita estarem submetidas aos mesmos riscos.

Diante do cenário da falta de liquidez e da propagação de boatos sobre a precária situação do setor financeiro no mercado, começaram a se desenvolver tratativas no sentido de que se viabilizasse uma negociação de salvamento. Elas tinham o escopo de se prevenir ou remediar uma importante crise que abalaria o mercado, com sérios (e evidentes) riscos de se verificar efeito dominó sobre outros agentes do sistema financeiro americano.

É notório que toda a operação de investimento caminha em risco. É inerente do comércio que as comercializações importem numa possibilidade (indesejável) de resultado negativo. A boa prática negocial, contudo, estimula sistemas de informações que possam balizar a convicção de que o negócio praticado, apesar de envolver riscos, fora efetuado com tal seriedade que esses riscos foram muito bem analisados e minimizados.

Existe um temor que frente à falência de um grande player financeiro seja disseminada a impressão que todo o sistema bancário está em crise. Em paralelo, devido à interligação dos mercados e negócios, a falência desse banco levaria consigo milhares de pequenos e médios comerciantes, que ali tinham seu caixa de depósitos, aplicações, investimentos...

Na chamada “bolha imobiliária”, verificou-se que a intensa e continuada valorização da riqueza financeira privada e seu peso crescente nos portfólios exacerbou os ciclos de expansão, propulsionando decisões de consumo e de investimento com graus crescentes de alavancagem (entretanto, mascaradas pela própria valorização dos ativos), resultando em situações vulneráveis sobre acumulação de capital e de sobrevalorização da riqueza que podem provocar graves colapsos financeiros e redundar em crises de lenta e difícil digestão.

Todo o mercado ainda corre risco. Este tipo de risco está associado à possibilidade de desvalorização ou de valorização de um ativo, devido a alterações políticas e econômicas gerais, tanto nacionais como internacionais, ou em decorrência da situação individual de uma empresa ou banco. O que se teme, porém, é um risco maior, um risco sistêmico.

O risco sistêmico é o risco de quebra do sistema financeiro pela perda de confiança dos correntistas e investidores que, não confiando mais que os bancos guardem e apliquem adequadamente suas economias, correm, todos ao mesmo tempo, para os bancos sacando suas economias e colocando-as debaixo do colchão. É a tragédia maior que pode acontecer ao sistema financeiro de um país. Os movimentos no mercado de ouro demonstram essa possibilidade.

Há de se salientar a existência de interdependência de todo o sistema produtivo com o sistema bancário, não só nos EUA, como no mundo, e uma ruptura em seu sistema financeiro teria efeitos devastadores sobre o país, carregando consigo, grande parte do mundo.

Para combater esse sintoma, os EUA adotaram política similar ao Proer adotado no Brasil na época de dificuldades extremas de grandes bancos. Serviu para o país, deverá servir para os EUA.

Antonio Carlos Porto Araujo é consultor da Trevisan Consultoria e editor responsável da Trevisan Editora Universitária.

 




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