Desde o início do ano, os papéis da Petrobras (PETR3, PETR4) apresentam ótimo desempenho, acumulando valorizações em torno de 15%. Mas grande parte destes ganhos vem atrelada às "descobertas gigantes" de novas jazidas de óleo pela companhia.
E os anúncios já se tornaram rotina. Depois de Tupi e Júpiter, uma teleconferência na terça-feira (20) da Galp, parceira da estatal brasileira em alguns projetos, deu conta da descoberta de nova área no Espírito Santo. A resposta das ações foi imediata: valorização de quase 5% na quarta-feira. Não bastasse este anúncio, a Petrobras confirmou ao mercado na noite do mesmo dia mais uma descoberta, agora na Bacia de Santos.
O ganho atrelado às descobertas colocou a Petrobras à frente de gigantes como Microsoft em valor de mercado, atrás somente da concorrente Exxon Mobbil e da General Electric nas Américas. Mas este caso remete diretamente à hipótese das expectativas racionais, em que os agentes tomam a melhor decisão possível a partir das informações disponíveis.
Mas diferentemente da disparada de 14% das ações pós-anúncio de Tupi ou da escalada da quarta-feira, a resposta dos ativos foi a pior possível. Com o feriado no Brasil, os ADRs - American Depositary Receipts - da Petrobras recuaram mais de 4% em Nova York. Parece que o mercado passou a interpretar o evento de outra maneira.
Grande potencial, mas apenas "potencial"
Mas quais são estas "informações disponíveis"? Exatamente desta questão vêm as baixas dos ADRs e forte correção das ações nesta sexta-feira. Que o potencial das reservas é exuberante todos sabem, mas se trata apenas de "potencial".
Em nenhum momento, seja a respeito de Júpiter, Tupi ou das duas descobertas recentes, foi divulgada informação concreta a respeito da capacidade dos poços, ou prazo para início das explorações. São apenas expectativas, que encontram ainda grande dificuldade tecnológica para a exploração de jazidas tão profundas, e que podem até tornar sua exploração de certa forma inviável.
Estas questões parecem ser esquecidas pelos investidores na hora da tomada de decisão, desafiando a hipótese das expectativas racionais. Contudo, não se pode culpar completamente os mesmos. No ambiente dos mercados, os investidores às vezes têm que correr caso queiram se aproveitar dos ganhos.
Sempre os movimentos são antecipados, ou seja, quem for esperar dado concreto ou o início das operações nos poços, fatalmente tenderá a ficar de fora de grande parte dos frutos destas descobertas às ações.
Analistas isentos
Esta distorção entre o comportamento dos investidores e o real impacto das notícias divulgadas passa ainda pelos analistas. Será que eles podem ser culpados por alguma interpretação errônea do investidor?
Os estrategistas do mercado podem até incitar a iniciativa dos acionistas, mas também têm sua parcela de inocência. Um ótimo exemplo é o relatório da corretora Brascan desta sexta-feira.
Exatamente nas palavras da instituição, "o anúncio não traz maiores detalhes sobre o volume de óleo recuperável do bloco. Esta informação seria de extrema importância para uma avaliação mais precisa do potencial da descoberta".
Tal trecho resume muito bem a questão: ainda faltam informações precisas para uma avaliação mais abrangente do último poço anunciado, mesmo com uma impressão inicial positiva gerada pela divulgação.
Mudança na percepção
E foi com este discurso que o relatório do banco de investimentos Morgan Stanley gerou esta percepção entre os investidores e guiou a derrocada dos ADRs na véspera.
A instituição colocou em xeque a reação aos papéis através exatamente deste ponto: as informações sobre a nova descoberta de petróleo ainda são insuficientes para embasar uma decisão de investimento.
Na evidência da hipótese das expectativas racionais, os papéis da Petrobras guiam a forte desvalorização do Índice Bovespa na última sessão da semana. As ações preferenciais cedem mais de 4% pela tarde, enquanto as ordinárias registram baixa superior a 5%.