Às vezes desprezados, os dividendos (parte do lucro dividida com os acionistas) das empresas negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo mostram sua cara em momentos de mercado depreciado. Com a desvalorização das cotações neste ano, cresceu o dividend yield, taxa que mede o ganho com dividendos proporcionado por uma ação. Levantamento da consultoria Economática com base nos proventos distribuídos nos últimos 12 meses mostra que seis papéis incluídos no Índice Bovespa têm potencial de gerar ao acionista, só em dividendos, um rendimento maior que a taxa básica de juros Selic, de 13,75%. Isso desde que as companhias mantenham o mesmo patamar de lucro e a mesma política de distribuição de proventos nos próximos 12 meses. Mas diante da crise financeira que assola o mundo, resta justamente esta dúvida: elas conseguirão?
Resultado da divisão do valor dos dividendos por ação anuais, pelo preço do papel da empresa, o dividend yield tende a aumentar quanto menor estiver a cotação. Uma tradicional pagadora de dividendos como a Eletropaulo registrava, em outubro de 2007, uma taxa de 11,72% - o que significa dizer que, nos últimos 12 meses, o acionista recebeu em dividendos esse porcentual do preço da ação. Com a desvalorização do papel, a conta do dividend yield resultava, no dia 7, em 15,95%.
Em maior ou menor grau, o mesmo ocorreu com praticamente todas as outras ações do Ibovespa. O dividend yield das preferenciais série A da Telemar Norte Leste passou de 35,96% para 42,96%, enquanto o das ordinárias da Light foi de 10,84% para 17,73%. “Quem não busca lucro imediato e está de olho no negócio da empresa deve avaliar esse aspecto”, afirma o gerente de pesquisa da corretora Planner, Ricardo Martins. E, tradicionalmente, as empresas de energia elétrica são as melhores pagadoras de dividendos.
Proventos
Embora os atuais níveis de dividend yield indiquem belas oportunidades para os interessados na renda em proventos – como quem vê aí uma chance de garantir a aposentadoria – nada garante que, no futuro, as empresas pagarão o mesmo valor em dividendos. E a dúvida cresce quando a turbulência se avizinha, como agora.
Por lei, as companhias são obrigadas a distribuir ao menos 25% do lucro líquido aos acionistas. As “boas pagadoras”, como as do setor elétrico, superaram esse porcentual. Mas diante do aperto causado pela crise financeira originada nos Estados Unidos, com restrição de crédito pelos bancos frente às incertezas do futuro, isso pode mudar.
“Algumas companhias podem diminuir o pagamento de dividendos para garantir reservas. Nesse momento, elas devem adotar uma posição cautelosa, afirma o analista de investimentos da Rio Bravo, Fernando Fanchin. “Não acredito que aconteça, mas não estranharia se alguma grande pagadora reduzisse”, completa Martins.
Entre as boas pagadoras do setor elétrico, Fanchin vê chance claras de duas reduzirem os proventos. “A Cemig e a Tractebel já deram indícios disso”, diz. “No curto prazo, elas precisarão elevar os investimentos”, concorda o gestor de renda variável do Itaú, Marco Antônio Carregari. A Cemig estuda adotar a política mínima de dividendos prevista no seu estatuto – de distribuir 50% do lucro líquido – no exercício de 2008, diz o superintendente de Relações com Investidores, Agostinho Faria Cardoso. “Avaliamos que há oportunidades de aquisições importantes”, afirma Cardoso. O porcentual do exercício de 2007 já tinha sido de 50%, mas o de 2006 atingiu 80% e o de 2005, 103%. Os dividendos deste ano serão pagos em 2009.
Na Tractebel, os dividendos relativos ao primeiro semestre alcançarão 95% do lucro e serão pagos no dia 23. Para o segundo semestre, o porcentual poderá ser reduzido “em função de novos investimentos a serem feitos pela empresa” – e não da crise, reforça a assessoria de imprensa. Se isso acontecer, o valor ficará dentro da política da empresa, que é distribuir no mínimo 55% do lucro em dividendos.
Redução de dividendos
Para o analista do Santander Márcio Prado, as incertezas da economia podem levar o setor elétrico a diminuir os dividendos já no exercício de 2008. Ele, que divulgou relatório sobre o assunto na semana passada, vê maior chance de redução na Tractebel, Energias do Brasil, CPFL Energia, Coelce e Cemig. As condições adversas no mercado, que fizeram cair a oferta de crédito para as companhias, tornam mais complexa a gestão dos recursos frente às necessidades de curto prazo, reforça Prado. "Tempos atrás, as elétricas poderiam manter uma posição de caixa mais baixa, porque teriam condições de captar recursos no mercado a custos competitivos. Esse quadro não existe mais."
Outro fator que pode alterar os dividendos é o volume de lucro. “No geral, acredito que até o terceiro trimestre teremos resultados muito favoráveis em vários setores”, afirma Martins, da Planner. “Mas no quarto trimestre poderemos verificar uma redução no lucro.” Das 65 ações incluídas no estudo feito pela Economática, as empresas detentoras de 40 delas registraram, no primeiro semestre deste ano, lucro líquido no mínimo igual ao do mesmo período do ano passado.