"Rudy": superando os limites

"Tanto o Rudy protagonista deste texto, como tantos outros underdogs que vieram antes e depois dele, experimentaram o fracasso, a perda, a descrença. Mas é preciso resistir"

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Existe um termo no vocabulário norte-americano conhecido como "underdog". Um underdog consiste em uma pessoa ou grupo que em uma competição, geralmente esportiva, provavelmente a perderá. Underdog significa algo como "azarão" para nós aqui no Brasil, e sua existência não necessariamente precisa se justificar apenas em competições esportivas, mas também na vida. Resumidamente falando, trata-se de um termo cunhado em cima de outro termo: a superação. Como não poderia deixar de ser, os filmes esportivos geralmente abordam a jornada dos underdogs, os heróis que vão do anonimato à consagração. O mais conhecido dos underdogs é sem dúvida Rocky Balboa, o boxeador imortalizado por Sylvester Stallone em nada mais nada menos do que oito filmes de uma franquia de enorme sucesso.

Mas a superação não existe apenas no cinema ou na jornada de atletas desacreditados que se tornam lendas do esporte. Ela existe, e com um papel importantíssimo, dentro do mundo corporativo. Mas nós já voltaremos a falar da superação dentro do mundo dos negócios em alguns parágrafos, pois precisamos falar primeiro do protagonista deste empolgante drama Rudy (EUA, 1993), filme que nos apresenta à um outro underdog, com certeza não tão conhecido como Rocky Balboa, mas definitivamente um personagem tão real quanto. E sofrido também.

Daniel "Rudy" Ruettiger Jr. (o ótimo Sean Astin, da trilogia O Senhor dos Anéis), não é alto e nem pesado o suficiente para jogar Futebol Americano. Ele também não tem nenhuma habilidade técnica, caso você esteja se perguntando. Entretanto, Rudy cultiva o sonho de uma vida, que consiste em fazer parte do time da Universidade de Notre Dame, um dos mais respeitados times de Futebol Americano Universitário dos EUA, e que, por consequência, representa uma das mais conceituadas instituições educacionais do mundo. Rudy não é louco. Ele sabe que não tem condições de ser titular do time de Notre Dame. Seu sonho é simplesmente usar o uniforme e entrar em campo para um jogo durante a temporada regular, e colocar seu nome em letras minúsculas no arquivo da escola. Todos, com exceção do próprio Rudy, pensam que seu sonho é tolice.

Rudy vem de uma família humilde da classe trabalhadora, onde seu pai (Ned Beatty, de Amargo Pesadelo, 1972), se junta à sua família, professores, vizinhos e quem mais aparecer, no consenso de que Rudy não só deixa a desejar atleticamente, como também intelectualmente, o que tornaria seu sonho de entrar em Notre Dame algo completamente impossível. Mas Rudy persiste: E enquanto sua história se desenrola, como uma antologia de clichês de outros inúmeros exemplares do gênero do cinema underdog esportivo, o filme também persiste. Rudy carrega frescor e honestidade em sua narrativa, que envolve o público a tal ponto que quando o filme vai chegando ao fim, nós finalmente compreendemos a profundidade de seu sonho, que vai muito além do que apenas o triunfo esportivo. Trata-se de uma pequena, porém extremamente potente ilustração de até onde o espírito humano pode chegar.

O filme é dirigido por David Anspaugh, que dirigiu também outro grande drama esportivo, Momentos Decisivos (Hoosiers), em 1986. Ambos os filmes mostram o olho de Anspaugh para o detalhe, e sua preferência em observar seus personagens de perto, e não apenas suas ações e reações. Em Rudy, o diretor extrai uma performance séria e afetuosa do excessivamente carismático Astin, no papel de um jovem determinado que sabe que não é a última bolacha do pacote, mas que está disposto a fazer o melhor que puder com as cartas que lhe foram dadas.

Para começar, ele não pode entrar em Notre Dame. Ele não tem as notas necessárias. Contudo, ele é aceito na Holy Cross, inferior à vizinha Notre Dame, mas ainda assim uma das mais conceituadas universidades do país. Lá, um padre compreensivo (o benevolente Robert Prosky, infelizmente já falecido), lhe oferece conselho e encorajamento, e na última tentativa, Rudy é aceito na Notre Dame, numa das cenas que mais me marcaram emocionalmente no cinema, onde brilham a performance de Astin e a maravilhosa trilha incidental do grande maestro Jerry Goldsmith, dezoito vezes indicado ao Oscar.

Mas sua luta não termina aí. Na verdade, ela está apenas começando, pois ele ainda precisa ser aceito no time de futebol da universidade, o que não será nada, NADA fácil. Principalmente pelo fato de que na época, o treinador do time da Notre Dame era o inflexível Ara Parseghian (Jason Miller, o padre Karras do clássico O Exorcista), que não reconhece nenhuma qualidade em Rudy, que por sua vez, se transforma em um saco de pancadas nos treinamentos da equipe apenas para garantir seu lugar no elenco e mostrar seu valor para o treinador. Rudy abandona a namorada em sua cidade natal, e por quatro longos anos ele praticamente se transforma em uma máquina de estudos para conseguir também manter suas notas, dormindo em um catre na sala do zelador pois ele não tem dinheiro para pagar um aluguel. Enquanto isso, seu pai continua achando que falta um parafuso no filho. Mas nós sabemos que não.

Os filmes sobre azarões formam um gênero durável que nunca sai de moda. Geralmente são produções um tanto previsíveis, já que geralmente, os underdogs triunfam no final. Mas tal noção tem um enorme apelo junto ao público, especialmente pelo fato de que praticamente todo mundo se identifica com tais personagens, de uma maneira ou de outra. Em Rudy, Astin entrega uma performance tão focada e sutil, que o espectador chega a perder a noção de que está assistindo um filme sobre um underdog, e começa a assistir a jornada de um sofrido garoto que simplesmente não irá desistir. E confesso que, assistindo à sequência final do filme, uma verdadeira potência dramática, não contive as lágrimas de satisfação. A sensação exata que um underdog movie deve provocar.

Voltando à vida real/corporativa, o poder da superação nem sempre ajudará o indivíduo a triunfar no final. E devemos estar preparados para isso. Muitas vezes a batalha é árdua, o trabalho parece nunca ter fim, e quando chega o prazo final, nem sempre a tarefa é realizada ou completada. Mas o ato de se esforçar, de se entregar em determinado empreendimento, já oferece uma recompensa. Seja qual for o resultado final. O mundo dos negócios está repleto de cases de fracassos que tornaram-se sucessos absolutos inúmeras tentativas depois.

Tanto o Rudy protagonista deste texto, como tantos outros underdogs que vieram antes e depois dele, experimentaram o fracasso, a perda, a descrença. Mas é preciso resistir. Assim como Rudy fez. Abraçar sua loucura, seu sonho, e seguir em frente, não importa o tamanho do obstáculo que se projeta à frente. Como o excelente e emocionante Rudy mostra em cores tão evidentes, é quase consenso afirmar que não existe sucesso sem o fracasso. Não existe metas sem percalços, e não existe triunfo, sem glória. Seja em sua mesa de escritório, seja na rua, seja no piso de loja, ou nos campos de futebol, abraçe o desafio e não tenha medo de fracassar. O sucesso está logo depois da curva.

Rudy está disponível no mercado de Home-Video.

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