Carreira, uma espiral decrescente

No cenário atual da globalização, não há garantias de estabilidade no trabalho. Criam-se as crises em países, instabilidade nas bolsas de valores, guerras e conflitos pelo mundo. Estabelece-se instabilidade no mercado de trabalho com criação e aperfeiçoamento das metodologias de execução das atividades operacionais em suas diversas ramificações.

Retrato do mercado de trabalho

Imagem 1: retrato do mercado de trabalho

O sonho com carreira, status, com bonança e as facilidades os quais o dinheiro ou a posição social promovem são grandes, permitindo aumentar o ego de muitos. A principal preocupação não deve ser apenas ascender em algum tipo de hierarquia ou status financeiro, mas como se manter, sem regredir. Há um lema forte nos últimos anos, acentuado pela crise política no país e pela alta do desemprego, baseado até mesmo na Filosofia: “o que sou e para onde vou?”. Dada a força propulsora da tecnologia no núcleo dos negócios, as estratégias das empresas, independentemente do segmento de atuação, estão muito mais dinâmicas, rápidas de serem implantadas e também ágeis ao impactarem a sociedade que, por sua vez, tem mudado os hábitos e aceitado as mudanças, apesar de focos menores de resistência, considerando-se as gerações passadas. A exemplo desse tópico, citamos as multinacionais estrangeiras que substituíram os funcionários nativos por asiáticos e latinos. Muitas indústrias de tecnologia migraram para Ásia em busca de preços, qualidade e baixo custo operacional. Em troca, recebem lucros maiores, apesar da logística, de impostos e de fretes.

Cargos e carreiras estáveis já não existem em abundância, como antes dessas mudanças no núcleo das empresas e dos governos. Qual tem sido os resultados? Países de primeiro mundo atingem alto índice de desemprego, subsidiando projetos de empreendedorismo com isenção de impostos, com a finalidade das novas empresas absorverem a mão de obra ociosa, sem trabalho. As cidades com elevado patamar de desemprego possuem subsídios assistenciais por parte do governo, e este tende a ter as contas no vermelho, devido à baixa arrecadação de impostos.

No Brasil, não tem sido diferente. Indústrias têxteis, de calçados e de manufatura de componentes eletrônicos já se tornaram escassas, pois migraram para a Ásia ou para países vizinhos, em busca de preços menores e reduzida carga tributária. Usando a Inteligência Artificial, a área de serviços substituirá fortemente os funcionários por sistemas desse tipo. Exemplos: Bradesco, com a aquisição do Watson; IBM e a seguradora japonesa Fukoku Mutual Life Insurance Company, com sede em Tóquio; além de outras que atuam no mesmo segmento, com foco na automação de serviços, atividades repetitivas. Ver referência de McKinsey&Company (http://www.mckinsey.com/business-functions/digital-mckinsey/our-insights/where-machines-could-replace-humans-and-where-they-cant-yet acessada em 01 de janeiro de 2017), traduzida em: <http://flaviosodre.com.br/downloads/04Automacao-Setores_asperspectivasdasorganizacoes.pdf>, acessado em: 27 de janeiro de 2017.

A carreira e os benefícios dos cargos e salários, para muitas empresas, são migalhas. Pela abundância de mão de obra qualificada, funcionários antigos existem apenas em áreas estratégicas; obsolescência programada dos contratados, quer sejam efetivos, quer terceiros, quer autônomos. Haverá, porém, os cegos que levantarão as mãos, venderão as vidas em troca de migalhas/salários incompatíveis, maquiados pelo discurso e pelo teatro dos vampiros defensores da meritocracia.

Ainda existe o sonho da carreira, de manter ou atingir determinada posição social acima da média, de ter um salário alto... Homens perseguindo premiações, sacrificando-se, sendo persistentes, esforçados, a ponto de trabalharem muitas horas semanais, mas nunca satisfeitos, considerando-se merecedores sempre daquilo que possa ser maior, descontentando-se com a posição e com as conquistas atuais, além das adquiridas ao longo da jornada. Há pessoas que não percebem ou admitem os limites dos próprios corpos e das mentes e desafiam a resiliência, tornando-se alucinados por resultados rápidos. Estes adoecem os corpos, ou até os invalidam, numa falsa ilusão de imortalidade e de proteção angelical perpétua, como se o mal nunca os tocassem ou afligissem.

No cenário atual da globalização, não há garantias de estabilidade no trabalho. Enfrentam-se crises em vários países, instabilidade nas bolsas de valores, guerras e conflitos pelo mundo. E mais, instabilidade no mercado de trabalho com criação e aperfeiçoamento das metodologias de execução das atividades operacionais em suas diversas ramificações. Para não estar fora do mercado de trabalho, o aprimoramento humano torna-se constante e exaustivo: estudos de línguas, experiência de vida no exterior, horas extras dentro do trabalho e as adicionais ao levar trabalho para casa. Percebe-se que a lista de requisitos a serem cumpridos não para de crescer! E somente para manter-se ativo. Alguns alcançam altas posições e salários; outros acreditam merecer um estilo de vida igual ao do alto escalão e adoecem tentando, sem perceberem a riqueza que possuem, como a intelectual, a maturidade. Suas mentes e emoções absorvem a sensação de injustiça e os fazem acreditar fortemente nisso. Então, surge a impotência quanto ao caos da locomoção, seja pelos transportes públicos nas metrópoles, inclusive em São Paulo, cujo percurso ao trabalho está por volta de uma hora e 30 minutos de duração, a duas. Multiplica-se essa média por dois, ida e volta. Seja ainda pela locomoção dos veículos que, embora o tempo seja menor, pelo tráfego intenso, torna-se desgastante! Os minutos empregados nesse período, em ambos os casos, é perdido.

Ainda na temática do mercado de trabalho, ocorrem fusões, terceirizações, privatizações... Como consequência, muitas carreiras são abaladas, surgem salários incompatíveis com profissionais experientes e com currículo abastado de cursos, palestras ou treinamentos. Negligenciam-se experiências riquíssimas desenvolvidas ao longo dos anos. A oferta de trabalho fica escassa quanto aos salários melhores ou maiores - grau de exigência maior, a evolução/aprimoramento do mercado. A aplicação da obsolescência programada é perfeitamente aplicada por existirem profissionais qualificados e jovens, movidos por ferrenha obsessão de status ou salários, não se importando em receberem menos, comparados aos que foram demitidos e que possuíam alguns anos de trabalho exercidos com competência. Temos, portanto, a prostituição da mão de obra e a desvalorização dos profissionais extremamente capacitados, de meia-idade ou próximos da terceira idade. Tais pessoas passam à beira do caminho, submetendo-se a funções menores e a atividades diferentes de suas formações. Por fim, ainda têm salário/sustento. Uma imagem referenciada no meu livro, Des-Envolvimento da Amazônia, América Latina e as Privatizações no Brasil (2 ed. ver. Ampl. São Paulo: Baraúna, 2013. P. 348), esclarece esse cenário de impotência e de destruição do homem, ou de sua essência. <http://flaviosodre.com.br/downloads/corporacoes.png>. Acessado em: 27 de janeiro de 2017.

Para as oportunidades de trabalho existentes, pressões maiores por resultados, muitas horas a serem dedicadas à empresa, colegas de trabalho com apetite de sucesso tornam-se competidores, e até inimigos. Assim, passam-se os anos, e o ciclo repete-se com metodologias similares. Muitos não conseguem permanecer na parte mais aberta da espiral, mas apenas nas menores, adentrando em um funil, sendo lançados para um novo oceano de salários ou benefícios menores, até que fiquem na dependência de familiares ou do Governo, talvez como novos integrantes da periferia ou, em extremo caso, moradores de rua. Os que conseguiram ter os próprios lares/imóveis, estão propensos à renda menor, talvez com dependência do assistencialismo governamental ou de familiares, privando-se de cuidarem melhor de si mesmos, rezando para não dependerem do sistema público de saúde e da morte precoce.

Graças à meritocracia mal aplicada, o mundo caminha aceleradamente para a falência: executivos, diretores, competidores, inimigos, zumbis, os considerados fracassados ou preguiçosos, todos estão inseridos no mesmo problema, rumo à destruição de si, a uma guerra entre classes sociais e operárias, para alcançarem as metas absurdas dos acionistas, stakeholders, governos tiranos, abastados de recursos financeiros e materiais, egoístas, egocêntricos, frios e sem piedade. Na meritocracia, se não seguimos fórmulas, frases, palestras dos gurus ou mestres das redes sociais, haverá alguns rótulos: fracassado, tirano, condenado à morte ou à sarjeta. Trata-se de um sistema egoísta que ignora a essência do homem, sua força de seguir sua filosofia e estilo de vida, apregoada como verdadeira e válida para tudo. A meritocracia, quando bem empregada, gera ótimos resultados a todos e para todos os níveis de uma hierarquia, pois estimula equipes e sociedades. Todavia, não tem sido essa a realidade!

Pessoas são números que devem gerar números maiores a seus líderes... Capitalismo selvagem, um ciclo infinito para geração de resultados, a qualquer custo e de qualquer forma. Uma sociedade doente, com família destruídas, pessoas apáticas ou frias, sem amor e vida... Tem-se um efeito dominó de destruição. Já não nos reconhecemos como homens intelectuais/pensantes, mas como seres semelhantes aos bichos, guiados por instintos.

No artigo “As perspectivas futuras das organizações e o trabalho”, publicado em 01 de abril de 2017 (<http://flaviosodre.com.br/index.php/artigos/cotidiano/as-perspectivas-futuras-das-organizacoes-e-o-trabalho>.), traçamos um panorama do que vem ocorrendo no mundo.

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