Nem tudo é notícia ruim na Bolsa. Das 67 ações que compõem o Índice Bovespa, 12 conseguiram se manter em alta no ano até o fechamento de segunda (15), dia em que a Bolsa teve o pior resultado desde o atentado terrorista às torres gêmeas em setembro de 2001. A lista das empresas sobreviventes é eclética: de bancos a empresas elétricas, passando pelos setores de alimentos, comércio varejista e gás.
Um ponto em comum? São empresas boas pagadoras de dividendos, na maior parte. "Em momentos de forte turbulência, o investidor procura se proteger comprando papéis que pagam dividendos, como forma de minimizar as perdas", explica a economista Ana Paula Martins, da Corretora Souza Barros.
No levantamento realizado pela Consultoria Economatica, a lista das empresas que conseguiram se manter em pé diante do furacão é liderada pela Nossa Caixa, que conseguiu a proeza de apresentar uma alta de 62,5% no ano. Bem distante da segunda colocada no ranking, a Transmissão Paulista, que ainda assim obtém um excelente desempenho com alta de 19%, ante 23,48% de desvalorização do Ibovespa.
O desempenho excepcional da Nossa Caixa é explicado pela proposta de compra feita pelo Banco do Brasil, o que alavancou a procura pelas ações. Bradesco e Itaú também mostraram interesse pelo banco estadual, o que fez aumentar ainda mais o apetite dos investidores.
Já a Transmissão Paulista se encaixa no perfil de boa pagadora de dividendos. Para Wagner Salaverry, diretor da Geração Futuro, as empresas de energia elétrica e telecomunicações também representam negócios menos arriscados por estarem em um mercado regulado, o que faz com que percam menos valor.
Rosângela Ribeiro, analista do setor na corretora SLW, explica que, ao ser privatizada, a empresa pôde participar de novas licitações que resultaram em uma melhoria da geração de caixa - e mais distribuição de dividendos.
Explicações
Brasil Telecom - As ações da empresa subiram 16,6%, impulsionadas pelo processo de aquisição da empresa pela Oi Participações, antiga Telemar.
Eletrobrás - A empresa tem boa parte da geração de energia do país e vem apresentando sinais positivos, explica Rosângela Ribeiro, da SLW. A preocupação demonstrada pelo governo com a aceleração dos projetos a fim de manter a capacidade de geração de energia no futuro vem beneficiando as ações da empresa. A analista ressalta ainda que a ação estava com o papel bem defasado, o que pode motivar o apetite pela compra. Outro aspecto que beneficia a empresa é a alta do IGP-M, pois as empresas geradoras têm seus contratos reajustados pelo indicador.
Natura - Para os analistas, a alta das ações da empresa devem-se a uma recuperação da forte queda, de mais de 40%, do papel no ano passado. Para Ana Paula Martins, da Souza Barros, a nova linha de produtos da empresa tem mostrado resultados melhores. Mas, para Kelly Trentin, da SLW, o cenário continua turbulento para a companhia, que está sofrendo para manter sua participação de mercado no Brasil, com a entrada mais forte de grandes competidores internacionais, como a Nívea e a Avon. "As operações internacionais da Natura também continuam a contribuir negativamente para o resultado, pois estão em fase de investimentos e divulgação da marca", diz Kelly.
Comgas - Outra boa pagadora de dividendos. A empresa vem apresentando bons resultados e se mostra pouco exposta às principais variáveis (preço de commodities), que afetam as maiores e mais líquidas empresas da Bovespa. Impasses internos no fornecimento de gás com a vizinha Bolívia podem prejudicar seu desempenho em Bolsa, mas os planos de contingência do governo brasileiro têm minimizado o impacto negativo.
Telemar Norte Leste - as ações da emprea também foram influenciadas pela operação de compra da Brasil Telecom pela Oi e pelo pagamento de dividendos extraordinários.
Sadia - A empresa enfrentou bem o período inicial do ano em que o cenário não estava muito favorável para o seu setor, mostrando resultados satisfatórios. O preço do milho e da soja (seus principais insumos) estavam em um patamar bastante elevado no início do ano, o que dificultou melhores desempenhos operacionais. A companhia vem focando bastante no segmento de industrializados, que possuem margens melhores, a fim de se "blindar" contra os embargos às suas carnes e de compensar de certa forma o aumento nos seus custos. Fatos mais recentes como a queda no preço das commodities e o aumento do dólar devem beneficiar ainda mais a Sadia, que é forte exportadora.
Cemig - A Companhia Energética de Minas Gerais passou por altos e baixos no ano. Sofreu com a redução na tarifa de energia elétrica, mas, segundo Clodoir Vieira, da Souza Barros, teve sua recompensa na forma de aumento do consumo. Além disso, explica Kelly Trentin, da corretora SLW, o Conselho da empresa decidiu não distribuir o dividendo adicional previsto este ano como forma de aumentar o nível de investimentos. "Em nossa opinião, essa pode ser uma estratégia saudável para a empresa, já que pode resultar em dividendos ainda maiores no futuro", diz Kelly
Telesp - a empresa conseguiu manter a atratividade do papel por conta de sua política de distribuição de dividendos, com relação dividendos por ação sobre preço de cerca de 14% ao ano. A empresa tem aparecido como recomendação de compra por conta do aumento de 12% no lucro líquido do primeiro trimestre de 2008, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Pão de Açúcar - A segunda maior rede de supermercados do país conseguiu manter o valor de suas ações em decorrência de uma série de fatores, na análise da corretora SLW. A primeira delas é a entrada do novo presidente no final do ano passado, que deu início a um processo de reestruturação administrativa, com demissão de 20 diretores e delegação de mais funções aos diretores remanescentes. Segundo Kelly Trentin, a medida tomada faz parte da de uma estratégia de redução de custos e de burocracia para melhorar a rentabilidade da empresa. "Pudemos notar que a melhora vem ocorrendo, através dos bons resultados obtidos nos primeiros trimestres do ano", diz. Outro aspecto positivo é a situação mais favorável do mercado à venda de alimentos, que, esse ano, possibilitou o crescimento mais forte da receita da companhia.
Celesc - Como o Pão de Açúcar, a empresa responsável por toda distribuição de energia em Santa Catarina conseguiu manter uma leve alta no ano até o dia 15. Na análise de Kelly Trentin, da Corretora SLW, esse resultado se deve ao desempenho satisfatório da empresa, reflexo de seu baixo nível de endividamento.