Triunfo do engenho sobre a circunstância

Uma das características marcantes da economia brasileira é a de que, nela, é avassaladora a predominância de pequenas empresas. Muitos desses empreendimentos são precários e fugazes. Muitos atuam na fronteira entre as economias formal e informal, de um ou de outro lado dessa fronteira, e às vezes, dos dois lados, ao mesmo tempo. Nesse mundo, opera a grande maioria não somente de nossos trabalhadores, mas também de nossos empreendedores. Vivem sedentos de acesso aos instrumentos da produção: crédito, tecnologia e conhecimento.

A vitalidade dessa multidão de pequenas empresas é quase milagrosa: triunfo do engenho sobre a circunstância. É por causa dessa vitalidade que, em estudo recente, o Banco Mundial citou o Brasil como o país de cultura empreendedora mais vibrante do mundo, à frente dos Estados Unidos.

Se conseguíssemos equipar melhor esses empreendedores, sem dúvida nenhuma, criaríamos no Brasil um dínamo de crescimento econômico socialmente includente. Motivados por essa convicção, e com o apoio entusiasmado do presidente Lula, estamos discutindo e articulando no governo uma iniciativa destinada a ampliar o acesso das empresas, em geral, e especialmente das pequenas empresas, às tecnologias úteis e às práticas inovadoras.

Política industrial de inclusão deve abranger três elementos. O primeiro é aconselhamento gerencial, formação de práticas e de quadros. Costuma ser, no mundo, a área mais difícil para avançar. Porém, esta é a parte em que o Brasil mais avançou, por causa do extraordinário papel do Sebrae. O segundo elemento é crédito. Há trabalho em curso, junto aos bancos públicos, para ampliar decisivamente a disponibilidade de crédito aos pequenos empresários. O terceiro elemento é o acesso à tecnologia, o foco deste artigo. O agronegócio brasileiro é o mais competitivo do mundo, em grande parte graças à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa.

No entanto, não existe na área industrial organização como a Embrapa, nem para adaptar e desenvolver tecnologias, nem para transferi-las a quem possa aproveitá-las. Mas a "Embrapa industrial", tão necessária, não precisa ser criada do zero, como foi a agrícola. Nem precisa ser empresa unitária: pode e deve ser formada por redes de entidades já existentes, devidamente apoiadas e articuladas.

É, exatamente, o que, com a participação de muitos setores do governo e de fora dele, começamos a construir. O Sibratec - Sistema Brasileiro de Tecnologia - será uma rede de inovação, de serviços tecnológicos, de adaptação e de transferência de tecnologias. Reunirá institutos tecnológicos, universidades e outras entidades de pesquisa, federais, estaduais e privadas já existentes.

É preciso ajudar um sem-número de pequenas empresas emergentes a passar do pré-Fordismo para o pós-Fordismo.

As entidades do Sibratec receberão apoio material e serão articuladas para atuar com foco, compromissos e metas. Atuarão em redes, algumas nacionais, outras locais ou regionais, e trabalharão para todos os produtores, sobretudo para quem mais precisa - os pequenos empresários. Tentarão ajudar a transformar o que se supõe ser retaguarda econômica em vanguarda produtiva.

Uma das preocupações do Sibratec será fazer com que empresas maiores ajudem a qualificar a produção de empresas menores. E uma das maneiras mais importantes de conseguir esse objetivo será incentivar a construção de cadeias em que empreendimentos mais avançados produzam, com tecnologia de ponta, máquinas e insumos que possam ser usados por empreendimentos menos avançados. Como método e inspiração, a difusão das práticas de inovação e de experimentalismo acompanhará o desenvolvimento das cadeias de tecnologia e de produção. Não se pode subestimar o alcance dessa iniciativa.

O coração de nosso sistema industrial, tal como construído no Sudeste em meados do século 20, é o que especialistas descrevem como "Fordismo" (por conta da produção em massa de automóveis em linhas de montagem, concebida por Henry Ford, no início do século passado): a produção em grande escala de bens padronizados, por maquinaria e processos produtivos rígidos e por mão-de-obra semi-qualificada.

Entre nós, esse sistema alcança padrões de excelência fabril, mas mantém-se competitivo à base de restrição da remuneração do trabalho. Nas economias líderes, esse tipo de produção vem sendo desmontado e substituído por outro, mais flexível e qualificado, menos hierárquico e rigidamente especializado, e, sobretudo, dedicado à inovação permanente e à aprendizagem coletiva. O nosso é um Fordismo já tardio. Ultrapassá-lo é hoje um dos imperativos do desenvolvimento brasileiro.

Esse imperativo se traduz em duas tarefas distintas. A primeira delas - mais conhecida - é estimular as grandes empresas brasileiras a acelerar a travessia, que algumas já iniciariam, do Fordismo para processos produtivos mais avançados.

A segunda tarefa - menos conhecida e mais difícil - é ajudar um sem-número de pequenas empresas e de empreendimentos emergentes a passar do pré-Fordismo para o pós-Fordismo, sem ter de passar pela etapa intermediária do Fordismo. Não precisam tornar-se pequenas grandes indústrias do passado para depois poder virar outra coisa.

Essa tarefa - permitir que muitas pequenas empresas pulem a etapa do Fordismo, tendo a inovação como estratégia central - é o horizonte da iniciativa que idealizamos. Para isso, é preciso que o setor empresarial se engaje decididamente, como fez na década 90, abraçando a causa da produtividade. E é necessário que a nação reconheça, nessa segunda tarefa, instrumento indispensável para construir um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação de oportunidades e comprometido com a soberania nacional.

Miguel Jorge é ministro do Desenvolvimento.
Sergio Machado Rezende é ministro da Ciência e Tecnologia.
Roberto Mangabeira Unger é ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos.


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