Uma agenda de pesquisa em administração?

Há evidências de inquietações na nossa comunidade acadêmica associadas à qualidade e, talvez mais importante, às conseqüências ou repercussões no mundo das organizações da produção de nossos pesquisadores. A questão metodológica e a pouca relevância dada ao contexto brasileiro já estiveram no cerne da discussão, como bem ressaltaram recentemente nesta coluna os Professores Bertero e Roesch.

Entendo que os quantitativos de artigos produzidos nos últimos anos (como, por exemplo, os mais de 3.000 submetidos para o próximo EnANPAD), são impressionantes e revelam a pujança da área. Mas a questão que não quer calar, por não ter ainda uma resposta satisfatória, é “Será que se tem acumulado e difundido conhecimentos organizacionais de boa qualidade e proporcionais aos esforços despendidos por nossos pesquisadores?”. A resposta é seguramente, não.

As causas são de ordem diversa e incluem: (i) o relativo desprestígio da área junto aos órgãos de fomento, o que acarretaria sérias restrições de verba para conduzir as pesquisas mais prolongadas; (ii) a falta de continuidade nas temáticas de pesquisa (óbvio que há exceções), resultante talvez de uma certa falta de perseverança do docente e de seu desvio de interesse para analisar o modismo (se você não tem conhecimento do que foi publicado nas revistas do mundo executivo poderá ser taxado de teórico); (iii) a eterna falta de tempo para maturar cada trabalho acadêmico, que é decorrente da necessidade de se complementar a renda mensal e da condução das atividades de ensino (a taxa de submissão de trabalhos no último momento para os encontros da ANPAD é alucinante); além (iv) da reconhecida individualidade dos pesquisadores que, em sua maioria, só são capazes de trabalhar em grupos reais se os demais integrantes forem subordinados. Tudo isso, mas não apenas isso, de certa forma influencia a resposta da pergunta acima.

Todavia, penso que a questão principal (e anterior) é, de uma maneira geral, não sabermos, com o mínimo de precisão, o que deveríamos pesquisar nem termos um certo balizamento de nossas prioridades. Antes que o leitor mais precipitado mencione que se deseja engessar o pensamento, esclareço que não é de forma alguma esta a intenção, mas estou seguro da necessidade de se ter um mínimo de ordem e definição de prioridade em face da séria restrição de recursos financeiros para que haja avanço científico efetivo. Antecipo também que sempre seria preservado espaço para a inovação “realmente nova”, sem esquecer que a área caracteriza-se por ser de ciência social aplicada.

Não se esquecendo de que temos um dos maiores contingentes de mestrandos e doutorandos no Brasil disponíveis para pesquisa, estou cada vez mais convencido de que trabalhamos muito, mas acumulamos pouco conhecimento. Ou seja, carregamos mais do que tocamos pianos. Um exemplo: a maior parte dos livros didáticos de boa qualidade continua sendo traduções de originais elaborados para outro contexto sócio-cultural-econômico que não o brasileiro. E, mais sério, talvez não estejamos fazendo bom uso, quando se considera no longo prazo, dos parcos recursos financeiros, mas abundantes recursos humanos, que estão ou são feitos disponíveis.

Já há algum tempo tenho levantado a questão da necessidade de construção de uma agenda para a pesquisa em administração (para ser justo, na área de Estratégia das Organizações). Confesso que têm sido conversas isoladas ou em pequenos grupos, em especial nos encontros da ANPAD, oportunidade em que se reúnem novos e experientes pesquisadores entusiasmados e comprometidos com a ciência administrativa.

Desejando instigar a discussão gostaria de formular e ao mesmo tempo tentar responder as seguintes perguntas: O que deveria conter a mencionada agenda? Quais seriam suas principais vantagens? O que, afinal, nós ganharíamos com ela? Sem pretender esgotar a reflexão, acredito que poderíamos ter um senso de direção sob forma de documento (talvez aprovado pela assembléia dos associados da ANPAD) para negociarmos fontes de financiamento com as tradicionais agências de fomento e, quem sabe, com as próprias organizações públicas e privadas e associações representativas. A conseqüência imediata seria a redução em muito do balcão de pedidos atual que caracteriza a área. Uma outra vantagem decorreria da possibilidade de aglutinar esforços acadêmicos para o fortalecimento de grupos de pesquisas interprogramas, ajudando-os a se tornarem de excelência tomando como base o conhecimento existente e desenvolvendo novos com possibilidades mais concretas de inserção internacional. E, por fim e mais importante, teríamos condições objetivas para acumularmos conhecimentos sistematizados que desvendassem as nossas práticas e possibilitassem a criação de teorias brasileiras.

Um ponto final, a questão deve e precisa ser aprofundada e refletida, suas respostas não serão uma panacéia, mas seu processo de construção, necessariamente coletivo, poderá auxiliar em muito, no longo prazo, a consolidação da parte ciência dessa área de conhecimento.

Walter Fernando Araújo de Moraes
Universidade Federal de Pernambuco/UFPE
Programa de Pós-Graduação em Administração/PROPAD





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