Hoje em dia, dizer que “fulano é político” é quase um xingamento em empresas que atuam no Brasil. É um adjetivo pejorativo usado erroneamente pela maioria que confunde política com “puxa-saquismo”, por assim dizer. É muito importante entender exatamente o que é a política, por si só para, então, definí-la corretamente no “Mundo Corporativo”. Segundo o dicionário, política é:1. Ciência do governo das nações.2. Arte de regular as relações de um Estado com os outros Estados.3. Sistema particular de um governo.4. Tratado de política.5. [Figurado] [Figurado] Modo de haver-se, em assuntos particulares, a fim de obter o que se deseja.6. Esperteza, finura, maquiavelismo.7. Cerimónia.Cerimônia, cortesia, civilidade, urbanidade. Não sou professor de português mas, na minha opinião, os significados mais importantes são: a “arte de regular as relações de um Estado com os outros Estados” e, também, o sentido figurado de “modo de haver-se, em assuntos particulares, a fim de obter o que se deseja”. Caso nos coloquemos no lugar de Estados, assim como a nossos companheiros de trabalho (alguns os chamam de colegas de trabalho), conseguiremos entender que a política é a “arte de regular as relações de um Estado (Nós) com os outros Estados (colegas de trabalho)”. Trocando os Estados por pessoas (ou por departamentos), e nos incluindo nestas pessoas (e departamentos), podemos dizer que a política é a arte fundamental da civilização. No tempo das cavernas, por exemplo, antes do desenvolvimento da linguagem, quando um homem-da-caverna não gostava da atitude de outro, eles resolviam o assunto na base do tacape. O desenvolvimento da linguagem, aliada à política, foi a responsável por substituirmos as pancadas de tacape por diálogos. Adicionalmente, todos nós, sem exceção, queremos “obter o que desejamos”, sempre. Em todas as relações – sejam estas pessoais ou profissionais, queremos obter o que desejamos. E há alguns meios de conseguirmos isso: – à moda antiga, ou seja, na base da força (ou pancada) – sejam pancadas de tacape, sejam pancadas verbais, sejam pancadas ditatoriais, sejam pancadas por patente (pelo exercício do cargo que ocupamos), ou outros tipos de pancadas; – utilizando-se da política, ou seja, na base do diálogo. Hoje em dia, o método mais aceito nas empresas que atuam no Brasil é na base da política – embora, em alguns casos, a força precise ser utilizada em determinados momentos específicos. O uso da política envolve a arte da negociação – existem alguns tipos básicos de negociação: – ganha x perde – onde você ganha e a outra parte perde; – perde x ganha – onde você perde e a outra parte ganha; – ganha x ganha – onde ambas as partes ganham; – perde x perde – onde ambas as partes perdem – geralmente, nesta, não há muita negociação – apenas há um consenso para reduzir as perdas de ambas as partes (o que não deixa de ser uma negociação). Pode parecer estranho que haja, ainda hoje, tipos de negociação onde uma parte saia perdendo. Sim, ocorre. Mas, geralmente, este é um cenário temporário, ou seja, podemos planejar algum objetivo que queremos alcançar (“todos nós queremos obter o que desejamos”) e, em um primeiro momento podemos aceitar perder para ganhar no futuro. Exemplos mais comuns deste comportamento são os lançamentos de carros no exterior – o preço de entrada no mercado geralmente é mais baixo, ou seja, a montadora aceita “perder” no início, para conquistar mercado e consumidores para, então, ganhar no longo prazo. Assim, na operação como um todo, foi uma negociação “ganha x ganha”, onde os consumidores ganharam no início com o preço, continuam ganhando com a qualidade, e a montadora realiza seus ganhos após um certo período. No mundo corporativo as coisas acontecem de forma semelhante. Às vezes, é necessário que façamos alguma renúncia sobre um determinado assunto, ou para algum colega de trabalho, para que consigamos o que desejamos no futuro. E, para isso, utilizamos a política e a negociação. Portanto, não se desespere se você, ou seu departamento, estiver “perdendo” hoje, pode ser um planejamento de longo prazo para “ganhar” lá na frente. É sempre importante que, quando percebermos este cenário, conversemos com os gestores da empresa para tentarmos entender o plano de longo prazo. Como para todas as regras existem exceções, a política na empresa (assim como em todo o mundo e em toda a história da humanidade) também tem as suas exceções. A política funciona muito bem quando as negociações são do tipo “ganha x ganha” – mesmo que o cenário atual uma das partes perca em algum momento, na negociação como um todo (mesmo quando de muito longo prazo) as duas partes precisam ganhar. Mas a política perde sua eficiência quando uma das partes perde e não tem perspectivas de ganhos (no curto ou no longo prazos). Por exemplo: quando o Iraque invadiu o Kwait, a parte do Kwait só perderia – no curto e no longo prazos, pois perderam sua soberania nacional. Apesar dos alertas estrangeiros (ainda tentando resolver a questão politicamente), como o Iraque estava “ganhando” naquele momento e pretendia “ganhar” mais, o fim da história todos nós conhecemos: a política ficou de lado, e tivemos a Primeira Guerra do Golfo. Há tempos o Irã tem perdido parceiros comerciais importantes com todos os boicotes das Nações Unidas. Porém, o Irã ainda está “ganhando”, pois consegue escoar sua produção de petróleo e “alimentar” seu povo por ter parceiros comerciais importantes na Ásia. Caso o Japão e a China parem de comprar petróleo do Irã, este passará a somente perder (agora e no futuro) e, infelizmente, temo que a política não seja suficiente para evitar mais uma guerra. Quando uma parte perde, sempre e para sempre, a política fica abalada, os diálogos ficam mais difíceis e, assim como ocorre com países, geralmente acaba em “guerra”. Nas empresas acontece a mesma coisa – quando um profissional, ou um departamento, perde sempre e não há expectativas de ganhos futuros, temos alguns possíveis cenários: – o profissional simplesmente abandona o seu cargo e vai para outra empresa (em alguns casos extremos alguns profissionais saem de uma empresa sem ter nenhum outro emprego em vista, este é um fator que deveria preocupar as empresas pois este funcionário realmente não aguentava mais perder sempre); – o profissional provoca uma reunião com seus gestores – praticamente uma reunião do Conselho de Segurança da ONU – para decidir se haverá uma interferência suprema ou se este profissional seguirá o passo anterior; – quando envolve um (ou mais) departamentos o assunto é bem mais delicado – geralmente o departamento provoca uma reunião com seus gestores e exigem uma alteração no modelo atual de negociação, demonstrando fatos que demonstram suas perdas constantes como uma das partes envolvidas na negociação. E enquanto ações não são tomadas por parte dos gestores ou estas ações são demoradas, os profissionais do departamento que costuma perder (os soldados), costumam usar táticas de “guerrilha” para rebater algumas perdas e, por vezes, emperram processos nos quais o outro departamento esteja envolvido. O pensamento é bem simplista (embora errado): “se eu só perco, vou fazê-lo perder também, assim ficamos quites” (é praticamente uma reciprocidade diplomática, que explico mais abaixo). É incrível ver como os assuntos tornam-se quase pessoais. É melhor não agendarem o famoso jogo de futebol entre departamentos, pois poderemos ter pernas quebradas. Esta é a “guerra” que acontece nas empresas. Se uma das partes está perdendo e não tem perspectivas de “ganhos” futuros, as relações ficam abaladas e os pavios se acendem. Os departamentos e os profissionais viram bombas-relógio, prontos para explodir a qualquer momento em que mais uma perda seja notada. Processos começam a ser intencionalmente complicados, exigências feitas, etc. Lembrem da política de vistos entre Brasil e Estados Unidos. Quanto mais um complica, mais o outro complica – é a chamada reciprocidade diplomática. Quando os brasileiros iam trabalhar ilegalmente nos Estados Unidos, ou seja, quando os Estados Unidos só perdiam por ter desemprego de seu próprio povo, dificultavam os processos para a obtenção de vistos para evitar a ida de brasileiros. O Brasil fazia o mesmo, alegando reciprocidade diplomática. Quando os brasileiros se tornaram os principais turistas e principais compradores estrangeiros na terra do Tio Sam, os Estados Unidos começaram a “ganhar” e a desburocratizar os processos para se obter vistos – já até se discute a eliminação total da necessidade de vistos para brasileiros nos Estados Unidos. É de suma importância que os gestores das empresas compreendam os tipos de negociação, assim como os prazos das mesmas, indicando àqueles profissionais que enxerguem estas negociações os prazos e objetivos para manter certos relacionamentos. Por exemplo: sabemos que o capitalismo sempre foi “inimigo” do comunismo (até a China mesclar os dois) – e que esta inimizade iniciou até a Guerra do Vietnã, com o objetivo de não deixar o Vietnã do Sul tornar-se comunista, mas o capitalismo acabou perdendo. Pergunta: por que será que o capitalismo não tentou transformar a China comunista? Simples: uma visão de médio e longo prazo apontava que (i) seria quase impossível mudar um país com as dimensões e com a população da China e (ii) com uma população já enorme e ainda crescente à época, a China seria, invariavalmente, um grande parceiro econômico. O que quero dizer com o exemplo da China é: precisamos ter uma visão de longo prazo para enxergar que no futuro podemos ganhar com o que estamos perdendo hoje. Talvez seja melhor para a nossa nação (nossa empresa) que aceitemos algumas perdas de curto prazo para vencermos no longo prazo. Se seu departamento (ou seus profissionais) só perde no curto prazo e não tem perspectivas de ganhar no longo prazo, você não precisará de políticos, mas sim de diplomatas e comandantes. Os primeiros para evitar o pior (a “guerra”) e os demais para saber como lidar com ela, caso venha a ocorrer. Ah, e o “puxa-saquismo” nada tem a ver com política – ou seria a política do “meu chefe sempre ganha, independente de qualquer outra variável”. Este tipo de comportamento serve somente para aqueles inseguros, incompetentes ou que não conseguem pensar por si só – mas, geralmente, serve para os profissionais que acumulam estas três “qualidades”.