Durante muitos anos a área de vendas das empresas foi considerada uma das mais indisciplinadas e menos estudadas. O foco estava na produção e vender era apenas uma maneira de escoá-la para produzir ainda mais. Grande parte dos estudiosos da administração – dita moderna – tinha seu foco em melhorias no processo produtivo. Hoje é possível observar um enfoque mais amplo, onde se discute mais a cadeia de valor à cadeia produtiva. Essas mudanças são decorrentes de transformações socioeconômicas e culturais. As novas tecnologias têm proporcionado mudanças em rotinas, comportamentos, relações e hábitos e, é claro, que tudo isso modifica também a maneira de comprar e consumir produtos e serviços. Nada mais natural que a maneira de vender acompanhe essas tendências e também precise se reinventar. As características valorizadas em profissionais de vendas estão, neste exato momento, sendo discutidas, pois este perfil agora é definido com base no modelo de vendas e perfil de clientes. Foto: Shutterstock As áreas de recursos humanos das empresas estão em fase de adaptação e, por vezes, ainda se deparam com um alto turn over nas equipes comerciais advindas de processos de seleção mal realizados. A máxima de contratar pelo currículo e demitir (ou receber pedidos de demissão) pelo comportamento ainda é uma verdade no mundo corporativo. Para corrigir rotas e preparar equipes comerciais aderentes a esse novo mercado consumidor/comprador, investir em iniciativas de treinamento e desenvolvimento tem sido fundamental e é aqui que novos desafios surgem: afinal como treinar equipes de vendas? Provar Resultados Associar objetivos de aprendizagem aos objetivos de resultados (e mensurá-los) não é tão simples como defensores de Kirkpatrick pregam, ainda mais para uma área que nem sempre tem pleno conhecimento do negócio em si. Ao mesmo tempo em que as empresas têm investido, cada vez mais, em estruturas de treinamento de vendas, gestores comerciais e os próprios empreendedores ainda estão sendo convencidos do impacto que a capacitação tem sobre seus resultados. Um dos grandes desafios de quem trabalha com treinamento e desenvolvimento é provar os resultados que as soluções de aprendizado têm na organização. Não é à toa que o budget da área é um dos primeiros a ser cortado quando há necessidade de reduzir custos. É claro que isolar o impacto do aprendizado na estratégia empresarial não é algo simples, no entanto é possível comprovar resultados quando se delimita objetivos e atrela-se o treinamento a um indicador. No caso da área de vendas não é necessário utilizar apenas o indicador principal como faturamento ou volume. Pode-se utilizar outros indicadores de acordo com os objetivos do treinamento, como: ampliação do mix, frequência de compra, clientes movimentados, entre outros. Definição da Estratégia Instrucional A estratégia instrucional de desenvolvimento costuma perguntar: que conhecimentos e habilidades são necessários aos participantes do treinamento para atender às necessidades explicitadas pelo cliente? O ideal é que esse processo comece de trás pra frente. A primeira questão a ser respondida é: o que motivou a demanda? É preciso mergulhar no que motivou a necessidade do treinamento, entender pontos positivos do grupo e aspectos que precisam ser desenvolvidos. Faz-se necessário clarificar as dimensões pelas quais o treinamento deverá transitar; o que já foi feito; quais as limitações da organização e, principalmente, definir juntos ao(s) cliente(s) qual o objetivo daquela capacitação: quais mensagens chaves devem ser apreendidas pelo grupo e o que se espera em termos de mudança de comportamento. A estratégia instrucional deve demonstrar isso: como conhecimentos, habilidades e atitudes serão abordados em cada tópico? Uma maneira simples é dividir os “blocos” do treinamento através do CHA, deixando claro para o cliente qual o conteúdo (referência bibliográfica) que vai dar lastro ao assunto, como as habilidades serão desenvolvidas (como o grupo vai praticar o conteúdo) e como a atitude será despertada (qual mensagem-chave vai levar à reflexão que motivará a ação). É nesse momento que são definidas as dinâmicas, os exercícios, textos de apoio, trechos de vídeos e outros recursos que permitirão que o treinamento vá ao encontro das competências. Funcionalidade Equipes de vendas nem sempre precisam saber o que fazer. A depender da senioridade do time, inclusive, explicar o quê se torna repetitivo e enfadonho. É comum que elas desafiem os consultores em relação ao “como”, pois para isso é preciso conhecer em profundidade os desafios e limitações enfrentados pela equipe. O circuito de Kolb é uma excelente ferramenta para promover o aprendizado vivencial. Proponho que, para cada “bloco” do treinamento, o circuito seja completado, sempre (I) extraindo do grupo sua experiência em relação ao tema, (II) apresentando novas maneiras de superar antigos desafios através de conceitos/teorias escolhidos a dedo, (III) permitir ao grupo vivenciar a nova forma de fazer as coisas, (IV) promover a reflexão sobre os benefícios do novo método. Para isso, é fundamental conhecer o negócio e a equipe, pois nem sempre um trabalho lúdico tende a proporcionar ao grupo o aprendizado necessário para uma aplicação pratica imediata. O treinamento não deve restringir-se a transferir o “o quê” deve ser feito, mas principalmente colaborar para que o participante saiba “como” fazer, afinal a solução de aprendizado só passa a ter valor quando é aplicada. Linguagem Equipes comerciais valorizam uma linguagem simples e direta. Isso não significa que não se deve incluir no treinamento expressões novas que corroborem com os desafios da equipe. No entanto, é supervalorizado quando o consultor/instrutor/palestrante utiliza uma linguagem técnica comum aos participantes, quando sai do linguajar genérico. Em empresas de telecomunicação, por exemplo, falar em perda de clientes é falar de “churn”. É a mesma coisa, mas ao usar a expressão “churn” o consultor demonstra familiaridade com o segmento e, com isso, ganha mais respeito da turma. Somar essas questões à a energia, entusiasmo, conhecimento do assunto, do negócio e do dia a dia do grupo, atividades agradáveis, tom, ritmo e coerência é um grande passo para garantir a efetividade de um treinamento. Reforço que a palavra efetividade é a conjunção da eficiência (seguir um processo adequado) à eficácia (garantia do resultado). Equipes de vendas são pressionadas por resultados que podem ser aferidos quase que de forma imediata e, normalmente, têm impacto sobre sua remuneração. Se um participante enxerga o treinamento como perda de tempo, por não conseguir vislumbrar como os novos conhecimentos colaborarão com o alcance de metas, o treinamento tende a não cumprir com sua função.