Herança não vem com manual de instruções

Um dos programas que recentemente fez muito sucesso na televisão americana foi um reality-show mostrando herdeiros despreparados para lidar com a vida, dinheiro e poder. Mais grave ainda, totalmente alienados do mundo real.

No Brasil ainda não chegamos a tanto, embora as colunas sociais e publicações que exploram o mundo das vaidades, dos verdadeiramente ricos, ou semi-ricos, terminem ocupando este espaço. Quando falamos de alguém que herda algo – patrimônio, empresa, prestígio ou poder - devemos analisá-la, pelo menos, em quatro perspectivas:

A figura humana que gerou este patrimônio e seu vínculo com os herdeiros. As questões materiais decorrentes das conquistas da geração anterior. O “legado” que acompanha todo este conjunto de prestígio e bens materiais. E, por último, mas não menos importante, o vínculo societário que a herança estabelece entre herdeiros.

Sabemos que do ponto de vista legal a herança é um direito, não exige preparo, competência ou qualquer conhecimento. Entretanto, para a administração de bens e do legado que os acompanha, são requeridas competências e capacidades, que devem ser desenvolvidas pelo próprio herdeiro. Estas habilidades não são herdadas, precisam ser aprendidas. Analisemos estas variáveis começando pelo fato, aparentemente simples, de ser filho de pais que alcançaram sucesso ou se tornaram figuras brilhantes, com destaque na sua área de atuação ou empreendimento.

A maioria das pessoas que conquista uma posição de destaque em nossa sociedade – seja empresário, artista, político, esportista ou líder em algum setor – o faz através de características e habilidades pessoais muito fortes e diferenciadas. De forma geral são pessoas que romperam com uma origem adversa e conseguiram esta posição e reconhecimento por méritos próprios.

O que interessa em nossa análise é que ser filho de “pais brilhantes” é, por si só, um peso e uma responsabilidade muito grande. Coloca o herdeiro num patamar de altíssima expectativa como ponto de partida. Mais ainda se levarmos em conta que em muitos casos estas figuras de destaque público tornam-se – em boa parte dos exemplos –como figuras privadas de pai ou marido, ausentes, distantes e com pouco envolvimento afetivo na educação e amadurecimento dos filhos. Ou seja, o “personagem” que o público conhece não guarda muita coerência com a figura íntima que a família convive. Esta situação chega a dificultar aos herdeiros encontrar e desenvolver seus próprios sonhos e projetos. Apropriar-se da sua biografia. Ela possui bônus e ônus.

A segunda variável para a qual muitos herdeiros estão despreparados é como administrar, com sucesso, o patrimônio que receberam, sem nenhum esforço ou mérito. Na maioria das vezes os que construíram este patrimônio – propriedades, empresas, participações, etc. – não educaram seus descendentes para administrá-los. Tiveram um comportamento tipicamente patriarcal de “poupar os filhos dos sacrifícios da vida“, ou ainda, procuraram “evitar que eles passassem pelo que eu passei”.

Administrar recursos materiais requer preparo e capacidade que devem ser adquiridas. E este é um processo educativo que necessita começar muito cedo. Inclusive com a forte participação da figura materna. O velho ditado que “dinheiro não agüenta desaforo”, a cada dia torna-se mais válido.

Segundo pesquisas mundiais sobre o tema, “os ativos tangíveis têm mais chances de sobreviver ao longo dos anos quando os pais dedicam tempo e esforço à tarefa de transmitir aos herdeiros não só o patrimônio, mas também as próprias competências.”
Um terceiro ponto que torna a herança um processo delicado e complexo é que ela não pode estar dissociada de um legado ético que acompanha o patrimônio.

Princípios e valores devem fazer parte de um processo de transferência patrimonial.
Pontos como Confiança, Autoconfiança, Honestidade, Transparência, Generosidade, Austeridade, Humildade e Respeito Mútuo, podem fazer parte deste conjunto de valores.

Por último, mas não menos importante, é que todo herdeiro com irmãos, primos ou filhos de outros sócios, deverá herdar algo que é bastante complexo e pouco trabalhado. Uma sociedade com pessoas que não escolheu.

E uma parte importante do sucesso futuro no gerenciamento do patrimônio vai depender da forma como esta sociedade se estruture e funcione.

Estas reflexões decorrem de práticas colhidas em mais de 33 anos de convivência e aprendizado com empresas familiares. Sua aparente simplicidade não reduz o grau de complexidade para implementa-las. É assunto delicado que deve ser tratado preferencialmente com os fundadores em vida.

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