Setor imobiliário queima caixa no segundo trimestre e expõe ônus da expansão

No setor imobiliário, os esforços para quebrar a tradição de concentrar os lançamentos no final do ano trouxe efeitos colaterais. Os recordes inusitados no período de abril a junho custaram o caixa de incorporadoras. A situação cria um sentimento de preocupação em meio a um mercado cético para ofertas e dívidas.

Se de um lado as companhias de incorporação imobiliária entregaram, na média, 40% do guidance prometido para o ano em junho - uma novidade em relação ao ano passado, quando um volume expressivo do VGV (Valor Geral de Vendas) ficou concentrado no quarto trimestre -, na outra ponta, o consumo de recursos permaneceu em níveis elevados, abatendo novatas e veteranas listadas na Bovespa.

De acordo com levantamento realizado pelo Santander, Tenda (TEND3), Abyara (ABYA3), Rossi (RSID3) e Tecnisa (TCSA3) foram as que mais sofreram deterioração, enquanto Company (CPNY3), Gafisa (GFSA3) e Cyrela (CYRE3) postaram os melhores desempenhos, revelando certa gordura para sustentar a expansão ao longo do ano.

Segundo os resultados divulgados pela construtora Tenda, que ingressou na bolsa em outubro de 2007, suas disponibilidades financeiras encolheram de R$ 223,3 milhões no final do primeiro trimestre para R$ 170,6 milhões em junho. Ao passo que a Company registrou avanço neste quesito, de R$ 117,6 milhões para R$ 123,6 milhões.

Alternativa caseira

Para Eduardo Silveira, analista da Fator Corretora, apesar de preocupante, o recuo no caixa era esperado diante da explosão no volume de lançamentos. "O que não era esperado era um mercado de capitais tão fechado, somado ao avanço nos juros e na inflação, deixando o custo de emissão de debêntures desfavorável e reduzindo as opções das empresas para financiar o crescimento", interpreta.

O maior custo de dívida deixa Silveira mais pessimista em relação ao setor até o final do ano. Ele, que prevê um segundo semestre complicado do ponto de vista de custos, já enxerga um início de "seleção natural" do setor. "Temos as blue chips Cyrela, Gafisa, MRV (MRVE3), Rossi e PDG (PDGR3), com mais porte, experiência e mais liquidez, e as outras".

"Em termos de disponibilidade de capital, a queima de caixa foi alta no segundo trimestre, o que foi comprovado pela decisão tomada por algumas empresas de se desfazer de alguns ativos e/ou reduzir a projeção de avanço do VGV, como alternativa para garantir suas posições de caixa", prossegue a equipe do Santander.

Com acesso ao mercado descartado, a alternativa tem sido optar por estratégias paliativas: a Tecnisa foi pioneira na venda de terrenos, seguida pela Inpar (INPR3), que também vendeu imóveis não pertencentes ao seu núcleo de negócios. Outra opção, utilizada por Abyara e Agra (AGIN3), foi ser adquirido por um player mais capitalizado: no caso, Brasil Brokers (BBRK3) e Cyrela, respectivamente. Por fim, outras optaram por reduzir a meta de lançamentos.

Estrutura intacta

O diretor de Relações com Investidores da Helbor (HBOR3), Rodrigo Krause, questiona a percepção descrente sobre caixa na indústria imobiliária. O executivo reconhece que, na ânsia de formar um banco de terrenos interessante, algumas empresas acabaram exagerando na dose. "São poucas empresas que podem estar passando por aperto de caixa", pondera.

A disponibilidade financeira da Helbor se manteve nos dois últimos trimestres na faixa dos R$ 210 milhões. Na opinião de Krause, o setor como um todo está bem de finanças, apesar de as empresas que se alavancaram com instrumentos financeiros terem arcado com maiores custos para financiamento.

O RI da Helbor já vê uma luz no fim do túnel para o ímpeto de land bank: "Os terrenos estão ficando mais baratos, dado o fim da onda de dinheiro sobrando. Não tem nada que me diga que alguma empresa do nosso setor não vai conseguir cumprir as metas deste ano, porque o mercado vai bem".


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