Por que não podemos lamentar os danos da disrupção

A percepção geral é de que a inovação e a globalização não vieram para favorecer a todos. Mas a história mostra que não é bem assim

3M Inovação,

O termo "inovação" e suas variantes costumam ser associados a efeitos benéficos: maior produtividade, progresso, avanços tecnológicos e melhoria da qualidade de vida, por exemplo. Não foram poucas as inovações disruptivas que invadiram a sociedade e mudaram as relações, usos e costumes de várias gerações em um curto espaço de tempo.

Na verdade, foi necessário criar uma palavra que desse conta de transformações tão profundas. O conceito de "disrupção" foi apresentado pela primeira vez, em seu contexto atual, no artigo Disruptive Technologies: catching the wave, escrito por Clayton Christensen.

Há até pouco tempo, os efeitos negativos da disrupção eram percebidos apenas em empresas líderes de mercado vencidas por concorrentes que souberam surfar na crista da onda das mudanças, conforme fundamentou Christensen. Porém recentemente, a última das revoluções industriais manifestou seu lado negativo na sociedade.

Os economistas Enrico Berkes, da Northwestern University, e Ruben Gaetani, da Universidade de Toronto, analisaram em profundidade, a partir de um modelo estatístico, a relação entre inovação e segregação econômica. Os pesquisadores analisaram 2 milhões de patentes referenciadas nos últimos 40 anos e compararam com indicadores do censo populacional – como renda, educação e ocupação.

De acordo com as conclusões do estudo, quanto maior a "intensidade da inovação" – termo usado para indicar o volume de patentes em uma região ou cidade – maior a variação da segregação econômica entre as cidades. No período entre 1990 e 2010, aponta o estudo, tal fator aumentou mais do que a desigualdade de renda nos Estados Unidos.

"Descobrimos que a intensidade da inovação é responsável por 56% da variação entre as cidades e por 20% do aumento geral na segregação urbana entre 1990 e 2010", apontam os pesquisadores no relatório.

A velocidade na adoção de soluções tecnológicas na indústria – reduzindo os postos de trabalho e aumentando a produtividade e o lucro – é um movimento que aflige trabalhadores e parece gerar mais pobreza, atraso e concentração de renda em desfavor de quem tem menos poder de barganha e capital para investir. Dessa maneira, movimentos políticos que apontam para os extremos ganham força ao dialogarem com essa parcela crescente da população.

Não é uma suposição: uma pesquisa da Our World in Data conduzida nos Estados Unidos, Europa e Austrália mostra que a percepção de que o mundo melhorou é baixa entre as pessoas. Enquanto na Suécia 10% das pessoas acreditam que houve melhoria geral, nos EUA esse percentual é de apenas 6% e na França, 6%.

A percepção geral é de que a inovação e a globalização não vieram para favorecer a todos. Empresas e postos de trabalho desapareceram ou foram remanejados para locais onde a mão de obra é barata e pouco especializada. O mundo, enfim, caminha para o caos total. Mas a história mostra que não é bem assim.

"Em todas as dimensões-chave do bem-estar material humano -- alimentação, educação, saúde, liberdade e educação -- o munco está extraordinariamente melhor hoje do que estava há alguns séculos", ressalta o colunista da Forbes Steve Denning, referenciando a pesquisa The short history of global living conditions and why it matters that we know it, do economista Max Roser.

Conheça alguns aspectos que melhoraram substancialmente a qualidade de vida das pessoas nas últimas décadas e como a inovação teve um papel fundamental nessas transformações.

1. A pobreza extrema caiu significativamente nos últimos 200 anos

Em 1820, cerca de 95% das pessoas viviam em uma situação onde os ganhos eram insuficientes para se sustentarem. Hoje, o quadro praticamente se inverteu, com 9,6% das pessoas vivendo na pobreza extrema. Em números absolutos, a pobreza absoluta ainda é impactante, sobretudo por conta da predominância do tema na narrativa midiática.

"A produtividade crescente foi importante porque tornou bens e serviços importantes menos escassos: mais comida, roupas melhores e menos habitações apertadas", explica Roser, que mantém dados estatísticos atualizados no site Our World in Data.

"A talento daqueles que criaram as tecnologias que aumentaram a produtividade -- carros, máquinas, comunicações e tecnologias -- tornou alguns muito ricos e, ao mesmo tempo, aumentou a produtividade e as rendas dos demais", conta o economista. Ou seja, a inovação transformou a economia de um jogo onde a soma era quase sempre zero -- quando alguém ganhava, outros perdiam -- e colocou tudo em um saldo positivo.

"Com todos os seus problemas, a industrialização aumentou a produtividade e tornou possível manter mais pessoas fora da pobreza", afirma Denning.

2. A medicina erradicou ou minimizou o impacto de doenças fatais

Os avanços no combate à prevenção e tratamento de doenças não pode ser ignorado quando se fala em saúde e qualidade de vida. Ciclos epidêmicos e doenças letais ainda são objeto de temor das pessoas, mas as chances de uma nova Peste Negra ou varíola atingirem a população com a mesma intensidade que ocorreu no passado são mínimas.

A inovação na medicina, especialmente com a descoberta de antibióticos, medicamentos e tratamentos cada vez mais eficazes -- além de campanhas de informação, políticas sanitárias e vacinas -- aumentou drasticamente a expectativa de vida em geral. Em 1800, 43,3% das crianças morriam antes dos 5 anos de idade; hoje, esse percentual é de 4,25%.

Até o século 19, a hipótese mais aceita era de que os microorganismos que provocavam doenças surgiam espontaneamente na matéria orgânica. Isso levava ao entendimento de que higiene e prevenção eram pouco importantes na prevenção de doenças sérias, como a tuberculose e a sífilis. Em meados daquele século, o químico Louis Pasteur abriu outra possibilidade: a de que os germes vinham de fora e se proliferavam no organismo.

Com isso, o tratamento e a prevenção de doenças passaram a ter mais relevância. Com mais pessoas vivendo mais e melhor, a força de trabalho deu um salto, favorecendo também a produtividade, a competitividade e a inovação -- embora o aumento populacional traga consigo alguns transtornos.

3. A tecnologia na agropecuária é fundamental para a segurança alimentar

Apesar do alto íncide de desperdício de alimentos no planeta e do desmatamento provocado por culturas de alta de manda, como soja e milho, a fome é um problema bem menor do que era há algumas décadas. Apesar de afligir 11% da população global, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), no início do milênio o quadro era ainda mais dramático.

O relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2017 revela que 815 milhões de pessoas no mundo passam fome -- um aumento de 38 milhões em relação ao ano anterior após uma década de declínio constante, devido ao aumento de áreas em conflito. Em 2000, cerca de 900 milhões de pessoas estavam subnutridas.

Vários fatores contribuem para esse quadro -- desenvolvimento econômico, políticas de inclusão, programas de distribuição alimentar --, mas nada disso teria impacto se a capacidade de produzir alimentos fosse a mesma do século 19, quando a agricultura ainda era uma atividade pouco mecanizada.

Com a adoção de maquinário cada vez mais sofisticado ao longo do século 20, a agricultura foi capaz de manter o abastecimento mesmo durante duas guerras mundiais. Mesmo com menos empregados, as fazendas mecanizadas aumentaram exponencialmente a produção de alimentos, dimuindo a dependência de fatores naturais, como condições do solo, clima e pragas.

Nos últimos 25 anos, estima-se que 216 milhões de pessoas saíram da subnutrição. O dado é significativo, considerando-se o aumento populacional no planeta. A expectativa da ONU é que, em 2050, existam 9 bilhões de pessoas -- nove vezes mais do que em 1800.