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Estratégia: conceitos, modelos e processo

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Em resumo, parece haver pelo
menos um consenso entre estudiosos do campo da estratégia: o de que não há
consenso na sua definição. Não tanto pela multiplicidade de aspectos envolvidos
em sua conceituação e aplicação prática. As definições, em geral, passam por
diversas abordagens e enfoques: algumas relacionam estratégia e objetivos
organizacionais, outras enfocam a adaptação entre as oportunidades do ambiente
e as forças corporativas e outras, ainda, enfatizam as características
subjetivas ou psicológicas das estratégias.

De acordo com Fernando Serra, Maria
Cândida S. Torres e Alexandre Pavan em “Administração estratégica: conceitos,
roteiro prático, casos”; a palavra estratégia, em grego antigo, significa a
qualidade do general. Frequentemente está ligada a dois ou mais competidores
dedicados a perseguir o mesmo objetivo. J. Barney, em “Ganhando e sustentando
vantagem competitiva”, apresenta algumas das principais definições dos
conceitos de estratégia e gestão estratégica já propostas pela literatura da
área, às quais são acrescentadas algumas definições clássicas.

Igor Ansoff, em “A nova estratégia empresarial”, define
estratégia como “um dos vários conjuntos de regras de decisão utilizados para
orientar o comportamento de uma organização”. Michael E. Porter, em
“Competição: estratégias competitivas essenciais”, traz como definição uma
criação de “uma posição exclusiva e valiosa, envolvendo um diferente conjunto
de atividades (…) compatíveis entre si”. Keneth R. Andrews, em “O conceito da
estratégia empresarial”, utiliza “o padrão de decisões em uma empresa que
determina e revela seus objetivos, propósitos ou metas, produz as principais
políticas e planos para a obtenção dessas metas, produz as principais políticas
e planos para a obtenção dessas metas e define a escala de negócios em que a
empresa deve se envolver, o tipo de organização econômica e humana que pretende
ser, a natureza da contribuição econômica e não-econômica que pretende
proporcionar a seus acionistas, funcionários e comunidade” como definição.

R.
Whittington, em “Estratégia como prática”, lança mão de “uma prática social, de
como os praticantes da estratégia agem e interagem” para constituir uma
definição resumida. John Von Neumann e Oskar Morgenstern em, “Teoria dos jogos
e comportamento econômico”, a veem como “um plano completo que especifica quais
escolhas o ator fará em cada situação possível”.

Alfred D. Chandler Júnior, em
“Estratégia e estrutura: capítulos na história da empresa industrial”, ensinam
que “determinação dos objetivos básicos a longo prazo de uma empresa e a adoção
dos cursos de ação da alocação dos recursos necessários para realizar estes
objetivos” podem definir estratégia.

Carl Von Clausewitz, em “Em guerra”,
relaciona estratégia com “o desenho de um plano de guerra e a modelagem de campanhas
individuais para, dentro destes, decidir o grau de envolvimento pessoal”. G. A.
Steiner e J. B. Miner, em “Política de gerenciamento e estratégia: texto,
leituras e casos”, entendem tratar-se de uma “formulação de missões básicas de
uma organização, propósitos e objetivos, políticas e ações estratégicas para
alcançá-los e os métodos necessários para assegurar que as estratégias são
implementadas de forma a alcançar os fins organizacionais”.

William Glueck, em
“Políticas de negócios e gerenciamento estratégico”, tem como perspectiva “um
plano unificado, compreensivo e integrado, formulado para garantir que os
objetivos básicos da organização sejam alcançados”. J. B. Quinn, em
“Estratégias para mudança: incrementalismo lógico”, contribui com “um padrão ou
um plano que integra uma organização aos seus objetivos maiores, políticas e
uma sequência de ações para formação de um todo coeso. Uma estratégia bem
formulada ajuda a movimentar e alocar os recursos organizacionais em uma
postura exclusiva e viável , baseada nas suas competências e deficiências
internas, antecipando as mudanças no ambiente e as ações contingenciais dos
oponentes” como definição de estratégia.

K. J. Hatten e M. L. Hatten, em
“Gerenciamento estratégico efetivo: análise a ação”, resumem estratégia como “a
forma de alcançar objetivos organizacionais”. H. Mintzberg e A. McHugh, em
“Formação estratégica em Adhocracia”, inserem “um padrão num fluxo de ações e
decisões” no contexto de definições de estratégia. Finalizando, o já citado
Barney, na também já citada obra, a define como “um padrão de alocação de
recursos que permite às empresas manutenção e melhora no seu desempenho”.

Percebe-se, a partir dos conceitos apresentados, uma
diversidade considerável nos pontos de vista e abordagens utilizados. Enquanto
um dos conceitos define estratégia como a própria natureza dos negócio,
incluindo os métodos a serem implementados para alcance dos objetivos
organizacionais, outro utiliza a abordagem como um plano de decisão do grau de
envolvimento pessoal necessário à concretização de campanhas militares.

Outra faceta da estratégia aparece nos conceitos
apresentados: o estabelecimento de um padrão de comportamento em relação às
ações ou decisões tomadas pela organização. Note-se que, se considerado apenas
este conceito, somente pesquisas longitudinais – capazes de levantar dados
primários e secundários ao longo do tempo – seriam válidas para a descrição e
análise científica de estratégias empresariais.

Muitos autores destacam a questão do planejamento na
conceituação de estratégia, considerando um dos principais elementos ao longo
da evolução histórica do campo dos estudos na área. Pressupõe-se, sob este
ponto de vista, um ambiente predominantemente estável, ideal para o
estabelecimento de previsões a respeito de possíveis cenários futuros. Segue
esta mesma linha de pensamento o conceito de estratégia como um plano
unificado, passível de compreensão e integrado a todas as tarefas
organizacionais.

Ainda segundo o citado Barney, as aplicações mais
tradicionais de estratégia concorrem para a utilização prática dos conceitos de
missão, objetivos e táticas na implementação do conceito. Segundo esta
perspectiva teórica, estes conceitos podem ser hierarquizados e aplicados em um
contexto de gestão estratégica.

Esta
concepção do conceito de estratégia apresenta forças e fraquezas, conforme
apontam as conclusões do autor a este respeito. Sob o ponto de vista favorável,
o conceito de estratégia, se assim considerado, pode ser aplicado
eficientemente no sentido de alcance do melhor desempenho organizacional
possível. Esta visão de estratégia também torna mais tangível e transparente o
processo estratégico a todos os envolvidos na organização, além de esclarecer o
papel a ser desempenhado por cada ator em cada nível organizacional.
Finalmente, observa-se um grande potencial na transformação da estratégia em
uma ação corrente por meio da alocação de recursos direcionados ao alcance de
objetivos e por meio de táticas específicas.

Como principal fraqueza, considerou-se que este modelo
hierarquizado de estratégia pode conduzir a excessivas introspecções
organizacionais, deixando de lado a possível avaliação de oportunidades ou até
mesmo a adequada identificação de ameaças do ambiente. Na prática, existem
vários exemplos de empresas que falharam na ligação ou alinhamento entre
análises externas e internas na escolha da missão, objetivos, estratégias e
táticas. Sob este ponto de vista, o processo interno tende também a um excesso
de formalismo na escolha e na implementação da estratégia. Concluindo, as
limitações da abordagem hierárquica concentram-se predominantemente na
diversidade de opções que as organizações têm ao selecionar objetivos possíveis
para atender a uma determinada missão. Por conseguinte, as escolhas realizadas
neste nível passam a impactar diretamente outras estratégias e táticas a serem
escolhidas e implementadas.

Após a análise das diversas definições de estratégia, o
citado Barney conclui que estratégia é o padrão de alocação de recursos que
permite às empresas manterem ou melhorarem o seu desempenho. A estratégia mais
adequada seria aquela que neutraliza as ameaças e explora as oportunidades, ao
mesmo tempo em que minimiza as fraquezas internas. A gestão estratégica, por
sua vez, é considerada como o processo de escolha e implementação das
estratégias.

No texto “Crafting strategy”, considerado por Sergio
Bulgacov em “Administração estratégica teoria e prática” um trabalho de
referência na área, o já citado Mintzberg propõe uma classificação que se torna
amplamente disseminada dos conceitos de estratégia: os chamados 5 Ps. De acordo
com esta classificação, a estratégia pode ser considerada como: plano, padrão,
posição, perspectiva, e ploy (um truque ou manobra para enganar o concorrente).

Em complemento à sua clássica conceituação de estratégia,
Mintzberg apresenta ainda o modelo das estratégias deliberadas e emergentes e a
forma como os diversos conceitos propostos se apresentam na realidade, a partir
de uma combinação dos diferentes tipos de estratégia. É de sua autoria o livro “Safári
de estratégia”, reconhecido pelo uso das metáforas na apresentação das escolas
estratégicas. Nessa obra, apresenta-se um conceito amplo de estratégia
equivalente à utilização de diferentes desenhos organizacionais na adaptação ao
ambiente. Para cada desenho, foram utilizadas metáforas de animais: aranha
(design), esquilo (planejamento), leão (poder), pavão (cultura), avestruz
(neo-institucionalismo) e e ambiente – isomorfismo) e camaleão (adequalção
ambiental).

Henk. W. Volberda, em “Crise em estratégia: fragmentação,
integração e síntese”, apresenta outra visão do conceito de estratégia a partir
de uma evolução histórica de três perpectivas: clássica, moderna e pós-moderna.
Segundo a abordagem clássica ou tradicional, estratégia é “um processo de
planejamento deliberado (formal), iniciado pela cúpula (hierárquico), baseado
em análise industrial elaborada (racional) e focado no desenvolvimento de uma
estratégia corporativa coesa e ambiciosa (consistente)”. Destacam-se na origem
desta perspectiva tradicional os trabalhos clássicos de Chandler,entre outros
estrategistas e consultorias em gestão, especialmente no fomento às chamadas
ferramentas de análise, instrumentos que auxiliaram na institucionalização dos
departamentos de planejamento estratégico. Na abordagem moderna, a estratégia é
apresentada como um processo complexo, desconexo e desordenado, em torno do
qual são confrontados fatores concorrentes. Privilegiam-se, de acordo com esta
perspectiva, as pesquisas descritivas e não prescritivas. Na perspectiva
pós-moderna, por sua vez, a estratégia pressupõe a utilização de esquemas
estratégicos ou modelos de referência,permitindo que a organização e o ambiente
sejam compreendidos pelos stakeholders (partes interessadas).

Em outro estudo de referência, Ellen E. Chaffee, em “Três
modelos de estratégia”, apresenta o conceito de estratégia em três modelos
distintos que revelam as visões da estratégia compartilhadas por alguns
autores, demonstrando as diferenças entre os modelos no que se refere a seus
natureza, foco, alvo e comportamento estratégico.

A partir da análise do modelo de estratégia linear, Chaffee
afirma que essa corrente privilegia o planejamento, tomando em conta ações
metódicas, dirigidas e sequenciais. Nesse modelo, a estratégia consiste em
decisões integradas, ações ou planos que se ajustam para alcançar os objetivos
das organizações. Esses objetivos e os meios para alcançá-los são vistos como
resultados da decisão estratégica.

No modelo de estratégia adaptativa, a organização avalia
continuamente as circunstâncias externas e internas para a condução de ajustes
internos ou externos. O ambiente, nessa corrente, é considerado fonte de
oportunidades e riscos que necessitam de alinhamento com as potencialidades e
os recursos da organização. A adaptabilidade é condição necessária e o ambiente
considerado como o sustentador da vida organizacional.

O último modelo proposto por Chaffee, no qual a própria
autora se enquadra, refere-se à estratégia interpretativa, que se desenvolve
paralelamente aos estudos de interesse pela cultura organizacional e aos simbolismos
da administração, geralmente excluídos da literatura sobre estratégia. O modelo
assume que a realidade é socialmente construída por meio de um processo de
interação de referência que permitem que a organização e seu ambiente sejam
compreendidos pelos stakeholders da organização.

Outra tradicional dicotomia presente nas proposições de
conceitos de estratégia refere-se à distinção entre conteúdo estratégico e
processo estratégico. Quando a estratégia é considerada como conteúdo,
privilegiam-se as explicações teóricas com ênfase no planejamento, no plano na
pré-formulação de objetivos e de meios para alcançá-los. Por outro lado, quando
a ênfase recai no processo estratégico, surgem teorias com foco no padrão de
decisões e ações efetivamente tomadas ao longo do tempo.

Com relação à abordagem do conceito de estratégia na
produção científica brasileira, predominam as explicações teóricas chamadas
deterministas, uma clara indicação de que a ênfase da maior parte das pesquisas
nacionais no campo de estudos de estratégia recai no estudo do planejamento
estratégico, das estratégias de posicionamento no mercado e das estratégias de
adaptação ambiental. Considerando-se a classificação de H. Mintzberg, Bruce
Ahlstrand e Joseph Lampel em “Safári de estratégia: um roteiro pela selva do
planejamento estratégico”, a escola teórica predominante nos trabalhos
nacionais até o momento é a do posicionamento, com foco na busca de vantagens
competitivas, na cadeia de valor e nas estratégias de diferenciação e de
custos. Michael Porter, expoente desta linha de pensamento, é o autor mais
citado nas publicações nacionais.

http://www.administradores.com.br/artigos/academico/estrategia-conceito-sob-ponto-de-vista-de-autores-brasileiros/69575/

Outras informações podem ser obtidas no livro
“Administração estratégica- teoria e prática” de autoria de Sergio Bulgacov.

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