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O mito dos 42 km

A partir desse momento, comecei a sentir o verdadeiro peso dos 42 km. A sombra do mito criado em minha mente a partir dos relatos que li começou a pairar sobre mim


Desde que comecei meu caso de amor com a corrida, não foi nada difícil uni-lo a outra grande paixão, que é a leitura. E, conforme esse amor foi crescendo, relatos de corredores amadores, atletas profissionais e livros sobre esse tema me foram apresentados como se fossem cupidos ansiosos por manter essa chama sempre acessa.

Entre os vários livros que li, alguns que mais me marcaram (e ensinaram) foram: O ultramaratonista, de Dean Karnazes, Rocco; Nascido para Correr, de Christopher McDougall, Globo; e Correr – o exercício, a cidade e a maratona, de Drauzio Varela, Companhia das Letras, isso para citar os mais conhecidos, pois a lista é extensa. E, mesmo lendo sob a ótica e a experiência de vários autores, com suas perspectivas e objetivos distintos, a essência das histórias é praticamente a mesma: o amor pela corrida.

Mas o que sempre me intrigou foram alguns relatos sobre a conclusão de maratonas (42 km). Muitos deles são extremamente desanimadores, para dizer o mínimo. Li relatos de corredores que correram com cãibras fortíssimas; corredores que chegaram se arrastando, totalmente desidratados; corredores que passaram mal durante e após a corrida, com febre e dores pelo corpo; muitos e muitos corredores que não conseguiram concluir a primeira maratona. Enfim, relatos que me fizeram avaliar seriamente a minha intenção de encarar o desafio dos 42 km. A única certeza que eu tinha era de que eu não poderia tentar correr essa distância sem estar preparado.

Protegido por essa fácil desculpa (a de não estar preparado), fui adiando esse sonho até o dia em que resolvi fazer a minha inscrição para a Maratona Internacional de Florianópolis, que seria realizada em 27/08/2017. Fiz a inscrição no dia 06/01/2017 e fiquei “dormindo” em cima dela, literalmente, pois ainda não estava convencido de que iria participar e se conseguiria fazer a preparação física e mental necessária para esse desafio. Na verdade, o próprio período de treinos (no meu caso, foram 14 semanas) já foi um enorme desafio, pois tive que aumentar o meu volume de treinos semanais, que era de aproximadamente 30 km, para quase 60 km na semana mais intensa, com “longão” de 34 km... Entre os treinos de corrida e fortalecimento, sobrava apenas um dia de folga por semana.

Vencido o desafio dos treinos, entrei na semana da prova com sentimento de dever cumprido e extremamente relaxado para aproveitar ao máximo a minha primeira maratona. A minha previsão de chegada, que inicialmente era de 4h30min, foi caindo conforme aumentava a confiança, chegando a 3h45min um dia antes da prova.

Mesmo com a confiança nas alturas, quem corre sabe que, no dia prova, muitas variáveis podem afetar o nosso rendimento, tais como: clima muito frio ou muito quente, mal-estar por alguma alimentação inadequada e, até mesmo, ansiedade pré-prova. No meu caso, o único contratempo aconteceu no hotel em que fiquei hospedado, que não ofereceu um café da manhã adequado no horário combinado, às 5h da manhã. Tive que procurar outro hotel nas proximidades, que estava preparado para o evento. Mas esse fato isolado não chegou a abalar a minha confiança em nenhum momento.

A largada foi mágica, assim como é a ilha de Floripa. O clima primaveril (apesar de ainda estarmos no inverno) estava tão perfeito para correr que me peguei correndo acima do pace médio programado por alguns quilômetros, tendo que me policiar constantemente para “frear” essa empolgação que poderia minar as minhas pretensões de chegada, coisa muito comum em corridas de longa distância. Esse é um erro extremante banal, mas que acontece com muita frequência entre corredores que participam de sua primeira maratona.

Após esse período de ajuste, consegui encaixar o ritmo programado até o km 36. A partir desse momento, comecei a sentir o verdadeiro peso dos 42 km. A sombra do mito criado em minha mente a partir dos relatos que li começou a pairar sobre mim, e, apesar de não ter duvidado em nenhum momento de que conseguiria completar a prova, já não estava mais tão seguro de que seria no tempo programado, ao ponto de não mais verificar o tempo total em meu relógio Garmin, monitorando apenas o pace médio, que começou a se distanciar assustadoramente da meta inicial.

Nessas horas é que se percebe nitidamente o quanto a nossa mente é importante nesse processo. Consciente de que tinha feito o dever de casa, comecei a “scanear” meu corpo em busca de algum sinal que pudesse comprometer o meu desempenho nos quilômetros finais. Após uma rápida verificação, constatei que essa velha carcaça ainda estava inteira e que não precisaria me preocupar. Feito isso, comecei a me concentrar ainda mais no movimento correto das pernas e dos braços, e na minha respiração.

A partir daí, cada quilômetro concluído foi uma vitória, celebrada com parcimônia, pois o quilômetro seguinte não me deixava esquecer a distância que ainda teria de percorrer. Somente no último trecho, quando tive a certeza de que conseguiria concluir a prova, é que me liberei completamente para o início da comemoração. Mesmo antes de visualizar a linha de chegada, comecei a sentir os bons fluidos da conquista me invadirem completamente. Meu corpo já estava em festa, minha mente, aberta para saborear cada segundo da minha chegada.

Nesse momento lembrei-me de verificar o tempo acumulado, e, faltando uns 100 metros, aproximadamente, vi o cronômetro marcando 3h45min. No mesmo instante, ainda sem acreditar na minha sorte, acordei do transe da vitória e, mesmo já forçando a passada desde a entrada no km 42, ainda consegui acelerar o passo para não deixar o cronômetro virar em 3h46min. Confesso que, nesse sprint final, eu já não era mais dono do meu corpo e as passadas firmes e seguras já não tocavam mais o solo, tendo a nítida sensação de estar flutuando. Ao cruzar a linha de chegada, um misto de sentimentos e euforia invadiu meu coração e uma sequência com vários momentos marcantes da minha preparação passou só para me lembrar de que todo esforço valeu a pena. E de que foram justamente os dias mais difíceis de treino (frio, chuva e “longão”) que me fortaleceram ainda mais para que eu conseguisse vencer esse desafio.

 

 

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