O especialista em estratégia internacional Brian Silverman afirmou ontem que a estabilidade e a qualidade das instituições são um pré-requisito indispensável para a participação de um país no mercado globalizado. Em palestra dada ontem no I Simpósio de Administração e Marketing da ESPM, ele deu como exemplo a Alemanha do pós-guerra. "Um mesmo povo, com a mesma cultura de séculos, gerou dois países absolutamente diferentes em pouco
tempo", afirmou ele.
Professor da Estratégia Internacional da Universidade de Toronto, no Canadá, Silverman defendeu o rigor nas pesquisas para se compreender os novos fenômenos criados pelo mundo cada vez mais globalizado.
Segundo ele, é preciso investigar, por exemplo, as alianças internacionais, as redes de networking e os grupos de imigrantes.
"Qual é o impacto econômico da diáspora de indianos para trabalhar nos Estados Unidos e sua relação com seu país?", perguntou ele à platéia. "Ninguém sabe, e por isso temos que estudar."
MERCADO INTERNO
Com foco em negócios internacionais, na perspectiva dos países emergentes, o simpósio da ESPM se propõe justamente a gerar novos conhecimentos nessa área para o Brasil, dono de uma economia com
porte suficiente para ter um papel bem maior no mercado internacional. Num dos painéis de hoje, intitulado "Os desafios das empresas brasileiras no processo de internacionalização", foi consenso que, mesmo as maiores empresas nacionais, encontram dificuldades no processo de internacionalização. Segundo a gerente geral de Gestão
Internacional da Vale do Rio do Doce, a área de Recursos Humanos é uma das mais sensíveis nesse aspecto. "Ainda estamos aprendendo", admitiu.
"Temos 2.500 funcionários em dezoito países e somos surpreendidos com problemas com a legislação trabalhista na França, com sindicatos na Noruega e com o frio na Mongólia", disse. De acordo com ela, a tendência natural de muitas empresas é enviar colaboradores brasileiros para fora, mas o ideal é montar sua equipe local. Por isso, a Vale tem procurado reduzir a quantidade de expatriados e investido na formação de profissionais locais. Vários contratados são trazidos para passar um ano no Brasil, a fim de compreender a cultura organizacional.
O secretário-geral e diretor de Comércio Exterior da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Michel Alaby, concorda. Ele disse que os obstáculos culturais precisam ser levados cuidadosamente em conta, mas ressalvou que não é difícil superá-los. "No caso dos 22 países árabes, mais importante que um papel assinado são a palavra e a confiança". Segundo ele, há muitas oportunidades de negócios na região. "Está sendo constituído uma zona franca na região do golfo Pérsico, que já conta com mais de 2.000 empresas, nenhuma delas brasileira até agora", advertiu.
Já o gerente de Comunicação de Marketing Internacional da Petrobras, Izeusse Dias Braga Jr., destacou a importante da tecnologia como o grande diferencial competitivo. "A Petrobras, com tecnologia genuinamente brasileira, tem pleno domínio mundial nas operações em águas profundas, com perfurações a mais de 1.500 metros de profundidade", informou.
FILIAIS
Em termos de economia nacional, a internacionalização de negócios também se dá por meio das empresas multinacionais instaladas no país.
No painel denominado "O papel estratégico das filiais: realidade ou mito?", também realizado hoje, ficou claro que tem crescido a importância das subsidiárias nesse processo. "Não nos consideramos uma filial, mas sim como companhia globalizada com atuação no mundo inteiro", afirmou o Consumer Business Head do Citibank, Gilberto Caldart. "Nos próximos anos, a previsão é de que 60%, 70% da rentabilidade da empresa venha de fora dos Estados Unidos, o que
questiona o conceito tradicional de matriz", acrescentou.
O presidente da editora Pearson no Brasil, Guy Gerlach, fez a mesma afirmação. Ele citou como exemplo a Biblioteca Virtual da editora. "Trata-se de uma criação brasileira, com um software brasileiro, mas que já está sendo exportada para o México e o Peru e deverá ser adotada também na Argentina", disse.
No painel que precedeu a palestra de Silverman ontem, intitulado "Visão Nacional", um consenso entre os palestrantes foi o de que o país precisa fortalecer seu mercado interno para poder disputar o internacional. "Se não fazemos para dentro de casa um bom produto, não conseguimos competir lá fora", sintetizou Ozires Silva, que presidiu por mais de vinte anos a Embraer, que exporta mais de 95% de sua produção.
Por caminhos ideológicos diferentes chegou à mesma conclusão o professor de política internacional da Universidade de São Paulo (USP) Leonel Itaussu Almeida Mello. Segundo ele, uma entrada consistente do Brasil no mercado externo depende de instituições mais fortes e o estabelecimento de um Estado de bem-estar social. "Temos um compromisso com o resgate da dívida social".
LIDERANÇA
O presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio, Mário Marconini, também criticou as políticas do governo brasileiro na área. "Fala-se muito em exportar, mas não há consenso sobre o mercado interno", disse ele. Outro entrave ao crescimento do comércio exterior do país é a geopolítica. Segundo Marconini, o governo toma
sozinho decisões geopolíticas sem consultar os que vão sofrer as conseqüências no plano econômico, como o Mercosul e os acordos com a Índia e a China. Além disso, diz ele, a política externa nacional é baseada na liderança. "Parece que só serve se o Brasil for líder", criticou.
O diretor do Departamento de Comércio Exterior da Ciesp, Humberto Barbato, concordou com Marconini. "Pagamos um preço alto demais para tentarmos ser protagonistas no cenário de política internacional", afirmou. Ele defendeu uma revisão da estratégia com o Mercosul, sugerindo sua substituição por uma zona de livre comércio na região.
Para Barbato, um bom começo seria isolar a agenda comercial da política externa. "O ideal seria formular uma política comercial com critérios econômicos", sugeriu.
CONGRESSO
O I Simpósio de Administração e Marketing da ESPM está sendo realizado simultaneamente com o III Congresso de Administração da ESPM. O simpósio se encerra nesta sexta-feira com o painel "Pesquisa em Internacionalização de Empresas e com nova palestra de Brian Silverman, intitulada "Negócios internacionais na perspectiva dos países emergentes". O Congresso foi encerrado hoje, após a apresentação de 55 trabalhos acadêmicos inéditos em sete áreas temáticas.