Testes de software: qual a duração e abrangência ideais?

Testes de software devem durar quanto tempo para serem confiáveis? Por quanto tempo, por exemplo, um banco deve permanecer testando um sistema antes de colocá-lo à disposição dos clientes? E em relação à abrangência, qual a cobertura ideal um teste de software deve oferecer?

As respostas para essas questões dependem de algumas análises para que possamos enxergá-las de modo mais amplo. Comparações com outros setores podem nos ajudar nesse desafio. Na indústria farmacêutica, os testes de medicamentos duram anos até que estejam disponíveis aos consumidores nas prateleiras. Desenvolver um novo medicamento, da pesquisa ao lançamento no mercado, leva, em média, doze anos e custa US$ 800 milhões. São os testes de substâncias ativas que tornam a pesquisa tão complicada. Quando pesquisadores encontram uma estrutura apropriada no organismo - sobre a qual o medicamento age, influindo nas doenças - testam até dois milhões de possíveis substâncias ativas, até uma reação positiva.

O rigor nesse caso precisa ser bastante pesado, inclusive no que se refere à cobertura dos testes. Afinal, uma vez lançado no mercado, o fabricante do remédio precisa conhecer e informar ao público os efeitos colaterais (de curto e longo prazo), as contra-indicações para os mais variados grupos de pessoas e uma série de outras informações. São feitos inúmeros testes para certificar a segurança do medicamento, a garantia de que, ainda que não promova melhoras, não faça mal ao organismo. Há testes também para verificar a qualidade, garantindo que a produção em grande escala origine remédios exatamente iguais ao que foi produzido em laboratório.

A indústria aeronáutica é outro exemplo emblemático. Os testes de uma aeronave devem ter duração e abrangência necessárias para garantir a segurança de milhões de pessoas durante o período em que ela for utilizada. Existem informações de que a Boeing gasta três vezes mais para testar uma aeronave do que para construir...Vamos a um exemplo prático. Para que um avião entre em operação, ele tem que passar por inúmeros testes de resistência. Um deles é o teste de freios e o exemplo que vamos relatar é o teste do Boeing 777.

Nos testes, para simular uma condição desfavorável, os freios (discos de carbono) são desgastados até o limite mínimo aceitável, simulando freios muito gastos. Depois o avião segue para uma pista de testes de 5 km, para acelerar até 338 km/hora. Nesse momento, é simulada uma falha de motor ou obstáculo na pista, fazendo o piloto interromper a decolagem e reduzir os motores, até a parada completa. O avião percorre mais ou menos 1,2 km até parar. Durante a desaceleração, o atrito gerado nos freios faz a temperatura subir para mais ou menos 3 mil graus Celsius.

A aprovação só acontece se o conjunto do trem de pouso não pegar fogo nos 5 minutos após a parada. Cada roda possui pinos fusíveis que derretem a mais ou menos 450 graus Celsius. Todo calor gerado faz o miolo do pino derreter, esvaziando e inutilizando os pneus. Ou seja, todas as rodas vão para o lixo e o custo disso é de US$ 750 mil dólares, apenas em um único teste de freios! E sem contar os custos para montagem do ambiente (pista) de teste.

O tempo e a cobertura de um teste estão diretamente ligados ao investimento que a empresa pode fazer. Porém, o que vai definir essas questões é aquilo que está em jogo. Nos exemplos acima (testes de remédios e de aeronaves), estamos falando da vida de pessoas. Testes de automóveis, airbags ou pneus também envolvem pontos bem críticos.

Essas analogias ajudam a compreender a duração e a abrangência ideais que os testes de software devem ter. Como já dito, a quantia que a empresa tem para investir é o que vai determinar o tempo que ela passará testando um software. Pouca capacidade de investimento significa pouco tempo dedicado aos testes e abrangência limitada...O que fazer então?

Bem, no mundo real as empresas já estão acostumadas a lidar coma escassez de recursos, porém, para fazer melhor proveito deles, é preciso definir prioridades. Ou seja, é preciso determinar o que se quer e então fazer um planejamento, elencando pontos que são mais críticos. O que é primordial? O “time to market”, para que a empresa coloque um sistema no ar antes da concorrência, mesmo correndo o risco de que ocorram algumas falhas? Ou será melhor investir mais e testar por um período e cobertura maiores, considerando-se que possíveis erros poderão trazer danos financeiros e à imagem da empresa? No caso da companhia trabalhar com certa margem de falhas, é preciso então definir riscos e saber como administrar os erros.

Todos esses pontos precisam estar muito claros no plano de ação dos testes de software para que a empresa não seja surpreendida por problemas que não esperava. Por motivos óbvios, um sistema embarcado de uma aeronave (um software de controle, por exemplo) certamente precisa de mais rigor nos testes do que um site de vendas de ingressos para eventos esportivos. Porém isso não quer dizer que no primeiro caso os testes são mais eficientes, até porque se o site que vende ingressos online tiver um bom planejamento para gerenciar falhas, seus objetivos de negócio não serão necessariamente comprometidos negativamente.

Em resumo, a resposta mais adequada para o título desse artigo é: depende do que está em jogo, do que se quer e de quanto se tem para investir, desde que haja por trás disso um bom planejamento.

* Roberto Murillo é sócio-diretor da RSI Informática.



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