O truque psicológico que nos leva a justificar nossos próprios desvios

Em organizações humanitárias, abusos contra populações carentes são cometidos por voluntários de instituições beneficentes

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Este ano, vários escândalos no setor humanitário vieram à tona — da Oxfam a uma reconhecida personalidade de ajuda humanitária no Nepal. O que há em comum em todas essas histórias é que os voluntários acusados, que parecem empreender esforços abnegados para ajudar os mais necessitados, escondem uma realidade muito mais sombria sob esse verniz.

A mídia relatou esses casos como se tivessem sido perpetrados por predadores de coração gelado que trabalhavam para Organizações Não-Governamentais (ONGs) para se aproximarem ardilosamente da comunidade, ganhando confiança para, posteriormente, cometerem abusos contra as pessoas.

No entanto, pesquisas conduzidas por mim e por outros estudiosos ao longo de mais de uma década sugerem comportamentos predatórios bem menos conscientes e calculados. Muitos desses casos podem ser descritos como um fenômeno psicológico conhecido como "compensação moral" e "licença moral".

Isso quer dizer que as pessoas buscam se enxergar como indivíduos morais e, para manter essa auto-imagem, elas oscilam entre ações de padrões morais e imorais, de modo a sustentar um tipo de equilíbrio — e continuarem provando a si mesmas que elas são seres humanos bons.

Por exemplo, em alguns de meus estudos, eu e meus colaboradores descobrimos que, após doar certas quantias para instituições de caridade, as pessoas tendem a trapacear em testes. Ou, quando lembram de algum mal que cometeram contra alguém, tendem a ajudar outras pessoas.

Mas o contrário também se provou verdadeiro: quando elas são reconhecidas por algo benéfico que fizeram, as pessoas se sentem autorizadas a tomar uma atitude imoral e, ainda assim, manter suas respectivas auto-imagens incólumes.

Esse padrão inconsistente de comportamento dos indivíduos funciona de uma maneira que suas ações iniciais, movidas por estímulos morais, garantem um salvo-conduto para atos imorais posteriores ou "limpam" seus erros passados. Essa compensação corresponde em magnitude: fazer algo menos danoso resulta em uma pequena ação benéfica. Já comportamentos mais prejudiciais estimulam uma limpeza mais extrema — e vice-versa.

Descobrimos que esse fenômeno tem pouco a ver com a maneira como outras pessoas enxergam o ator; as pesquisas sugerem que mesmo que os demais não conheçam as ações morais ou imorais que deram início ao ciclo, as pessoas continuam compensando suas atitudes com comportamentos de magnitudes similares na direção oposta. É como se cada indivíduo estivesse simplesmente tentando manter seu próprio equilíbrio moral pessoal intacto.

Portanto, é possível que esses abusadores não se estabeleçam como luminares dentro das comunidades para, conscientemente, ter acesso às crianças e, mais tarde, explorá-las. Em vez disso, esse autosacrifício em nome da caridade é feito em resposta a ações depravadas em que eles estavam engajados anteriormente.

Em outras palavras, para justificarem seus próprios comportamentos, essas pessoas se inserem em ações beneficentes para provarem a si mesmas que "não são tão más" — na verdade, talvez sejam até seres humanos exemplares.

Também é possível que as loas e reconhecimento que recebem dos outros os autorize moralmente a agir de maneiras deploráveis. Ou ambos: ou seja, em uma espécie de ciclo vicioso no qual o comportamento moral licencia o imoral e vice-versa, mantendo ativo o ciclo de abusos e ajudas humanitárias.

Quais as implicações desses achados para o mundo não-lucrativo? Em primeiro lugar, sugere que, talvez, os louvores morais que fazemos aos voluntários possa levar a consequências insidiosas. Em outras palavras, a admiração demonstrada, que, em muitos casos, é merecida, possa contribuir para a sensação de "licença" para agir imoralmente ou contribuir com a sensação de limpeza, caso eles tenham participados de atos imorais anteriormente.

É uma espada de dois gumes no sentido de que as pessoas que dedicam suas vidas a ajudar os outros, em geral com poucas compensações materiais, deveriam receber tantos elogios, louvores e reconhecimento. Essa aprovação pode ser compreendida como uma licença para que voluntários cometam atos imorais.

Em segundo lugar, sugere que instituições de caridade precisam prestar maior atenção à saúde mental de seus trabalhadores. Algumas organizações humanitárias dedicam poucos recursos para garantir o bem-estar psicológico de seus próprios voluntários, uma vez que o orçamento é completamente direcionado à ajuda externa.

No entanto, situações de abusos cometidos por voluntários levantam a necessidade de um maior direcionamento de recursos para monitoramento e assistência de voluntários para prevenir situações trágicas.

A maior tragédia nesses casos acontece com as pessoas que são abusadas. Não existe dúvida quanto a isso. Mas um dano colateral é o efeito cascata que tais casos têm em toda a comunidade de assistência humanitária. Da mesma maneira que o mundo observou os escândalos de abusos na Igreja Católica, o mundo agora olha com desconfiança os voluntários — para questionar se eles são realmente motivados ou se escondem más intenções.

Em certo nível, esse ceticismo pode ser saudável. Mas em um mundo no qual a ajuda humanitária é mais necessária do que nunca, é de entristecer que casos como esses naturalmente moldem a opinião popular sobre os voluntários, que passam a serem vistos com menos confiança. E, ao contrário da Igreja Católica, que decidiu confrontar os abusos sistêmicos por conta própria, ainda esperamos que as organizações humanitárias que lidam com abusos sejam inteligentes e abram as portas para monitoramento e assistência externos.

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