Participação em lucros e resultados: empregados versus investidores

Agentes fiduciários das poupanças dos empregados controlam as grandes companhias abertas

A execução do trabalho é a atividade humana do trabalhador, é a atividade do ser humano e parte essencial da humanidade. Ela não tem lógica. Tem dinâmica e dimensões. A execução do trabalho atem ao menos cinco dimensões. Em todas elas, o trabalhador precisa realizar para ser produtivo.

 

Há um conflito ainda mais fundamental entre salário como meio de vida e salário como custo. Como meio de vida, o salário precisa ser previsível, contínuo e adequado em relação às despesas da família, às suas aspirações e à sua posição na sociedade e na comunidade. Como custo, o salário deve ser compatível com a produtividade de determinado emprego ou indústria. Precisa ser flexível e ajustar-se com facilidade mesmo às menores mudanças na oferta e demanda o mercado. Deve possibilitar a competitividade do produto ou serviço. O salário é determinado, em última instância, pelo consumidor, ou seja, sem considerar as necessidades ou as expectativas do trabalhador. Mais uma vez, trata-se de um conflito sem soluções fáceis, que, na melhor das hipóteses, só pode ser atenuado.

 

Nenhuma sociedade, quaisquer que sejam suas características, conseguiu eliminar esses conflitos. A expropriação do capital, fórmula marxista tradicional, não muda a situação. Ainda que distribuição de renda seja mais assunto de estado do que de empresas. Tudo o que consegue é possibilitar maior fundo de capital, uma vez que o Estado exerce controle absoluto. Mas mesmo isso a Rússia só conseguiu com a proibição do funcionamento dos sindicatos de fatores de produção de mercado em substituição por um sindicalismo de Estado. o Japão, tradicionalmente, tem logrado minimizar o conflito entre salário como memi de vida e salário como custo, mas o aumento do padrão de vida tem ameaçado a acomodação japonesa. O conflito entre fundo de salário e fundo de capital se manifesta tão intensamente no Japão quanto em qualquer outro lugar. Os moradores da região que corresponde à antiga Iugolávia ( atuais países de nomes Sérvia, Croácia, Montenegro, Bósnia e Kosovo ), as necessidades do fundo de capital devem ser mais claras para a comunidade dos trabalhadores, e não ao Estado, esperavam dirimir o conflito. Sob o sistema da antiga Iugoslávia, as necessidades do fundo de capital devem ser mais claras para a comunidade de fábricas que sob qualquer outro sistema conhecido até aquele momento ( antes da separação ), mas elas estão encontrando forte resistência. O experimento da antiga Iugoslávia corre o risco de colapso por causa das pressões inflacionárias geradas pelas demandas dos trabalhadores por mais salários que os factíveis para o empreendimento, sob o aspecto de salário como custo ou quando se consideram as necessidades do empreendimento ou da economia, em termos de fundo de capital. Se é que este colapso já não tenha acontecido por ocasião da declaração de independência das referidas províncias e separação da região em cinco países.

 

A prosperidade pelos trabalhadores tem sido alternativa tanto para o capitalismo, ou seja, para a propriedade pelos fornecedores de capital, quanto para a estatização ou nacionalização, ou seja, a propriedade pelo governo. A propriedade pelos trabalhadores tem uma longa história - embora não seja das mais bem-sucedidas e respeitadas.

 

Talvez seja altamente desejável que os trabalhadores tenham interesse financeiro no negócio. Porém, sempre que se fizeram experimentos com esse propósito - e a prosperidade pelos trabalhadores é algo que se vem tentando há mais de um século - , as iniciativas só deram certo enquanto a empresa se saída bem. A propriedade pelos trabalhadores só funciona em negócios altamente lucrativos. Sempre que o lucro cai, ela não mais resolve o conflito entre salário como meio de vida e salário como custo, ou aquele entre fundo de salário e fundo de capital.

 

A participação financeira no negócio sempre deve manter-se como interesse secundário para o trabalhador, em comparação com o trabalho em si. Mesmo nas empresas mais prósperas, o lucro, ou seja, a contribuição para o fundo de capital, nunca é mais que pequena fração dos salários. Nas indústrias manufatureiras, o custo dos salários em geral corresponde a quarenta por cento ou mais da receita bruta. O lucro depois dos impostos raramente é superior a cinco por cento ou seis por cento da mesma cifra, ou seja, um oitavo do custo dos salários. Na economia total, a conta de salários gira em torno de setenta por cento do produto nacional bruto, o lucro flutua de zero a algo em torno de sete por cento - no máximo, um décimo da conta de salários.

 

Também é muito discutível se a propriedade pelos trabalhadores é do interesse financeiro deles. Nenhum empreendimento será lucrativo para sempre. E se os trabalhadores, como nos planos típicos de participação na propriedade, dependerem de seus investimentos na empresa para garantir seu futuro, como no caso de benefícios da aposentadoria, estarão extremamente vulneráveis. Os trabalhadores, como qualquer outro investidor, não devem manter todos os ovos numa cesta só. Sob este aspecto, a abordagem adotada pelos Estados Unidos, nos últimos cinquenta anos, em relação às pensões e aposentadorias, o desenvolvimento de fundos de investimento muito diversificados, que tipicamente não investem na empresa que emprega os futuros beneficiários, é financeiramente muito mais saudável e bem mais compatível com os próprios interesses dos trabalhadores que a participação na propriedade da empresa empregadora.

 

Sob o ponto de vista teórico, os acontecimentos nos Estados Unidos durante os últimos quarenta ou cinquenta anos parecem configurar a abordagem ótima para a solução destes conflitos. Os empregados das empresas americanas aos poucos se transformam nos verdadeiros proprietários, por maio dos fundos de pensões e dos fundos de investimento, que, por seu turno, se tornam os principais investidores da economia americana. Agora, estes investidores institucionais, ou seja, os agentes fiduciários das poupanças dos empregados, controlam, com efeito, as grandes companhias abertas americanas. Os Estados Unidos, em outras palavras, socializaram a propriedade, sem nacionalizá-la. No entanto, esta nova realidade, de modo algum, solucionou - nem mesmo atenuou - os conflitos entre fundo de salários e fundo de capital e entre salários como meio de vida e salários como custo.

 

Talvez ajudasse em algo se fosse gerado um aprendizado sobre pensar e falar em custos do capital e em custos do futuro, em vez de lucro. Mas só ajudaria; não eliminaria os conflitos. Eles são parte intrínseca da situação, não importa que os mercados operem em economias de mercado ou em economias dirigidas, tanto fazendo que a propriedade seja privada, estatal ou comunitária. Outras informações podem ser obtidas no livro Fator humano e desempenho, de autoria de Peter F. Drucker.

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