A escola nos oferece apenas um lado do prisma

Uma crítica ao modelo escolar atual, no qual as pessoas são ensinadas a repetir opiniões e assimilar que existe apenas um caminho correto para o sucesso pessoal e profissional

iStock

Durante toda minha trajetória escolar sempre me chamou bastante atenção a forma como as matérias são apresentadas em nossas escolas. Principalmente aquelas que estão mais presentes em nosso cotidiano.

Diariamente ouvimos o senso comum das pessoas, seja na rua, em casa, ou na escola.

Desde cedo aprendemos a receber informações e formar opiniões. Sintonizamos a televisão nos canais mais comuns e dali tiramos nossas conclusões. É muito simples tomar partido de alguma causa após esta ser bem apresentada, de forma que você possa enxergar aquilo que está sendo explicado. Não é mesmo?

É como as histórias das sereias: somos encantados pela maneira como se apresentam, a forma como cantam, mas a consequência deste engano pode ser desastrosa.

Pois bem, o problema está na qualidade e na maneira com que essa informação nos é passada. E principalmente, como ela nos é ensinada nas instituições.

Não consigo me esquecer da forma como fui apresentado à história de Che Guevara, sua atuação em Cuba e também como estudei a Revolução Russa de 1917. As palavras da professora ainda vêm a minha cabeça, juntamente com a paixão que ela nos transmitia ao nos apresentar aqueles fatos, como se estivesse colocando o coração naquelas palavras.

Tudo aquilo parecia muito claro, e extremamente simples. Até o momento em que me formei e consegui ter acesso a outras fontes de informação, que eu sequer imaginava que existiam, e que me apresentaram outra versão dos fatos.

A partir desse novo contato pude contestar a minha visão anterior, e formular verdadeiramente um conceito, e não somente uma opinião.

Criar uma opinião é muito fácil. Eu, por exemplo, posso lhe afirmar que o Atlético é muito melhor do que o Cruzeiro. Mas esta é a minha opinião. Somente a partir de dados técnicos, de ambos os lados, posso formar um conceito.

Se sou a favor ou contra determinado tipo de evento, na verdade não importa. O que importa é a forma como aquilo me foi apresentado, e como as informações me foram omitidas.

É como a recente polêmica sobre a cor do vestido que circulou na internet. É azul ou branco e dourado? Eu posso enxergar de uma forma, mas não podem me retirar o direito de ter conhecimento que outras pessoas enxergam de outra forma. Isso é fundamento. Não é repetição.

Ou seja, na ocasião recebi apenas um lado daqueles eventos. Seja de forma romantizada ou não. A professora e o livro didático adotado naquela ocasião nada citavam sobre as críticas e reflexões que a sociedade fez posteriormente ao modelo comunista. Ou sequer mostravam outros argumentos que pudessem embasar um conhecimento genuíno. O que estava testemunhando naquele momento não era um aprendizado de verdade. Era uma doutrinação. Estava sendo ensinado para repetir uma versão meramente opinativa, sem ter a íntegra dos fatos para averiguar.

Acredite, não é apenas em questões de história e política que estamos recebendo informações incompletas.

Não consigo nem listar o número de vezes em que ouvi críticas ao Mc Donalds em classe. Os professores sempre nos alertaram que o sanduíche não era feito com ingredientes de qualidade, que a carne do hambúrguer usava determinada matéria-prima; que aquela comida nos faria morrer em poucos anos etc.

Eram tantas as críticas que gastaria umas dez páginas pra listar.

Apesar disso, na escola básica nunca ouvi alguém falar sobre quantos empregos a rede gerou e continua gerando. Sobre como a empresa consegue tornar o seu produto mais acessível. Ou como empresa revolucionou o comércio de alimentos no mundo todo. Sobre como surgiu o modelo de franquias. E muito menos sobre Ray Kroc, o homem por trás de todo o sucesso do empreendimento.

Não estou aqui defendendo nenhuma empresa, ou ideologia. Mas o que tento alertar é a maneira como a escola vem apresentado o mundo aos seus alunos. Mostrando-nos apenas uma parte do prisma e se ‘’esquecendo’’ da outra.

É muito por causa dessa ideia que nosso país enfrenta graves problemas de confiança em nossas instituições, tais como o Poder Judiciário. A escola apresenta superficialmente as instituições jurídicas, mas em momento nenhum apresenta às suas crianças e adolescentes a Constituição Federal. Somente alguns poucos que vêm a ingressar em um curso de Direito adquirem este conhecimento básico.

Como se pode criticar alguma coisa sem que se tenha conhecimento sobre o seu funcionamento e aquilo em que se baseia? É simplesmente absurdo.

Com esse escasso rol de informações, os estudantes acabam concluindo equivocamente que o Judiciário é incompetente, que não aplica a legislação ou coisa pior. Enraizando em nossos estudantes o senso comum, que não reflete a verdade sobre os fatos, e que vem sendo repetido nas ruas e nos meios de comunicação.

O pior de tudo é que muitas vezes nos baseamos em nosso dia-a-dia em ideias de senso comum. Simplesmente porque a escola não nos ensinou a formar uma conclusão lógica sobre os fatos e sim, e somente, uma opinião. E opinião meu caro, você já sabe: cada um tem a sua.

Tal omissão não está ocorrendo somente em relação aos nossos direitos. Ela também ocorre com temas como política, gestão pública, tributação, chegando inclusive na forma como se apresentam as profissões.

Assim percebemos como a escola apresenta modelos que perpetuam a ideia comum. Caindo no velho jargão daquela receita acadêmica: tirar boas notas, arrumar um bom emprego, de preferência público, com benefícios e estabilidade. Afirmando para todos os estudantes que aquele é o caminho ‘’correto’’, que é o caminhos dos bons.

A partir disso cria-se a cultura que estigmatiza e cria preconceitos contra artistas, autônomos e empreendedores, os tratando como pontos destoantes. E o pior, isso tudo muitas vezes mostrando esta crítica em slideshow em Microsoft Power Point, produto do empreendedor mais rico do mundo. Apenas para ilustrar a contradição.

Esse método omisso de ensino nos aponta um fator interessante que justifica a perpetuação de certos grupos políticos em nosso país, e a maneira como as eleições e os cargos políticos são vistos em nosso país. Afinal de contas, estamos diariamente tomando decisões baseadas em senso comum, travestido de ensino. Uma pena.

Concluo esse raciocínio com a interessante frase do professor Ricardo Monteiro, doutor em Educação e diretor da Universidade do Futuro:

''O professor abre a janela e diz para onde a criança deve olhar. Mas ele jamais pode dizer o que ela está vendo.''

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.

Avalie este artigo:
(3)
Tags: Educação Empreendedorismo