Mais comentada

"Deficientes" versus educação e mercado de trabalho

Ser deficiente é ser apenas diferente. Este termo sempre foi usado como forma de taxar pessoas de incapazes, quando na realidade o que ele caracteriza é apenas uma diferença

O mundo moderno parece ser dominado pelas coisas rápidas, isto tudo traz uma percepção de que estamos sempre evoluindo. Quando o assunto são os "deficientes", esta história muda drasticamente, em meio aos milhares de avanços rápidos, suas conquistas parecem chegar a passos bem lentos. Buscaremos discutir sobre sua história, em meio a educação e ao mercado de trabalho e exemplificar duas pessoas exemplares que vivem na pele o que é ser DIFERENTE.

Ser deficiente é ser apenas diferente. Este termo sempre foi usado como forma de taxar pessoas de incapazes, quando na realidade o que ele caracteriza é apenas uma diferença. O diferente que nasce de todas as formas e meios e que assusta, pois quebra os padrões sociais e ousa oferecer para o meio algo desconhecido, entretanto apenas meramente DIFERENTE.
Do total da população brasileira, em torno de 24% das pessoas possuem algum tipo de deficiência, sendo a mais comum delas a visual, que é assunto deste artigo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, as principais causas de cegueira no Brasil são: catarata, glaucoma, retinopatia diabética, cegueira infantil e degeneração macular. E pelos dados do IBGE de 2010, no Brasil, das mais de 6,5 milhões de pessoas com alguma deficiência visual, temos: 528.624 pessoas completamente cegas (incapazes de enxergar); 6.056.654 pessoas possuem baixa visão ou visão subnormal (de regular à alta dificuldade visual) e outras 29 milhões de pessoas declararam possuir alguma dificuldade permanente, ainda que usando óculos ou lentes.

Compreendendo o histórico mundial das pessoas "deficientes"


Registros históricos mostram que no período que compreende os anos de 1200 até 1940, pessoas com deficiência eram submetidas a diversos procedimentos que em muitos casos levavam à morte: de 1200 a 1700, eram considerados possuidores de demônios e maus espíritos, sendo torturados e queimados vivos; de 1800 a 1920 começou-se a considerar ser defeito genético, consequentemente pessoas de nível inferior e uma aberração da natureza; e de 1930 a 1940, levou-se ainda mais em conta fatores como deficiência genética, porém ainda se praticava a esterilização ou extermínio (aborto).
Em Esparta, por volta de 480 a.C., crianças recém-nascidas frágeis ou com alguma deficiência eram jogadas do alto do monte Taigeto a mais de 2.400 metros de altura por não estarem dentro do padrão físico adequado (SULLIVAN, 2001). Na civilização romana, que preconizava a perfeição e estética corporal, a deficiência era tida como monstruosidade, fato que legitimava atos seletivos tal como descreve SILVA (1987) o famoso discurso de Sêneca (4-65 d.C) que justifica o infanticídio:
..."Não se sente ira contra um membro gangrenado que se manda amputar; não o cortamos por ressentimento, pois, trata-se de um rigor salutar. Matam-se cães quando estão com raiva; exterminam-se touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos; se nascerem defeituosos e monstruosos afogamo-los; não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis”. (p.46).
A sociedade na China ainda é extremamente intolerante com deficientes. Mais de 10.000 crianças são abandonadas em orfanatos chineses, todos os anos, e destas, 98% são portadoras de alguma inaptidão física ou mental e nunca serão adotadas, carregando a alcunha de “canfei”, que quer dizer: deficientes e inúteis. A cultura desse país ainda vê os deficientes como sofredores de algum castigo divino ou com um tipo de marca moral, mas que se aplica à família toda.
Na África, Gana é outro país onde as deficiências são consideradas maldições e além das pessoas não possuírem nem o mínimo de cuidados que se requer nessas situações, crenças e superstições levam famílias a entregar seus deficientes a curadores-feiticeiros onde são submetidos à tortura e até morte na “tentativa” de curar o doente.
Mesmo com a realidade dura dos países onde pessoas com deficiência eram eliminadas da sociedade por serem incapazes, algumas pesquisas vêm mostrando que essa concepção não ocorreu em todos os períodos históricos. De acordo com as evidências disponíveis, os egípcios parecem ter sido um dos povos antigos que mais manifestaram formas de inclusão social e de estratégias terapêuticas em casos de deficiência.
O Egito chegou a ser conhecido como a “Terra dos Cegos”, tal era a quantidade de pessoas acometidas por doenças oftalmológicas como conjuntivite, catarata e glaucoma. Tais informações puderam ser confirmadas após a descoberta do famoso “Papiro de Ebers”, nome dado em homenagem ao seu descobridor, o egiptólogo Georg Ebers. Neste documento que data de 1.500 a.C, encontram-se fórmulas mágicas e tratamentos para diversos males, incluindo doenças oftalmológicas, além de uma descrição relativamente precisa do sistema circulatório (FINGER, 1994). Existem indicações de que no Egito os portadores de deficiência não eram necessariamente isolados da sociedade, e se integravam em diferentes classes sociais, inclusive constituindo família. Relatos adicionais mostram também que eles exerciam funções de relativa importância social como pode ser observado em diferentes achados arqueológicos (KOZMA, 2006).
O povo Egípcio buscava o desenvolvimento espiritual através da tradição de ensinamentos. Neste sentido, existia um documento chamado “Instruções de Amenemope”, que era tido como um código de conduta moral egípcio e que determinava que anões e deficientes em geral fossem respeitados, sendo este um dever moral (KOZMA, 2006; KOZMA et al, 2011). Esse manuscrito se encontra preservado quase em sua totalidade no Museu Britânico e um de seus trechos diz:
“Não faça gozações de um homem cego nem caçoe de um anão, nem interfira com a condição de um aleijado. Não insulte um homem que está na mão de Deus, nem desaprove se ele erra.” (KOZMA et al, 2011).


Análise - Deficientes Visuais versus Educação e Trabalho

A preocupação com a educação de pessoas cegas surgiu no século XVI, com Girolínia Cardono, médico italiano que testou a possibilidade do aprendizado de leitura através do tato. Peter Pontamus Fleming (cego) e o padre Lara Terzi escreveram os primeiros livros sobre a educação das pessoas cegas (Bruno & Mota, 2001).
No Brasil, o atendimento às pessoas com diferenças visuais iniciou-se com a fundação do Imperial Instituto de Meninos Cegos, na cidade do Rio de Janeiro, em 1854, pelo Imperador D. Pedro II. José Álvares de Azevedo, jovem brasileiro que estudou no Instituto Real dos Jovens Cegos, em Paris, foi o responsável por trazer ao país a idéia e a iniciativa da primeira criação de uma escola para o atendimento de pessoas cegas (Bueno, 1999).
Segundo os dados da Organização das Nações Unidas (ONU), em torno de 10% da população mundial (650 milhões de pessoas) possuem algum tipo de deficiência (ONU, 2012). Apesar de tamanha expressão quantitativa, a grande realidade para esse grupo é a extrema dificuldade em possuir uma atividade regular no mercado de trabalho. No Brasil, alguns mecanismos foram criados para minimizar essa questão, como a Lei 8.213/91, tornando-se famosa como “Lei de Cotas” (IBDD, 2012). Embora a lei venha com o intuito de favorecer o ingresso de pessoas com deficiências nas organizações, estudos relacionados apontam a falha em não assegurar que todos os tipos de deficiência sejam incluídos (RIBEIRO e CARNEIRO, 2009), pois as empresas de forma discriminatória contratam somente pessoas com deficiências que exigem menor esforço de adaptação, deixando poucas possibilidades aos deficientes auditivos, visuais e intelectuais (BEZERRA e VIEIRA, 2011).
Uma pessoa cega ou com baixa visão tem capacidade para realizar as mesmas atividades que alguém sem deficiência, bastando para isto que lhe sejam dadas condições adequadas de trabalho: ajustar um computador, comprar uma impressora Braille, fazer memorandos com letras maiores ou qualquer outra necessidade que aquela pessoa tenha, ou venha a ter, e precisa para cumprir a sua atividade, é plenamente justificada se aquela pessoa mostra-se disposta a fazer e dedicar-se ao trabalho.
“Os deficientes não são doentes, são pessoas que necessitam de cuidados especiais, que incluem a oportunidade de trabalho e a assistência à saúde para compensar suas limitações e impedir ou retardar seu agravamento.” Por este trecho do livro “A pessoa com deficiência e o trabalho”, de Paulo Rebelo, vê-se que é óbvia a necessidade de uma mudança de mentalidade por parte de todos: governo, as empresas e a população. Todos são responsáveis, de algum modo, pela exclusão e marginalização das pessoas portadoras de deficiência, desta forma pesa sobre todos nós a responsabilidade de modificar nossa visão e comportamento.
É preciso entender que uma pessoa com deficiência não deve ser tratada com inferioridade ou com um sentimento de pena. Estas pessoas só precisam que nós as respeitamos e que à elas sejam dadas condições dignas de vida e de trabalho. Se forem dadas condições para se locomoverem com segurança nas ruas e condições de trabalho adequadas a sua deficiência, certamente obterão sua independência e exercerão de forma plena suas funções nas empresas e na sociedade.

Proposta – Entrevista

- Para entender um pouco mais sobre este universo dos deficientes visuais, apresentaremos aqui duas entrevistas com pessoas que vivem esta luta diária com a sua condição e com o tratamento que a sociedade, e em especial o mercado de trabalho lhes impõe -

Joelma Candida
Gostaria primeiramente de agradecer sua disponibilidade para nos dar esta entrevista. Gostaria que se apresentasse: quem é Joelma? E como você se define como pessoa?
Eu sou determinada, não me desespero fácil. Sou uma pessoa que não usa a deficiência para justificar a falta de vontade.

Por favor nos explique a sua deficiência e como ela se desenvolveu?
Eu consigo ver de 5 a 10% no máximo. Sou assim desde que nasci, pois tenho estrabismo e hipermetropia severa. Pelo que me disse o médico, as razões podem ter sido por diversos motivos, entre elas: má formação, o fato de minha mãe e pai serem primos ou hereditário, pois na minha família existem pessoas que são assim também.

Você se sente excluída da sociedade?
Eu diria que parcialmente sim, pelo preconceito que algumas pessoas ainda manifestam.

No lugar onde mora, há boas adaptações para deficientes visuais no espaço público?
As escolas e repartições públicas que passam por reforma, estão adaptando. Quando estudava não existiam adaptações, mas logo que saí eles adaptaram muitas coisas como rampas, barras etc.

Há algum tipo de situação no dia a dia em que você se sente vítima de algum tipo de preconceito?
Sempre fui bem recebida, mas sempre tinha algumas pessoas que demonstravam. Quando estudava a maioria dos colegas me ajudaram, mas sempre tinha alguma piadinha e receio de fazer trabalhos escolares comigo, por exemplo.

Qual a maior dificuldade que enfrenta no dia a dia?
Andar sozinha, me locomover de um lugar para outro sozinha, enfim, resolver coisas simples do dia-a-dia.

Você acredita na limitação de seus sonhos e desejos?
Sempre tive dificuldade, mas tudo que eu tenho vontade de fazer, eu fiz, mesmo com um velocidade menor, e ter o apoio da família sempre foi algo imprescindível para realizar meus sonhos.

Em sua opinião, qual a principal mudança ou ação que os governantes deveriam realizar em prol da comunidade com deficiência visual? Existem indícios de que essa mudança esteja acontecendo?
Sinalização especial das vias, mais profissionais para lidar com as nossas necessidades, adaptação de agências bancárias e urgentemente melhorias nas calçadas, e para a população em si, mais conscientização por parte dos motoristas e empresas de ônibus para que tenham mais paciência e desenvolvimento em geral de políticas de apoio aos deficientes.

Como é para você, o acesso ao mercado de trabalho? O que é preciso para que o trabalho seja desenvolvido mesmo com as limitações?
Eu não gosto desta palavra limitação, acho que isto não existe. Nunca cheguei a ir em uma entrevista de emprego, mas acredito que paciência por parte de todos, computadores adaptados com leitor de voz, iluminação para aqueles deficientes que enxergam um pouco, banheiros adaptados, respeito às diferenças seriam os básicos.

É de conhecimento público (Joelma possui uma página do facebook, onde comercializa seus produtos) que você realiza um trabalho autônomo de criação de diversos produtos usando o crochê com os dedos, como foi o início deste trabalho? Quanto tempo levou aprendendo? O que lhe levou a isto?
Eu sonhei uns 10 anos atrás que eu fazia crochê com as mãos, minha avó já fazia com agulha, e com ajuda dela comecei a fazer do meu jeito sem agulha. Tem 9 anos que venho fazendo, eu comecei fazendo tiras, depois tapetes simples e uns 4 anos atrás que comecei a vender mesmo; e a dois anos foi quando comecei a vender pelo facebook.

Qual a sua visão do mercado de trabalho para os deficientes visuais? Acha que houve crescimento na inclusão de pessoas cegas no mercado?
Eu acredito que sim. Inclusive uma de minhas primas se mudou para SP e conseguiu um emprego na fábrica da Chevrolet para detectar defeitos nas peças e lataria do carro. Me lembro que ela me disse que passou por um treinamento especial que ajudou ela a conseguir se engajar nos objetivos da empresa. Além de treinamento acho que é preciso de um psicólogo nas empresas, pois tenho alguns colegas que possuem dificuldade de aceitação, principalmente quando a deficiência se desenvolve ao longo da vida, no meu caso sempre fui assim então não tenho muito este problema.

Quais ferramentas você usa no dia-a-dia?
Eu uso duas ferramentas do google chamadas Google Digitação por Voz e Talkback no meu celular, que me ajuda a ouvir e responder mensagens e áudio.

O que você sente, quando lhe é oferecido uma oportunidade de fazer algo que muitos duvidam que irá conseguir?
Primeiramente muito grata, além de uma vontade enorme de ser capaz de provar pra mim mesmo que esta pessoa está errada. Geralmente luto muito, e sei que muitos outros colegas que são assim também lutam.

 

Felipe Fagundes (nome fictício por questão de segurança)


Olá Felipe. Obrigada por participar dessa entrevista e do nosso artigo. Primeiramente, gostaria que se apresentasse.
Eu tenho 30 anos e estou no quarto semestre do curso superior de História realizando um sonho de infância, porque amo essa área.

O que aconteceu que afetou sua visão e te trouxe dificuldades de enxergar?
Quando tinha 11 anos desenvolvi Diabetes tipo 1. As oscilações de açúcar no meu sangue foram afetando minha visão, e quando fiquei com somente 70% no olho direito precisei fazer uma cirurgia. A cirurgia deu certo, mas fiquei sem sensibilidade de profundidade no olho.



Como isso afetou seu trabalho e seu dia-a-dia?
Quando fiz a cirurgia eu já trabalhava na empresa que trabalho até hoje, a Indústria Farmacêutica Prati Donaduzzi, então eu não tinha relatos de dificuldade visual no meu histórico. Depois da cirurgia, continuei no mesmo serviço que fazia antes, que é operar máquinas rotuladoras de frascos.

A empresa foi solícita à dificuldade desenvolvida? Ofereceram adaptações ou transferência de serviço para outra posição mais adequada a sua atual situação?
Não. Tudo continuou igual como se não houvesse dificuldades.

Dado a sua experiência própria. Qual a sua visão, sobre o comportamento da empresa em relação às pessoas com dificuldade?
Acredito que eles veem só o lado deles sem se importarem com o funcionário. Eu trabalho duro e procuro sempre dar o meu melhor, e seria uma espécie de “perda” para a equipe, pois teriam que treinar outra pessoa no meu lugar. Até que a pessoa estivesse treinada, teria queda na produção diária, mais erros de produção e etc, então eles preferem se fazer de desentendidos e deixar tudo como está.

A sua dificuldade, já te levou a se ver em meio a algum acidente?
Pequenos incidentes sim. O que mais acontece é que não priorizam minhas horas de alimentação e eu passo mal quando os níveis de açúcar baixam muito. Com certeza é perigoso trabalhar de tal forma, mas o que vejo é que só tomam uma providência depois que algo aconteça.

Ao que parece, sua empresa possui diversos departamentos, chegou a tentar ser transferido para outro que possa lhe ajudar a desenvolver suas atividades de forma mais segura?
Sim, já tentei diversas vezes. Já fiz cursos internos e Recrutamento Interno, além do curso superior que exigiram a princípio, mas preciso da assinatura da minha líder para que a transferência seja concluída, e pelos motivos acima, isso nunca acontece.

O que você acha que as empresas deveriam levar em conta hoje em dia, para ter um ambiente de trabalho saudável e aceitável para pessoas com dificuldades?
Primeiro lugar, levar em conta que uma empresa sem capital humano não existe, por isso valorizá-lo. Segundo, os líderes e gestores em geral deveriam se preocupar em conhecer sua equipe e lutar pelo seu bem também, e não apenas em números de produção. Um funcionário satisfeito com seu trabalho e se sentindo seguro no seu ambiente, produz mais, então é um ganha-ganha. O que ainda se vê, são cargos distribuídos por indicação ao invés de por competência, e isso traz todas as dificuldades e desvio de qualidade no trabalho, digo: não desvio de qualidade do produto, mas qualidade no ambiente de trabalho e na segurança do trabalhador.

Você disse que está no 4º semestre do curso superior de História. Você encontra dificuldades no ensino/aprendizado devido à esse problema de visão também?
Sim. O curso é semipresencial e eu posso rever os conteúdos em casa, usando as ferramentas que aumentam o tamanho das letras e tem os vídeos também, e em sala de aula, procuro sentar na primeira fileira para conseguir ver melhor as aulas transmitidas ao vivo, entretanto quando preciso consultar materiais complementares como livros e artigos impressos, as letras são pequenas (ou normais para quem tem a visão perfeita), e esforço muito minha visão.

Análise das informações recolhidas

A percepção que se tem da sociedade, mais especificamente, a brasileira, aqui, é de que apesar das novas melhorias na acessibilidade, ainda possuímos um sistema burocrático que parece ter ultrapassado os muros dos departamentos públicos e invade cada vez mais os diversos tipos de Ong’s e organizações. A verdade é que em todos os lugares existe uma complexidade desnecessária, que assume um peso ainda maior para pessoas que possuem limitações físicas.
Há ainda um grande número destas pessoas fora do mercado de trabalho, seja por medo e receio ou simplesmente falta de força de vontade dos setores empresariais em acolhê-las, ressalva a aquelas empresas que buscam entender como explorar os instintos mais aguçados delas como um diferencial, e buscam trazer um pouco de humanidade integrando-as e lhes dando a oportunidade de fazer o seu melhor.
O deficiente visual em grande parte é visto como alguém que depende de outras pessoas, e é tratado desta forma, porém com persistência e força de vontade é possível a superação destes obstáculos e inserção no mercado de trabalho, sem que haja este tipo de preconceito, desde que as empresas dêem uma oportunidade para que a pessoa possa mostrar o seu trabalho e se desenvolver, pois muitas competências são válidas independentemente das dificuldades.
Mesmo diante de suas limitações, quando são treinados e assistidos de forma adequada, seus resultados podem ultrapassar o de muitas pessoas sem nenhum tipo de dificuldade, isto porque geralmente o esforço ali colocado é muito mais intenso e direcionado.

Recursos tecnológicos para deficientes visuais

Em termos tecnológicos, o uso de diversos aplicativos de forma gratuita podem ser soluções interessantes, e ultrapassar as barreiras que ainda existem mesmo com a ajuda do Braille. Recursos como sistema Dosvox, livro adaptado, punção e reglete, são fundamentais para a inclusão de pessoas com deficiências visuais na sociedade. O uso de leitores de telas onde o próprio sistema faz a leitura de arquivos, independente de serem em formato word, powerpoint ou até mesmo imagens, é também um recurso direcionado a deficientes visuais totais ou parciais, e por ser um dos mais completos de leitura. Outro recurso é os ampliadores de tela que são direcionados para aqueles que tem um certo grau de visão e que ajuda a visualizar melhor sem necessidade de leitura por parte dos programas.
Neste contexto, a tecnologia assume uma grande importância na vida destas pessoas melhorando sua qualidade de vida. Tanto ajudando na integração social dentro da empresa, como possibilitando estabelecer conexões entre a organização e o indivíduo, tornando o que no passado era quase impossível e para poucos, agora uma realidade que pode ser expandida e vivida pelo mundo empreendedor.
Conceituando estes e outros recursos, que podem ser de grande ajuda:
● DOSVOX: esse sistema operacional (desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro) permite que pessoas cegas utilizem um computador para desempenhar uma série de tarefas, adquirindo assim um nível alto de independência no estudo e no trabalho.
● VIRTUAL VISION: software brasileiro desenvolvido pela Micropower, em São Paulo, concebido para operar com os utilitários e as ferramentas do ambiente Windows.
● JAWS: software desenvolvido nos Estados Unidos e mundialmente conhecido como o leitor de tela mais completo e avançado. Possui uma ampla gama de recursos e ferramentas com tradução para diversos idiomas, inclusive para o português.
● NVDA: sigla em Inglês para "Acesso Não-Visual ao Ambiente de Trabalho". É um leitor de tela para Windows gratuito que permite que pessoas cegas e com problemas de visão usem computadores. Ele lê o texto na tela em uma voz computadorizada e o usuário pode controlar o que é lido movendo o cursor para a área relevante do texto com um mouse ou as setas no teclado. O NVDA também pode converter o texto em braile se o usuário do computador possuir um dispositivo chamado de "display braille". Ele também fornece acesso a redes sociais, compras on-line, serviços bancários e notícias.
Navegar na internet ainda oferece obstáculos, como as muitas propagandas que atrapalham a leitura, e isso fica mais difícil para quem tem problemas visuais. Então, indicamos aqui algumas extensões para navegadores que facilitam a leitura:
● Adblock Plus: sua função é bloquear anúncios e eliminar o risco de clicar em um anúncio por engano. Ele tem versões para Google Chrome, Internet Explorer, Mozilla Firefox, Opera, Safari e Android.
● Evernote Clearly: é uma espécie de bloco de notas virtual. Com um clique, limpa toda a tela e deixa apenas o texto à sua disposição. Assim, o usuário consegue focar suas atenções no texto, ler tudo em uma tela de alto contraste e com letras grandes. A extensão está disponível para Google Chrome, Mozilla Firefox e Opera.
● Chrome Speak: transforma o conteúdo textual de uma página em áudio, garantindo a acessibilidade ao texto. No Firefox, a alternativa que mais se aproxima do Chrome Speak é o Text to Voice.


Concluindo

É preciso ressaltar que boa parte do meio empresarial percebe cada vez mais que é necessário uma integração de políticas públicas sociais junto a sua organização, isto porque o cliente dos dias atuais olha para além de preços e marcas: olha para o que aquela empresa traz para sua vida. No entanto, em âmbitos gerais, pode-se observar que embora exista uma possibilidade enorme de integração social e profissional, tem-se ainda um sistema completamente engessado que se recusa a entender que a deficiência nada mais é do que uma mera DIFERENÇA, e a capacidade intelectual é igual.
Como exemplo disto temos o músico William Henry Webb, mais conhecido como Chick Webb, que mesmo apesar das inúmeras dificuldades e procedimentos cirúrgicos, conseguiu criar sua própria banda, e chegou ao topo dos hits mais tocados dos EUA, também o físico Stephen Hawking, a nossa entrevistada Joelma (que com um simples sonho conseguiu desenvolver seus crochês), e do nosso entrevistado Felipe (que mesmo apesar das limitações e problemas impostos, continua a lutar para realizar seu sonho de ser um profissional de História), e muitos outros considerados como “pequenos talentos” e que não são conhecidos na mídia, entretanto são provas claras de que os sentidos restantes associados a formação acadêmica e profissional, e a disposição as diversas ferramentas adaptativas que permitem eles criarem sua independência, fazem deles pessoas capacitadas ao bom desenvolvimento do aprendizado e do trabalho. Desta forma, políticas cada vez mais constantes de integração de pessoas com deficiência tornam a o setor educacional mais justo e inclusivo, além de ser um fator interessante na busca pela aproximação com o setor social, ligando por fim os diversos setores e o setor e empresarial ao que é justo e trazendo para os deficientes cegos e advindos verdadeiras oportunidades.
Pode-se observar ainda que o convívio social e familiar exerce um papel de enorme importância em suas vidas, desta forma ressaltamos o quão importante são estas relações, tanto no meio empresarial como no meio familiar, onde será praticamente o começo da construção da base importante de desenvolvimento deste indivíduo bem como o ponto de partida para toda a superação que terá ao longo de sua vida pessoal e profissional. Estas relações são importantes para que exista estímulo e encorajamento a enfrentar o ambiente de trabalho, o convívio com outras pessoas e a superação de suas limitações, pois sem este apoio familiar será praticamente impossível engajá-los, simplesmente porque as oportunidades por si só não refletem efeito de forma prolongada, mas sim, são um começo de uma longa jornada, digna de todos os seres humanos não importando o seu grau de diferença.
A família, amigos e conhecidos, são portanto, fatores importantíssimos na tomada de decisão por parte deles em busca de um ensino de qualidade e pela própria empresa ou negócio que a pessoa escolherá para o seu futuro, representando o seu efetivo acolhimento nos meios sociais e tornando as relações entre os diversos indivíduos algo mais parecido com o que é de fato uma verdadeira sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Referências

FERRETTI, Amanda Teixeira Silva. O mercado de trabalho para os deficientes visuais nas empresas privadas a partir da Constituição de 1988. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 17, n. 3339, 22 agosto de 2012. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/22468>. Acesso em: 29 de março de 2018.

LACHNER, Ana Luiza Garcia. Deficientes na China: Negados pelos Pais e pelo País. China Link, Marilia, SP. Disponível em: <http://www.chinalinktrading.com/blog/deficientes-na-china/>. Acesso em 2 de fevereiro de 2018.

MORGAN, Sophie. O País onde os Deficientes são Acorrentados e Violentados. BBC Brasil, Acra – Gana. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150815_deficientes_violencia_hb>. Acesso em 5 de fevereiro de 2018.

LOPES, Gustavo Casimiro. O Preconceito Contra o Deficiente ao Longo da História. Revista Digital, Buenos Aires, Número – 176, janeiro de 2013. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd176/o-deficiente-ao-longo-da-historia.htm>. Acesso em 27 de fevereiro de 2018.

BORGES, Antonio. Projeto DOSVOX. UFRJ, Rio de Janeiro, 2002. Disponível em:
<http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/ >. Acesso em 07 de Fevereiro de 2018.

BRASIL, Ministério Público Federal. Os Recursos Tecnológicos para Cegos. Turminha do MPF, Brasília, DF, 2010. Disponível em: <http://www.turminha.mpf.mp.br/viva-a-diferenca/acessibilidade/os-recursos-tecnologicos-para-cegos>. Acesso em 27 de Março de 2018.

ACESS, NV. What is NVDA? (O que é NVDA?). NV Acess Limited, South East Queensland, Australia, 2007. Disponível em: <https://www.nvaccess.org/>. Acesso em 29 de Março de 2018.

CIRIACO, Douglas. 5 extensões para facilitar a vida de deficientes visuais na internet. Canal Tech, Brasil, janeiro de 2018. Disponível em:
<https://canaltech.com.br/software/5-extensoes-para-facilitar-a-vida-de-deficientes-visuais-na-internet/>. Acesso em 29 de Março de 2018.

FREDERICK, N. Rasmussen. William Henry 'Chick' Webb, legendary jazz drummer (William Henry “Chick” Webb, lendário baterista de jazz). The Baltimore Sun, Maryland, USA, 19 de fevereiro de 2005. Disponível em:
<http://www.baltimoresun.com/features/black-history-month/bal-blackhistory-webb-story.html>. Acesso em 30 de Março de 2018.

 

 

Autoria:

Edmar Wasington Matis - Graduando de Administração de Empresas/Universidade Católica de Brasília. 

Luiza Marina Prigol - Graduanda de Administração de Empresas/ Universidade Católica de Brasília.

Simone Luciane Weiss Rohde - Estudante de Administração de Empresas/Universidade Católica de Brasília

 

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Avalie este artigo:
(0)