Redução do crédito pessoal não é motivo para pânico, dizem analistas

Quem passa caminha pelas ruas do centro ou da Avenida Paulista, em São Paulo, talvez não tenha se dado conta, mas está presenciando um reflexo da crise financeira mundial. Há poucos meses, funcionários de bancos e financeiras ofereciam empréstimos aos passantes em quase todas as esquinas. Hoje, eles praticamente desapareceram das ruas.

Esse sumiço repentino é o retrato do aperto no crédito que o país começou a sentir. Se antes as financeiras "caçavam" clientes, agora vasculham o histórico de quem pede um empréstimo, na tentativa de se proteger de possíveis calotes - uma vez que o medo deles, com uma economia menos aquecida, aumenta.

"O crédito está mais seletivo em geral, está escasso. Alguns bancos e financeiras já têm preferência até por não emprestar, o que faz com que prazos sejam mais curtos e os juros, maiores", afirma Andrew Storfsr, diretor de economia, banking e finanças da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac).

Um exemplo da teoria na prática é o do Banco Panamericano, um dos mais atuantes em crédito pessoal no país, que anunciou o aumento de taxas e a redução de prazos para empréstimos. Segundo a instituição, a meta foi deixar suas condições "condizentes com a atual situação de mercado".

"A atual situação do mercado exige cautela e conservadorismo em relação a novos créditos", informou o banco em nota.

Impacto

Segundo especialistas, por não ser vinculado a garantias, o Crédito Direto ao Consumidor (CDC) sofre grande influência da crise. "Algumas financeiras já estão retirando alguns produtos de mercado. Com certeza será um Natal bem mais pobre", diz Fernando Manfio, sócio-diretor da empresa de análise de risco Witrisk. "Tem empresa que está literalmente suspendendo o crédito."

Dados preliminares da pesquisa mensal de juros da Anefac já apontam os primeiros apertos do crédito em setembro. A taxa média de juros nas operações para pessoa física subiu de 7,39% para 7,45% ao mês. Já os prazos máximos de financiamento de veículos foram encurtados de 72 para 60 meses.

Menos dinheiro de fora


Embora seja reflexo da crise no exterior, a restrição do crédito no Brasil tem natureza diferente da que ocorre lá fora. Nos Estados Unidos e na Europa, os bancos vêm sofrendo prejuízos enormes, que têm origem no não pagamento de hipotecas imobiliárias. Sem recursos, o crédito some.

Já os bancos brasileiros estão em situação diferente: sem créditos podres em carteira, gozam de boa saúde financeira. Ocorre que muitos deles captam recursos do exterior - e com o dinheiro lá fora escasso, evitam correr riscos, já que não teriam a quem recorrer em caso de problemas.

"Os bancos brasileiros estão pagando o preço dessa crise no exterior. Eles se sentem em risco", diz o economista Alexandre Assaf Neto, da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais, Econômicas e Financeiras (Fipecafi).

O que os bancos temem são os efeitos da crise sobre outros aspectos da economia. Com as perspectivas de um crescimento econômico menor, as empresas brasileiras devem sofrer queda em suas exportações. As commodities brasileiras também devem ter seus preços reduzidos.

Numa crise de confiança como a atual, os pequenos bancos, que pagam mais pelo dinheiro, são os que mais sofrem. "Esses bancos estão com problemas de liquidez, porque antigamente eles emprestavam e se financiavam com recursos do exterior. Mas o BC percebeu isso e, antes que esses bancos quebrassem, incentivou que houvesse transações de carteira", explica Assaf Neto, referindo-se a medidas anunciadas pelo BC.

Por outro lado, o interesse dos grandes bancos em adquirir essas carteiras de crédito mostra a solidez das instituições, segundo o economista da Anefac. "Se eles estivessem mal, não iam querer comprar", decreta. "Aqui no Brasil tudo está andando bem, não tem dúvida."

Prudência

Em tempos de incerteza, prudência é a principal recomendação dos especialistas ao consumidor que está planejando gastos ou administrando dívidas. Prudência, porém, não quer dizer pânico.

"O consumidor tem que ser muito mais prudente, muito mais cauteloso. E se for fazer um empréstimo, deve fazer isso em prazo curto, para diminuir o risco. Procurar pagar a maior parte à vista e não decidir nada por emoção. Não é a hora, tem que ser mais contido", afirma Storfsr.

"Quem estiver pensando em reprogramar dívidas de financiamento, pegar empréstimo para pagar cheque especial ou cartão de crédito, por exemplo, é bom fazer o quanto antes", recomenda o economista e diretor da Integral Trust, Carlos Fagundes.

"É uma realidade que o custo do dinheiro está aumentando, pode continuar a aumentar", diz o economista. Fagundes lembra ainda que "fórmulas mágicas" de ganho não devem ser levadas em consideração. "Se você não é operador de câmbio, não saia comprando dólares e fazendo besteira."



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