Dinâmica de amor e ódio afeta funcionários e empresas

Um número significativo de empresas criam programas – sob a responsabilidade da área de Recursos Humanos – de atração, integração e desenvolvimento de seus colaboradores, visando criar um vínculo de amor com a organização. Vem destas ações a conhecida expressão popular que qualifica esta lealdade de, “vestir a camisa”.

Ou, de forma até mais radical, são estimulados a adotar o “sobrenome” corporativo, utilizado em todos os seus contatos, como forma de conquistar reconhecimento social. De uma forma até mesmo pejorativa, diria que algumas destas pessoas terminam sendo tatuadas, cedendo seu corpo para ampliar essa identidade.

Todo este processo criou, ao longo do século XX, e que persiste no atual, XXI, o que tem sido chamado de “o ser organizacional”, que entrega sua vida ao universo corporativo. Descuidando até mesmo dos seus demais papéis, como indivíduo, família, relação conjugal, vida social, etc. Ou seja, boa parte dos indivíduos descuida de criar e manter uma “identidade pessoal”.

Mas o que temos observado, desde os anos 80, – quando criamos o programa Pós-carreira – preparo para a aposentadoria – no Brasil, é de que estas mesmas atenções e cuidados não são levados em consideração quando do desligamento do funcionário.
Orientar os indivíduos no processo do afastamento corporativo e prepara-lo para esta nova etapa da vida, ainda tem sido raro nas organizações.

O despreparo de muitas destas pessoas tem provocado depressão, separações conjugais e até suicídios.

O tema merece mais atenção ainda se considerarmos que vem aumentando os índices de Longevidade. Que exige de cada um a capacidade de se reinventar ao longo de toda a vida. E não apenas para o emprego ou trabalho.

Interessante registrar a forma como os europeus, do norte da região, dividem o que chamam de três etapas da vida: Preparação para o trabalho; Trabalho e Pós-Trabalho.

E tem constatado de que a última – Pós-trabalho – tem se estendido bem mais do que as etapas anteriores. O que significa o surgimento de novos desafios para toda a humanidade. Situação para a qual, boa parte do ser humano não está preparada.

O mais grave ainda é que toda esta relação de amor, construída ao longo da permanência na empresa, dependendo da forma como foi conduzido seu processo de desligamento, termina se tornando uma relação de ódio.

Ao longo do meu trabalho conheci vários casos de ex-funcionários, cujo afastamento não respeitou a individualidade, levando as pessoas a proibirem toda a família, e amigos, de consumirem produtos ou serviços da empresa.

Para ampliar toda essa dinâmica, é possível constatar que também as corporações desaparecem ou são incorporadas. Já não podem ser vistas como “entidades” imortais. E as próprias carreiras tem se tornado mais curtas além do desaparecimento de algumas atividades, substituídas por formas mais atuais de trabalho.

Portanto, além de captar, integrar, manter e desenvolver os colaboradores, é fundamental provocar o autodesenvolvimento, como uma forma de preparar o indivíduo para que ele assuma sua responsabilidade pela vida, com todos seus desafios para as diferentes etapas.

Este encaminhamento, da parte das corporações, deve instrumentalizar o próprio indivíduo para que assuma algo que é indelegável. Que seja o autor e personagem da sua história de vida.

A tônica deste artigo não é de autoajuda, e muito menos apresentar receitas mágicas. Apenas criar provocações para que tanto as corporações, como os indivíduos, se sintam sensibilizados, e assumam seu papel.

 

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